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Consultando um velho e quase esquecido manuscrito depositado na Biblioteca Municipal do Porto, escrito pela pena do incansável Henrique Duarte e Sousa Reis, deparei-me com este texto:

«No dia 20 de março de 1835 foi assassinado à entrada da rua do Correio o célebre oficial de infantaria n.º 19 Pita Bezerra, odiado nesta cidade pelos insultos que durante o governo usurpador prodigializava a seus habitantes; recolhia ele do tribunal criminal onde era julgado por seus crimes como paisano, e nesse indicado local junto à calçada dos Clérigos principiaram a apedreja-lo, e dando-lhe uma pedra no peito caiu, porém erguendo-se um homem coberto com capote e chapéu desabado lhe cravou no peito um punhal, logo o seu corpo foi arrastado para a praça de D. Pedro, onde esteve exposto às vistas do povo, que recordado da malvadez do assassinado ainda o arrastou pelas ruas da cidade em direção à ponte de barcas, conduzindo este desgraçado corpo sem vida ao Castelo de Gaia, como sítio em que existia a lembrança de muitos danos causados à cidade; regressava este tristíssimo espetáculo para a ponte, quando nela apareceu um oficial militar e persuadiu aqueles que arrastavam este corpo a lançarem-no ao rio, o que fizeram amarrando-lhe uma pedra ao pescoço, e assim finalizou a horrorosa cena, que a ralé do povo de semelhante modo deu a esta cidade do Porto, que não pode vê-la sem o maior sentimento, compadecendo-se até da desventura desse homem que deste modo remiu a lembrança dos seus antigos ultrajes, a qual desde então se esqueceu e se lhe perdoou».

(em Apontamentos para os Anais da cidade do Porto 1832-1839)

 

Procurando por mais informes sobre este indivíduo, socorri-me do velhinho repositório portuense que foi (e é) a revista O Tripeiro. E nele pode encontrar alguma informação que agora partilho com os meus caros leitores.

 

No número de janeiro de 1954 encontro a seguinte nota, tomada do livro da cadeia da Relação do Porto: 

«Em 20 de agosto de 1834, deu entrada nas cadeias da Relação do Porto, João Pita Bezerra, ex-major reformado, casado com D. Maria Teresa de Jesus Ribeiro Codeço, de 45 anos de idade, assistente na vila de Melgaço, filho de João Pita Bezerra e de D. Francisca de Miranda, já defuntos. Estatura alta, cara comprida, olhos castanhos, cabelos e barba pretos. Vestido com fardeta de pano azul, colete dito preto e calça de sarjão preto; o qual veio remetido do castelo de S. João da Foz e entregue militarmente para ficar à disposição do juiz relator, a quem o seu processo for distribuído.»

A este registo, foi colocada a nota marginal referente ao acontecimento acima relatado: «Em 20 de março de 1835, foi responder ao tribunal da Relação e regressando para estas cadeias foi morto na rua pelo povo.»

 

viz.jpg

o local onde Pita Bezerra foi assassinado é, sensivelmente, o que se vê na foto: entre a rua do Correio e a calçada dos Clérigos, em toponímia moderna rua Conde de Vizela e rua dos Clérigos. a imagem é moderna servindo como ilustração à publicação (tem de se ter em atenção que em 1835, este aspeto seria bem diferente do de hoje)

 

Para completar estes informes históricos, falta juntar alguns outros sobre os dias em que tão distinta criatura circuitava pelas ruas portuenses, dia a dia criando a sua fama. Esses podem-se colher no O Tripeiro de janeiro de 1919, ainda que escritas mais de 80 anos depois[1]. Dele retiro a seguinte passagem:

«Pita Bezerra pertencera ao exército, onde teve a patente de major, e como a época em que viveu era a da guerra civil entre Pedro e D. Miguel, ele seguira o partido deste último, com tal sectarismo que, levado pelos impulsos da sua paixão política, se transformou no mais temível chefe dos caceteiros que, por ventura, possa ter existido.

Fazer desancar e desancar ele próprio qualquer pessoa, fosse homem, fosse mulher, fosse nova ou fosse idosa, por uma simples suspeita de simpatizar com a causa liberal - era o seu maior prazer. Quantas mulheres não foram por ele maltratadas se acaso via alguma fita, ou alguma coisa azul no vestuário! Quantos homens não foram desancados por trazerem um simples botão desapertado no colete!

E tantas proezas destas fez ele que um dia, correndo-lhe a fortuna adversa, se viu metido entre as paredes da cadeia da Relação do Porto, a esvurmar ódio impotente contra o povo portuense a cujas mãos veio a morrer, linchado, quando dela saíra para julgamento.»

 

Neste mesmo artigo, e após se apresentar um extrato do romance de Camilo A bruxa do Monte Córdova, onde Pita Bezerra ficou romanceadamente imortalizado, é transcrito um pequeno relato feito a Alberto Pimentel, anos antes, por uma pessoa que se diz contemporânea daqueles sucessos:

«Pita Bezerra, descendente de família fidalga dos arredores de Viana, era capitão do regimento 24, que veio de Bragança reforçar, por ordem de D. Miguel, a guarnição do Porto. Para castigar mais comodamente o delito de ter convicções liberais, usava cacete, em vez de espada; quebrando um cacete tinha muitos à sua disposição, porque o regimento a que pertencia trouxera de Bragança um macho carregado deles.

Na rua... à porta das igrejas, e principalmente à entrada da cadeia, moia de pancada quem fosse suspeito de liberal. Não escapavam nem senhoras, nem velhos, nem crianças. Para pretexto de uma sova, bastava a vítima trazer desapertado o botão fundeiro do colete, bastava um laço, um lenço rajado de azul e branco! Se a vítima fosse senhora, o menos que Pita Bezerra lhe fazia era por-lhe em tiras o enfeite e dar-lhe com elas na cara.

Conduzido em 1835 ao tribunal (casa de Domingos Augusto, da Fábrica), onde foi responder, a populaça envolve a escolta de dezasseis soldados, que o acompanhava.

O filho do general C... por vingar agravos de família, tira de debaixo do braço um caco de granada, arremessa-o à cabeça do preso, e deixa-o logo exânime.

A populaça ata-lhe ao pescoço uma corda, arrasta-o pelas ruas da cidade e até pelas de Vila Nova. Só depois de muitas diligências é que o barão de Fonte Nova (Bento de França), general das armas, seguido de um esquadrão de cavalaria, consegue pôr termo à vendetta.».

 

Como se pode verificar pela leitura integral dos extratos que aqui coloco, não se pode dizer que os relatos sejam unânimes nos pormenores de tudo o que se passou; mas numa coisa eles não dispensam essa unanimidade: no transmitir-nos o caráter ignóbil e imoral do sr. major do exército Pita Bezerra, e do terrorzinho que pelas ruas desta cidade espalhou, vai para quase duzentos anos.

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1 - O assento do livro da Cadeia de Relação transcrito acima, encontra-se também neste artigo de 1919.

Fonte da imagem www.getaroom.com.au

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