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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Quando D. João II morou na Lada...

19
Mai21

Ao capítulo XLIX da crónica de el-rei D. João II, o Príncipe Perfeito, é referido que em setembro de 1483, este partiu de Abrantes acompanhado pela rainha D. Leonor[1], o príncipe seu filho D. Afonso[2] e D. Manuel[3], tendo ido em romaria a Lamego - a São Domingos da Queimada - pedir a deus que lhes desse filhos dos dois. Depois, a rainha veio para o Porto, antes passando por Viseu e o rei foi a Vila Real e Bragança, visitando outras localidades transmontanas e interamnenses que ainda não visitara. «Correndo montes reais, e provendo alguns reparos das fortalezas, e assim coisas da justiça que cumpriam. E tornou-se ao Porto onde a rainha com o príncipe estava esperando, e por virem grandes invernos estiveram aí até janeiro do ano seguinte de oitenta e quatro, e do Porto se vieram a Aveiro...» (o sublinhado é meu).

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a lada no início do século XX , antes das demolições provocadas pela construção do túnel

 

De facto, foi a 11 de dezembro que a comitiva chegou ao Porto, sendo a primeira vez que D. João II visitava a cidade, na qualidade de rei. Aqui passou cerca de um mês, à conta do péssimo inverno que se fazia sentir. A passagem da corte pelo Porto não nos deve espantar, uma vez que era comum a sua itinerância por todo o reino, embora o norte fosse região pouco visitada pelos monarcas (falta saber qual a reação da cidade ao albergar a comitiva, dado o privilégio que esta possuía quanto ao pernoite da nobreza por mais de três dias dentro de muros; ainda que ao tempo de D. João II esse privilégio ia-se fazendo letra morta). Mas o rei não terá passado este tempo exclusivamente dentro dos muros. Por exemplo, durante a sua estadia, deslocou-se em romaria até ao convento de Nossa Senhora da Conceição, localizado em Leça da Palmeira. Foi contudo no Porto que a corte estanciou, segundo regista a sua crónica. E sabemos que o local escolhido terá sido a Lada, pela memória que subsiste num ato notarial, à guarda do AMP, respeitante à venda de propriedades urbanas.

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documento de junho de 1484, onde são referidas as « ... cassas que estam na llada em que viverom ho rrey e ho conde...» (ver aqui a totalidade do documento)

 

É curiosa a escolha por aquele local, que à primeira vista não nos parece uma primeira opção. Estamos na presença de um local situado em leito de cheia e bastante húmido, sobretudo num inverno rigoroso como o que obrigou o rei a permanecer tanto tempo na cidade. Certo é que por ali existiam umas estalagens... mas teriam elas assim tanta qualidade, mesmo para os padrões do século XV?[4] Ou esteve el-rei hospedado em alguma casa nobre particular? A ajudar a tudo isto, a zona da Lada era indissociável da azáfama portuária, mesmo que o cais da cidade à época, fosse bem menor do que o atual, que se encontra hoje quase inteiramente dominado por esplanadas de cafés e restaurantes. Assim, toda aquela área era em boa parte dominada pelas indas e vindas de marinheiros, clientes não só das estalagens, bem como das tabernas que certamente por ali existiam, e da mancebia, pois claro; que também se situava na Lada.[5] Ali estavam estabelecidos igualmente vários armazéns de sal e cereal; bem como uma indústria muito importante, a da tanoaria, que resistiu até ao século XX.

 

Uns anos depois desta visita e na sequência de um incêndio que provocou grande destruição na Ribeira em 1491, D. João II e a governaça da cidade promoveram o reerguer daquela praça debaixo de novo traçado, do qual ainda serão subsistentes os edifícios situados junto à rua dos Mercadores (certo que já bastante modificados). Em 1502, reinando já o seu sucessor D. Manuel I, ao passar pela cidade do Porto a caminho de Compostela, não deixou também de promover o nobrecimento da urbe; assim tornando a cidade intramuros das primeiras décadas do século XVI, num estaleiro de ruas e casas, criando urbanidade onde antes imperavam hortas, pomares, maninhos.[6]

Viviamos os anos de maior glória da nação portuguesa....

 

NOTA: este artigo não seria possível sem a obra de Amândio Barros (Porto: A Construção de um espaço marítimo nos alvores dos tempos modernos, e da tese de mestrado de Fernando Mouta (João Martins Ferreira, Mercador-Cavaleiro)

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1 - A célebre iniciadora das misericórdias, que viveu ainda 30 como viúva de D. João II, D. Leonor morreu em 1525, quando em Portugal reinava já o sobrinho, D. João III.

2 - D. João II tinha grandes planos para este filho, o infante D. Afonso, aspirando a que se tornasse no monarca de toda a Espanha. No entanto, num infeliz acidente na ribeira de Santarém, o infante caiu do seu cavalo e morreu. Mais tarde, em 1580 como sabemos, a monarquia única acabou por se concretizar, agora debaixo de um monarca castelhano, de sangue português pelo lado materno.

3 - Ainda longe de pensar que viria a ser rei de Portugal...

4- Na Ribeira existiam uns Estaus mandados fazer por D. Afonso V, pai de D. João II. Estranhamos também que a corte não se tenha instalado no convento de S. Francisco, possivelmente os clérigos do Porto mais chegados à realeza; pelas benesses que alguns reis da primeira dinastia lhes concederam, como por exemplo a importante proteção à sua água, para a qual foi construída uma grande cisterna, atrás da igreja.

5 - Ao mesmo arquivo a que pertence o documento mencionado nesta publicação, um outro refere umas casas na Lada, ao pé da Mancebia.

6 - Alguns exemplos (toponímia moderna): rua de S. Francisco (lado norte?), rua do Comércio do Porto, rua de Belomonte (a oriente), rua das Flores, mosteiro de S. Bento de avé-Maria, desaparecida rua das Congostas (lado poente). De passagem, refira-se que D. Manuel alojou-se na rua do Infante D, Henrique, a mais importante do Porto de quatrocentos.

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