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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (2)

12.04.19

Vou, caro leitor, paulatinamente dando sequência à reposição das cartas do (futuro) Barão de Forrester. Contrariamente ao que modo que usei na publicação original no blogspot - i. é, uma publicação por carta - opto por de agora em diante colocar duas cartas em cada publicação. E isto tem duas razões: primeiro para não arrastar no tempo algo que com o decorrer do mesmo tornará sem importância a sua subdivisão; a segunda, que refreia o facto de não colocar de uma vez só um bloco de 3, 4 ou 5 cartas, para que a leitura delas se mantenha prazerosa e não pesarosa. Prossigamos então:

 

*

SEGUNDA CARTA

(20 de Setembro)

«Logo ao amanhecer continuamos a nossa viagem – mas depois de grande trabalho da parte da tripulação que andou na água a levantar o barco para poder passar no seco da Varjiela, e custou-nos a chegar a Melres, levando-nos três horas a andar esta pequena distância de meia légoa! Defronte deste povo almoçamos, e durante este descanço podemos notar que o sítio abunda em férteis campos, lenhas, cortiça, laranja e vinho, com tudo isso parece que os habitantes não gozam da maior prosperidade. As habitações são miseráveis e não há entre elas uma única casa que se possa supor pertencer a lavrador abastado. Esta circunstancia é mais notável em razão da benignidade do clima que faz que as terras produzam quase espontâneamente, e dos habitantes não precisarem fazer grande despesa com o seu sustento e vestuário. Os homens apenas trazem calças, colete e camisa – as mulheres contentam-se com uma saia, camisa e colete, e as crianças – rapazes e raparigas, até à idade de 8 ou 9 anos, andam só com camisinha, aqueles que a tem.

 

Entre o Carvoeiro e Melres passamos na margem esquerda do rio o povo de Pé da Moura, sendo este o extremo ponto onde chega a maré e de onde a maior força da carqueja é remetida ao Porto. É curioso notar a direcção que nestes sítios toma o rio, porque principando em Lombeiro de Atães e acabando em Pédorido e Rio Mau, um quarto de légua adiante de Melres, descreve o perfil de uma cara de homem. Ao meio dia o calor era tanto, marcando o termómetro 123 graus[1], e a atmosfera tão abafada, que não tivemos remédio senão dar à nossa tripulação três horas de descanço no areio d’hortos, ao pé do ribeiro da Raiva; mas depois o vento favoreceu-nos e podemos chegar à noitinha a Fontelas.

 

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o Douro e o Tâmega em Entre-os-Rios, ao fundo a malograda ponte Hintze Ribeiro, construída já após o tempo do Barão de Forrester. Notar o fraco caudal do rio Douro que ainda assim, apesar de segundo em extensão, é o mais caudaloso da Península Ibérica

 

As vistas de ambas as margens são belíssimas, porém são poucos os povos e o seu estado em nada difere daquele que acabamos de descrever. Há bastantes oliveiras e sobreiros desde Pé Doirido até defronte d’Entre –Ambos-os-Rios, onde o Tâmega desemboca no Douro. A perspectiva pelo vale do Tâmega é mui bela, quanto à natureza; porém é lastimoso notar-se que nem pelo rio nem por terra tenha a arte ajudado a aumentar os meios de comunicação com o interior do país, nem mesmo com Canaveses e muito menos com a importante vila de Amarante por onde o rio passa. Em Entre-os-Rios tem aparecido bastantes vestigios dos romanos, e tanto neste povo como em Canaveses há caldas e águas férreas que deviam talvez ser de bastante estimação se houvesse comodidade que chamasse a gente a frequenta-las. Neste sitio havia registo, pela antiga Companhia[2], de todos os barcos que iam para o Porto.

 

Castelo de Paiva é uma terra insignificante, mas de um aspecto muito romântico, sendo a origem do seu nome a ilha de rochedos pitorescos no meio do rio em frente da povoação. O rio Paiva é abundante em peixeis, especialmente trutas. Nos tempos feudais quando os senhores recebiam os foros dos caseiros e tinham direito de pesca em certas estações do ano, além das galinhas que lhes foram dadas para merenda, era forçoso até fornecer-lhes o trovisco. Entre os povos mais afamados naqueles tempos, o Castelo de Paiva, não era o menos importante pelas suas pescarias de trovisco, conforme o que coligímos de vários escritores, e apesar da pesca de trovisco ser, por lei, de há muito proibida, neste povo de Castelo de Paiva ainda continuam a pagar-se muitos foros em galinhas, aplicadas em outras áreas para as merendas da pesca de trovisco. Nos arredores de Paiva, fabrica-se grande quantidade de carvão de choça que se vende na cidade.

 

Tenho deplorado o estado de miséria em que parecem achar-se todos os povos que passamos entre o Porto e este sítio – agora acrescentarei que nos intervalos que medeia entre um povo e outro, não se encontra nem gente, nem gado, nem rebanhos, parecendo um país não habitado: ao mesmo tempo que cada passo aparecem deliciosos sítios a convidar o homem de gosto a ir para ali estabelecer o seu domicílio.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

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TERCEIRA CARTA

(20 de Setembro)

«A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso. O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem, a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.

 

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paisagem anterior às barragens, que nos demonstra visualmente os perigos do Douro antes do desbaste dos grandes penedos que muitas vezes eram causa de uma tragédia humana. Ainda assim o que se pode ver parece já não ser um aspeto inteiramente natural do rio, antes algo transformada pelos homens(?)


Na marca atual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento de Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.


Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta! Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.


Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita: Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande atividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens. Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno. Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro. Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto. Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo. Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.

Sou de VV. & c.

J. J. Forrester»

 

1- Se esta gradação se referir à escala Fahrenheit, estaremos a falar de cerca de 50ºC, o que parece manifestamente exagerado.

2 - Fundada em 1756 e conhecida hoje pelo nome de Real Companhia Velha.

 

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Originalmente publicadas no blogspot em 24.03.2013 e 02.05.2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (1)

10.04.19

O anterior alojamento d' A Porta Nobre no blogspot manteve-se ativo desde o seu início em 2009 até meados de 2017, quando optei por lhe dar sequência no Sapo. Logo no início referi que paulatinamente iria transferir para a nova casa as publicações que achasse tal o merecerem. O que abaixo poderá ler é uma dessas publicações. Por ventura pensará o leitor onde é que eu já li isto? Bem a resposta estará certamente no facto de esta (como outras) publicações terem sido reutilizadas por outros blogues versando o Porto e a sua história, tendo entretanto a sua fonte original do blogspot desaparecido. Estas cartas do Barão de Forrester estariam inéditas até eu as ter redescoberto em 2013? Não o posso dizer, embora acredite que não. Certo é que para mim foi uma agradável surpresa descobri-las no local original onde foram publicadas, isto é, no jornal O Comércio de 1854! São um raro testemunho de uma pessoa culta e letrada que singrou este nosso tão belo rio quando ainda selvagem, sem barragens que o domassem e poucos penedos desaparecidos à força do dinamite.

Tenha então o leitor o prazer de ler ou reler a primeira delas, agora mesmo.

 

*

«COMEÇAMOS HOJE A PUBLICAÇÃO DE UMA SÉRIE DE CARTAS SOBRE O DOURO, QUE JULGAMOS INTERESSANTES E DEVEMOS À BONDADE DE UM CAVALHEIRO TÃO HABILITADO PARA ESCREVER SOBRE O OBJETO, COMO O ILM.º SR. FORRESTER

 

PRIMEIRA CARTA

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje. Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa. Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.


O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não poderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim.

 

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o lugar de Arnelas

 

Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal. Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britânicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado. Defronte são as ruinas do grande seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se vêem algumas paredes do palácio desmantelado do bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do convento da serra foram cortadas em 1833. Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a sua cerca um recreio para os habitantes do Porto. Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão. Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam.[1] Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto. Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto. Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta. Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar. Gramido, sítio onde o sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto.

 

Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto. É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria. São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.


Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para aí passarmos a noite.


Sou de VV. & c.
J. J. Forrester»

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Esta carta vem publicada no jornal O Comércio (nome primeiro d' O Comércio do Porto) do dia 11 de setembro de 1854.

 

1- Na publicação original que dela fez no blogspot, um anónimo de Arnelas fez o seguinte comentário, que creio pertinente também recuperar: «Arnelas nunca foi conhecida pelas suas madeiras e lenha, mas sim por ter sido um importante entreposto comercial desde o séc. XVI, na "guerra comercial" que moveu ao Porto nessa altura. Mais tarde foi a localidade onde se implantou uma das primeiras fábricas de cerveja do país. Ficou bem conhecida devido ao sável e à lampreia. É um lugar maravilhoso, não fosse a minha terra. (desculpem a modéstia!)»

 

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Originalmente publicada no blogspot em 21.04.2013

Um duelo que acabou num repasto e outro que não chegou a começar.

02.04.19

Eis uma curiosa notícia que saiu no Periódico dos Pobre no Porto, em 9 de Janeiro de 1845:

 

*

«Ontem às 8 da manhã teve lugar no sítio do reduto do Covelo, subúrbios desta cidade, um duelo a tiro de pistola entre os Srs. Marquês de Chardonnay e António Augusto de Passos Pimentel, alferes de infantaria 6 (…) o n.º de espectadores seria 20 pessoas, a maior parte estrangeiros, ingleses, franceses e espanhois.

Tendo chegado ao sítio apresado (sic) as duas seges em que iam os desafiados, cada um com o seu respectivo padrinho, e apeando-se os padrinhos, e à vista dos espectadores, mostrando os cartuchos com as balas, carregaram as pistolas, as entregaram aos seus afilhados, marcaram o terreno e a 20 passos de distância os contendores descarregaram!!

Nenhum ficou ferido; a pistola do Sr. Passos errou fogo, não batendo o fósforo, e ele não quis segundar, e tendo-se anteriormente convencionado que qualquer que fosse o resultado se dariam por satisfeitos, os contendores se abraçaram e tornaram para casa da mesma forma que tinham ido, dizendo o Sr. Chardonnay - ficamos amigos, sirva-nos isto de lição a ambos.

Pouco depois o Coronel Passos almoçava com a família Chardonnay em casa desta por convite desta senhora. – o motivo desta estranha pendência foram certas ocorrências desagradáveis que em uma das noites passadas tiveram lugar numa soirée, e na presença de algumas famílias respeitáveis que ali se achavam.

O Sr. Chardonnay aceitou o desafio que lhe propôs o sr, António Augusto, e lhe deixou a escolha de armas.»

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Daqui, deste nosso imberbe recanto do século XXI, estas pequenas notícias permitem-nos abrir uma acanhada vidraça colorida para aquele século que se escreve com as mesmas letras mas numa ordem diferente. E embora não seja relevante para a história da cidade, o pitoresco dela torna-a, a meu ver, minimamente interessante.

 

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Igualmente refiro, também por curiosidade e porque o tema é o mesmo, que neste mesmo volume do periódico, em 23 de janeiro, surge um outro duelo em que foi desafiado nada mais nada menos do que o futuro Barão de Forrester. Eis a descrição daquele jornal:

 

«Duelo Malogrado

Consta-nos que no Sábado se malograra um duelo entre o Sr. José James Forrester, e o Sr.  Wright, ambos súbditos britânicos. Houve quem denunciasse as intenções dos dous cavalheiros: o cônsul procurou dissuadi-los, mas debalde; então foi informado o Sr. juiz da Policia Correcional do acontecimento que ia ter lugar, e este magistrado deu logo as providencias de forma, que às 7 horas da manhã foram ambos presos, no momento em que saíam de suas casas para o lugar do combate.

A questão dos vinhos do Douro parece haver sido a causa da desavença.»

(NOTA: O PPP informa que extraíra esta notícia do seu concorrente, A Coalisão).

 

Estaria esta "questão" relacionada com o trabalho apresentado de forma anónima por Joseph James Forrester no ano anterior, onde este criticava os que adulteravam o vinho? Fosse essa razão qual fosse, ainda bem que este duelo não teve lugar, pois dessa forma a sua vida poderia ter sido interrompida aos 36 anos de idade. Não sei se este acontecimento da vida de tão distinta personalidade será conhecido. Mas aqui fica registada, para que possa pelo menos figurar como uma nota de rodapé num possível trabalho biográfico sobre este distinto inglês que tanto amou o Douro e que por ironia do destino por ele foi morto.

 

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Publicado originalmente n' A Porta Nobre (blogspot) em 08.11.2013 e 11.06.2016 : a imagem é meramente ilustrativa.

O armazém do Sr. Forrester

17.12.17

Em agosto de 1854, o jornal O Comércio (futuro O Comércio do Porto) visitou o armazém de vinhos de Joseph James Forrester, mais conhecido pelos interessados pela história do vinho do Porto e do próprio Porto por Barão de Forrester(1). Dessa visita resultou a "reportagem" que abaixo transcrevo, muito interessante sobre vários aspetos, mas sobretudo para entendermos como era e como se trabalhava no armazém desta figura tão proeminente na sua época, precocemente desaparecida de uma forma trágica.

 

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«Sabendo que o Sr. Forrester tinha estabelecido no seu armazém da Ermida em Vila Nova de Gaia um caminho-de-ferro por onde girava um carro acelerado construído convenientemente para o serviço das vasilhas, levado pela curiosidade que nos promovera objeto tão novo, fomos à morada do Sr. Forrester; e seguro da dignidade que caracteriza este cavalheiro solicitamos de S. Sª o mostrar-nos o seu armazém e a permitir-nos presenciar o trabalho pelo seu novo sistema.


Não tínhamos a honra de contar-nos na tratabilidade do Sr. Forrester, e o nosso título de apresentação não passava do desejo, que assistia a uma pessoa, quase desconhecida deste patriótico comerciante. Faltávamos a um rigoroso dever se deixássemos de patentear como fôramos recebidos pelo Sr. Forrester, e pelo seu digno filho, da maneira que mais podia lisonjear-nos. S. Sª tiveram a nobre franqueza de mostrar-nos todo o seu estabelecimento, dando-nos civilizada e agradavelmente as necessárias explicações tendo nós a ocasião de ver que o novo mecanismo, que o Sr. Forrester apropriara ao seu armazém, aponta a passagem para o progresso naquela qualidade de trabalho.

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O armazém  de um comprimento de perto de 500 palmos, é cortado no centro por uma linha férrea das dimensões usadas nos caminhos de ferro ordinários. Por esta linha, que separa os seis rumos, que comporta a capacidade do armazém, percorre o carro acelerado pelo impulso, que pode dar-lhe a força de um ou mais homens conforme a necessidade o exija. Este carro mandado construir de propósito na Inglaterra debaixo da inspecão do Sr. James, filho do Sr. Forrester, compoem-se de dois corpos, estando num deles colocado um guindaste, que levanta as pipas ou para o 2º ou 3º corpo, a fim de serem transportadas para o ponto que se queira ou para a altura do lote, a que seja necessário eleva-las. O serviço assim feito substitui o trabalho pelo menos de três quartas partes dos homens, que se empregavam e empregam no sistema antigo. As lotações e os benifícios fazem-se com tal celeridade que a grande a conveniência do carro e do guindaste se torna evidentemente palpável. Para quem nos outros armazéns presencia a fadiga dos trabalhadores para fazer rolar as pipas levando-as a qualquer ponto determinado através do custoso impulso das mãos, vendo-as rojar pelo pavimento térreo com manifesta deterioração de todos os elementos, que as compõem, além dos grandes balanços, que o líquido sofre dentro da vasilha, estorvando a sua pronta depuração, não pode deixar de maravilhar-se que o Sr. Forrester achasse o segredo de acabar com estes inconvenientes tornando o serviço mais suave e reconhecidamente mais proveitoso para as vasilhas e líquidos armazenados. Para mais satisfazermos nossa curiosidade quisemos experimentar a impressão do movimento do carro através do carril de ferro, e com os nossos companheiros fizemos a carreira de toda a linha e foramos perfeitamente surpreendidos, podendo fazer ideia, se bem que aproximada, do trânsito das locomotivas nas vias férreas, de que só temos visto a descrição(2).

Seria bem para desejar que os comerciantes de vinhos seguissem o exemplo do Sr. Forrester, aproveitando os grandes resultados, que a ciência da máquina oferece ao trabalho, dando assim uma prova de que os adiantamentos daquela ciência não passam infrutíferos para nós.

Além da inovação do caminho-de-ferro, e do carro, que por ele percorre, que não pode alcançar todo o serviço a fazer no armazém, o Sr. Forrester introduziu no trabalho, que dirige, pequenos carros de mão adequados aos misteres. Os hoptrucks servem especialmente para transportas os cascos vazios, demandando apenas a pequena força de um rapaz. Uns de quatro rodas baixas, que se empregam na condução das pipas cheias para qualquer dos pontos dos terceiros rumos pelas diferentes coxias do armazém: e outros mais pequenos, que servem unicamente no trânsito ao vinho engarrafado, tendo a vantagem, além de se moverem com facilidade, serem construidos de modo tal, que a quebrar-se alguma das garrafas o vinho é recebido num depósito e aproveitado.

Não há só a notar no armazém do Sr. Forrester  as inovações, que deixamos mencionadas: além delas, a regularidade na colocação de todos os objetos para que apareçam de pronto quando necessários, concorre também muito para a singularidade do estabelecimento. As ferramentas e demais utensílios são todos no possível esmero do trabalho, não podendo deixar de promover um vantajoso resultado nas operações. Os utensílios, que se destinam à depuração das borras, são tão engenhosamente concebidos que produzem uma notável disparidade, comparados com os do sistema nos outros armazéns seguido.

Os armazéns de Vila Nova não sendo de construção subterrânea, como o são em outros países para ministrar aos líquidos a frescura de que necessitam, precisam de ser continuamente refrescados com água. Para esse refresco mandou o Sr. Forrester vir e emprega no seu armazém a bomba chamada force-pump, que o refresca e ao mesmo tempo as vasilhas que nele se acham, servindo também para bomba de incêndio.

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Para estimular os sentimentos dos trabalhadores e infundir-lhes os preceitos da moralidade, que devem guiar o homem em qualquer posição, que se encontre, o Sr. Forrester mandou escrever na porta do armazém os dois preceitos que devem dirigir a conduta dos operários - O mérito será premiado - o vício será punido - Praticando estas duas saudáveis máximas, o Sr. Forrester todos os sábados recompensa monetariamente o trabalhador ou trabalhadores, que de recompensa se tornem dignos durante a semana.

Ao lado do armazém está a tanoaria, descobrindo-se nela o mesmo sistema de regularidade. O alimento dos trabalhadores é preparado em comum a troco de uma diminuta parte do salário a qual não excede a vinte réis diários, tendo assim aqueles por uma insignificante quantia um rancho excelente, muito mais barato e abundante do que o teriam feito por conta de cada um em particular, resultando, além desta vantagem do trabalhador a do Sr. Forrester que nos disse não prejudicar-se e conseguir para o trabalho o tempo que cada trabalhador perdia com o seu arranjo particular de comida, que pelo sistema adotado se faz convenientemente por dous aprendizes da tanoaria ou do armazém. Os aprendizes não concorrem para o rancho, que o Sr. Forrester lhes manda ministrar gratuitamente, concedendo-lhes de mais quatro horas por dia para poderem ir à escola. O Sr. Forrester leva tanto a empenho de interessar os operários no seu estabelecimento que ele próprio vigia a cozinha, procurando por todos os modos que o rancho seja tanto quanto ser possa agradável aos trabalhadores. O vinho dado de bebedagem é dado regradamente; mas na precisa abundância, não sendo negado de modo algum, quando o exige o cansaço do trabalho.
A economia na despesa é um feliz resultado de todas as combinações, em que a experiência do Sr. Forrester assentou o seu novo sistema. É assim que a boa prática de administrar pode reunir as reciprocas vantagens do trabalhador e do dono do armazém. Parece-nos que deviamos a nossos leitores a descrição do que viramos, pois que ela não será indiferente a parte deles, que na especialidade se empregam no importante ramo do comércio do vinho.»

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do jornal O Comércio(3), de 30 de agosto de 1854.

 

1 - Título que apenas lhe foi atribuído no ano seguinte.

2 - Ainda não existia caminho de ferro em Portugal em 1854...

3 - Que a partir de 1855 passaria a diário com o nome O Comércio do Porto.

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Publicado originalmente no alojamento d' A Porta Nobre no blogspot em 23 de dezembro de 2012.

Imagens meramente ilustrativas do Arquivo Municipal do Porto.