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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A antiga ermida de S. Nicolau e suas cercanias

03.05.20

O ponto nuclear da extinta freguesia de S. Nicolau cuja início da urbanização remonta pelo menos ao século XII, era a zona envolvente à ermida medieval que se erguia no mesmo local da sua atual sucessora. A primeira menção a ela surge no Censual do Cabido e remete-nos para 1249. Trata-se de uma determinação do bispo D. Julião, que nesse ano a elevou a capelania, um vez que o Cabido se havia tornado negligente para com a população que ali vivia, agora que a cidade se estendera para aquele local.[1] No entanto, já dois anos antes aquela ermida fora indiretamente mencionada num documento referente a um terreno que os leprosos[2] venderam a um particular, situado junto ao caminho «per quam veniunt ad Sanctum Nicolaum». Estes são os registos mais antigos que nos chegaram da pequena igreja. Uma vez que dela não nos chegou qualquer descrição artística, é impossível avaliar do seu aspeto e dimensões, ainda que não devesse fugir ao estilo românico que apresentam muitas pequenas igrejas espalhadas pelo norte do país.

posdemolicao.jpg

i1 pormenor de uma imagem mostrando a construção da Rua Nova da Alfândega, já com os terraplanos praticamente concluídos. legenda: E) local da antiga ermida de S. Nicolau, SF) parte demolida da rua de S. Francisco, SN) desaparecida rua de S. Nicolau, 2) cunhal do edifício de gaveto da rua da Reboleira, X) casa torre demolida na rua da Reboleira, virada ao edifício do gaveto

 

Mas, embora nada exista que a descreva ou esboce, temos ainda assim uma muito sumária descrição do local que ela ocupava em comparação com a igreja atual (bem maior e orientada de forma diferente). Esta descrição foi registada num manuscrito de 1707 pertencente ao cartório paroquial. Notar que, embora nesse ano a ermida já não existisse, ela estaria possivelmente ainda viva na memória do relator, dado a demolição ter ocorrido menos de quarenta anos antes:

 

«Estava a igreja velha que se demoliu no lugar em que hoje está a porta travessa da nova por onde se saí para a rua de S. Nicolau, e Ourivesaria. Chegava a porta principal da dita igreja ao sítio onde estão os degraus pelos quais se sobe ao tabuleiro do adro que fica fora da dita porta travessa, e a capela-mor ficava dentro da dita porta junto a ela. Entre a dita igreja velha e as casas que agora são de Inácia Pinta havia uma rua para a qual se saía pela porta travessa da dita igreja que lhe ficava do lado da Epístola.»

Porta lateral da igreja de S. Nicolau.jpg

i2 a ermida desenvolvia-se pelo espaço agora ocupado por esta estreita passagem entre a igreja e a primeira casa ao seu lado, entrando ainda pelo espaço da dita casa . para este lado existiu um dos tabuleiros que veremos abaixo, resultantes da construção da nova igreja

 

Embora esta descrição seja, como disse, bastante sumária, permite-nos enquadrar a disposição atual com a situação da velhinha ermida medieval. Atualmente a área encontra-se bastante modificada. Para imaginarmos a ermida e a sua disposição no espaço, temos de levar em conta que ela se estendia transversal à atual igreja, ocupando parte do corpo da mesma e com a porta principal para aquilo que é um pequeno pátio escondido, desde a abertura da rua Nova da Alfândega.

 

Um outro pormenor curioso sobre a ermida é a existência de um alpendre, que conhecemos pelo contrato efetuado em 3 de maio de 1624 entre a câmara e o carpinteiro Pero António, que «arrematou a obra do alpendre de S. Nicolau, com tudo o que fosse necessário de pedraria e cal [a construir?] durante o mês de maio». Não creio plausível se tratar de uma estrutura nova, antes de uma obra de manutenção de um alpendre previamente existente. Não estranhemos a presença deste tipo de estrutura numa igreja tão pequena, pois embora apenas um punhado de capelas espalhadas pelo país possuam ainda o seu alpendre, eles eram, mais simples ou mais elaborados, regra quase geral em todas as igrejas. Isso mesmo prova a permanência dos cachorros que sustentavam as suas armações em muitos templos de pequena e média dimensão.

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i3 o corpo da igreja atual visto do pequeno pátio que subsiste entre duas casas da rua do Infante D. Henrique, que fez outrora parte da rua de S. Nicolau. o adro e fachada da ermida implementava-se à esquerda . em frente, antes da construção da nova igreja, um pequeno arruamento conduzia a Vale de Pegas

 

Dos documentos do Cabido, da Coraria e da Câmara Municipal, retiram-se alguns apontamentos interessantes sobre as vizinhanças desta ermida, provida de capelão em 1249, como atrás vimos. A notícia mais antiga chega-nos através de uma verba do testamento do chantre Gonçalo Gonçalves, que ali possuía onze parcelas[3]. Ficaram os rendimentos destas casas para manutenção de uma capela, sendo referido, no final do traslado do dito testamento que as «onze casas que o dito chantre Gonçalo Gonçalves leixou à dita capela ... as quais estão em na cidade do Porto a sob[?] a igreja de S. Nicolau e partem com casas de Joane Esteves genro que foi de Vicente Martins Almoxarife, e da outra parte com casas que de Domingos Joanes Caldo Amarelo e pela rua do Concelho, e da outra parte contra S. Francisco. § destas onze casas jazem elas a par da dita igreja de S. Nicolau e partem pela rua que vai entre elas e a dita igreja e da outra parte partem com casas de Tareja[?] Anes e da outra com casas que foram de João Domingues dos Contos e da outra com almoinhas e com cortinhas que jazem tralas casas que chamam do Almazem de el-rei...».

 

É a existência de muito espaço ainda por urbanizar que se constata para o século XIII e mesmo XIV. Apenas o rompimento da rua Nova por volta de 1395 viria implementar uma nova realidade, que faria desaparecer progressivamente as almoinhas e as vielas de acesso ou passagem quase privativa de e para algumas casas. A área antigamente conhecida por Vale de Pegas, i. é, o percurso da travessa de S. Nicolau até ao largo do Terreiro, é um remanescente desse tempo.[4]

 Nicolau.jpg

i4 historicamente mais conhecida por rua da Ourivesaria, a rua de S. Nicolau desapareceu da rede viária portuense, ainda que uma parte dela subsista: SN) traçado da antiga rua de S. Nicolau, 1) casas que outrora fizeram parte dela, 2) casa do cunhal com a rua da Reboleira, X) local da casa-torre demolida, 3) casas construídas após a criação da rua Nova da Alfândega, em cima da rua de S. Nicolau

 

Em 1583 o bispo D. Frei Marcos de Lisboa procedeu à divisão paroquial da cidade, fragmentando a enorme paróquia da Sé em quatro: Sé, S. Nicolau, Vitória e Belomonte.[5] Nesta primeira divisão, a paróquia de S. Nicolau englobava a «rua das Congostas do Salvador para baixo, a rua Nova, a rua dos Mercadores da boca da rua Nova para baixo, o Barredo, a Lada, Ribeira, Fonte Taurina, Reboleira até à torre que ficou de Brás Pereira». O seu âmbito seria alargado após a extinção da paróquia de Belomonte, de curta vida, fixando-se nestes termos:

 

«a rua Nova, com todas as suas casas, e quintais delas, a rua os Mercadores da boca da rua Nova para baixo com os quintais que algumas casas tem para a parte do colégio dos Padres da Companhia, o bairro do Colégio Velho, e Barredo com todas as suas casas, ruas, vielas, e quintais até os arcos do aqueduto dos Padres da Companhia junto à capela de Nossa Senhora do Postigo [Verdades/Mentiras], e também que estão nas escadas por onde se desce dos ditos arcos para o Codeçal são desta freguesia, os Guindais fora do muro, o caminho que vai ter a Malmjudas (sic) e Carvalhinho o bairro da Lada com todas as suas ruas, travessas, vielas, e quintais, a rua dos Canastreiros, e o beco da Estalagem, a rua da Fonte Taurina com os seus becos e vielas, a rua da Alfândega, o Terreiro a Reboleira, Outeiro, o Postigo do Pereira, a rua da Ourivesaria com as suas vielas, a rua dos Banhos com as suas travessas e vielas, a rua da Porta Nova no fim da qual tem a freguesia de São Pedro de Miragaia poucas casas (...), a rua da Minhota, o beco do Forno Velho por cima da Minhota, a rua da Ferraria desde a fonte da Rata até à rua por onde se vai para São Francisco, a dita rua por onde se vai para São Francisco (...), a rua de São Francisco, a rua de São Nicolau, o beco de Vale de Pegas [travessa de S. Francisco] com suas travessas, e vielas, o muro da cidade do pé do Codeçal até à Porta Nova, o cais por fora do muro, e a metade do rio Douro em todo o comprimento da freguesia»

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i4 pormenor da maqueta medieval que pretende representar o local que estudamos. os pontos assinalados são idênticos aos das legendas anteriores

 

Com esta divisão a Mitra obrigou-se a edificar novas igrejas, o que no caso de S. Nicolau apenas ocorre cerca de oitenta anos depois. Com efeito, ainda em período de Sede Vacante foram compradas algumas propriedades para a construção da nova igreja paroquial, mas sem consequência. Em 1671, o bispo D. Nicolau Monteiro comprou mais umas casas, pertencentes ao hospital de Santa Catarina, no local onde se encontra a capela-mor da nova igreja. A compra de propriedades deve-se ao facto de se pretender construir uma igreja mais capaz e condigna para uma paróquia tão densamente povoada, maior do que a pequena ermida que até agora desempenhara tais funções. Para termos uma ideia destas compras, passemos de relance em alguns registos do Cabido portuense que mencionam aquela área:

 

1 - Umas casas que se encontravam «no recanto da dita rua [de Pegas] quando volvem para São Nicolau» No final do registo destas casas, passando por vários possuidores, surge esta inequívoca afirmação «Meteram-se estas casas no ano de 1673 na igreja nova de S. Nicolau».

2 - Outras casas e mais umas meias casas[6] além das atrás ditas. No final, lá está a nota: «Meteram-se estas casas no ano de 1673 na igreja de S. Nicolau como consta do contrato, porque a Mitra largou ao Cabido outras casas».

3 - Depois umas outras casas que se encontravam «defronte da porta travessa da igreja de S. Nicolau». Por curiosidade, refira-se que num prazo desta casa de 1564 é imposta condição de nelas se colocar um anjo, isto porque eram casas pertencentes ao hospital que aqui existia. E, claro está, no final, a nota: «Meteram-se estas casas, que nos livros da Fazenda andavam em duas ametades, no ano de 1673 na igreja de S. Nicolau, como consta do contrato...».

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i5 antes da abertura da rua Nova da Alfândega, era esta a disposição dos arruamentos nas imediações da igreja. A letra t assinala os tabuleiros construídos em 1676. a i6 (abaixo) mostra como se enquadrava a rua de S. Nicolau e a igreja com as suas vizinhas rua do Infante D. Henrique à direita e que se mantém praticamente igual; e a rua de S. Francisco, cujo troço que aqui se vê foi completamente sacrificado e apresentava uma cota bastante superior, quer em relação ao que ainda existe da referida rua, quer mesmo em relação à rua de S. Nicolau (recordemos que se estava na presença da ocupação medieval de um monte, muito modificado pelos terraplanos do século XIX) 

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i6

 

Finalmente, em 1677, foi efetuado um contrato com um António da Costa, ourives da prata, «pelo chão de umas casas, que o sr. bispo tinha comprado, e mandado demolir para se fazer a igreja de S. Nicolau, os quais chãos ficavam ficavam contíguos, à dita igreja de S. Nicolau, e às casas que o dito António da Costa possuía no mesmo sítio». No documento pode-se também ler: «Para inteligência deste extrato = note-se = que o sr. bispo D. Nicolau Monteiro comprou para fazer a igreja, entre outras casas, umas que partiam com as casas em que vivia o dito António da Costa (...) as quais se desfizeram para fazer a igreja (...) e como os chãos das ditas casas que se demoliram não foram necessários para a obra da dita igreja e adro e o dito António da Costa toma sobre si o encargo de pagar a dita pensão e legado que andava nas casas, por isso se fez este contrato, e nele se marcam [os] palmos que tem os chãos, e se declara, que nas casas que se hão de fazer se não abra janela para o lado da igreja». Curioso apontamento, revelador de que nem todos os terrenos das casas compradas e demolidas foram necessários para se construir a nova igreja.

 

A cerimónia da colocação da primeira pedra da igreja atual ocorre em 6 de dezembro de 1671, tendo em janeiro do ano seguinte sido contratualizado com dois pedreiros de Vila Nova a construção da capela-mor, duas sacristias que a deviam ladear e uma tribuna atrás da mesma capela. Para esta obra o bispo cedeu-lhes uns quantos degraus já lavrados e seis pedras que estavam escolhidas para a capela-mor, assim como alguma da pedra que se encontrava depositada na rua Nova de S. Francisco, apropriada para a sacristia e tribuna.[7] Desta primeira capela-mor chegou aos nossos dias apenas o seu arco cruzeiro, uma vez que um incêndio em 12 de agosto de 1758 obrigou a uma total reconstrução.

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i7 esta preciosidade do passado mostra-nos a sombra da igreja de S. Nicolau (seta amarela), por entre o casario . mostra-nos igualmente a rua do Infante D. Henrique na sua dimensão original (Inf) e a área já considerada como rua de S. Francisco (SF), que iniciava em rampa em direção à igreja do mesmo santo . o edifício assinalado com @ fazia gaveto entre esta rua e a de S. Nicolau, atrás dela a uma cota inferior . na i8, abaixo, temos o mesmo edifício assinalado, bem como as casas da antiga rua de S. Nicolau, ainda existentes mas agora com frente para um pequeno pátio e incorporadas na rua do Infante. notar o pormenor do início em rampa da rua de S. Francisco (seta verde), que Joaquim C. V. Vilanova não deixou de assinalar

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i8

 

O corpo da igreja foi construído a partir de 1675, por contrato assinado com o pedreiro Marcos Gonçalves, que ficou igualmente encarregado de lavrar o púlpito, quatro pias de água benta (duas na porta principal), o campanário e os tabuleiros (patamares) da porta principal e da porta lateral do lado da epístola (lado direito).

 

A sagração do novo templo ocorre, finalmente, em 6 de setembro de 1676, pela mão do bispo D. Fernando Correia e Lacerda, sendo o Santíssimo Sacramento solenemente trasladado da igreja franciscana, onde se instalara durante as obras, para este novo templo onde ainda hoje se encontra. Da antiga ermida, vetusta construção medieval, nada restou. Vive hoje apenas na memória escrita de alguns documentos e na imaginação, mais ou menos fantasiosa, dos homens.

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1 - «(...) nos Iulianus. Dei gratia portugalensis episcopus iudissemus quod in ciuitate nostra populus per dei gratiam excreuisset nec in eadem ciuitate erat ad quod populus posset concurrere ad saluatoris nostri Clementiam inuocandum uidentes etiam quod decanus et Capitulum nostrum oblationes Ciuitates eiusdem parrochiae expectant erant negligentes et remissi ad eidem populo in spiritualibus ministrando quya propter diffusam tractum Ciuitatis non poterant omnes ad cathedralem ecclesiam conuenire dictum capitulum admonuimus ut in heremitagio Santi Nicholay ponerent capellanum quy ibidem saluatoris pabulo populum satiaret. Quod tandem ipsi atraptantes effectuj manciparunt. Et nos auctoritatem nostram huic ffacto acomodauimos. et ius quod habebamus in oblationibus ipsius heremitagij eiusdem perpetuo duximus remitendum. (...)».

2 - No mundo medieval, por leprosos eram conhecidos não só os portadores desta doença, mas também os de outras doenças infeto-contagiosas. Estes indivíduos eram relegados para as periferias das povoações e iam sendo afastados à medida que estas cresciam. A ermida e o hospital que lhe ficava perto a isto não serão alheias.

3 - «Mando etiam ortum et domos omnes quas habeo juxta Sancto Nicholaau in civitate Portugalense»

4 - Um registo do século XVI do Cabido refere mesmo uma casa na «rua que do cais para São Nicolau per a lajea acima, que se chama Val de Pegas».

5 - Com a cruz da de S. Nicolau a ter precedência sobre todas as outras nas procissões, logo atrás da da Sé.

6 - A ocupação das casas era efetuada, se não sempre com bastante frequência, na vertical e não como hoje na horizontal.

7 - Restos da sacrificada ermida?

 

Para elaborar esta publicação, vários foram os documentos compulsados. Quero contudo destacar o primoroso estudo de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves sobre a igreja atual de S. Nicolau, que me inspirou a procurar conhecer um pouco mais da história da zona envolvente, demanda que ainda não terminou..

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