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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A apanha dos cães no Porto, no início do século passado

27.04.10

Agora que temos uma cidade com um reduzido número de cães vadios, talvez não acreditem os caros leitores que as matilhas destes animais seriam, não uma constante, mas bastante frequentes. A estas juntavam-se os inúmeros rafeiros que deambulavam sozinhos. É ao modo da apanha dessa grande quantidade de animais, que as linhas abaixo transcritas se refere. Longe iam já os meados do século XIX, o tal Porto do Romantismo, onde os cães não eram apanhados mas sim exterminados: através de pílulas envenenadas que eram ministradas aos animais (o bolo). Estes, ao as ingerirem, acabavam por morrer de forma agonizante e atroz, ali, bem no meio das ruas e passeios. Não raras vezes, ainda lá se encontravam ao raiar do dia, cuspindo sangue e pedindo uma ajuda desesperada a quem por eles passava... Já não é assim, felizmente, e já não é há muito.

 

Eis o texto:

«Na velha e gloriosa cidade do Porto, todos os antiquados costumes têm passado por uma metamorfose completa, dando lugar a outros mais modernos, mais dinâmicos e económicos. Vamos, pois, em sucintas palavras, explicar à mocidade de hoje como eram apanhados em tempos decorridos os cães que vagueavam de dia e de noite por todas as artérias da cidade invicta.

 

Dois funcionários municipais, de inferior categoria, deselegantemente uniformizados, conduziam pelas ruas da acidentadas da urbe, num passo vagaroso, sonolento, um carro de duas rodas e, sobre o eixo destas, poisava um grande e alto caixão de madeira, de figuração retangular, interiormente dividido em compartimentos, onde se recolhiam os cães. Mais dois funcionários do município, de igual classe e indumentária, a par, com os olhos fixos em todos os vultos que se mexiam, seguiam por um dos passeios laterais, levando um deles uma rede de corda delgada aos ombros. Os primeiros que enxergassem um cão desaçamado, davam sinal, assobiando, e os que puxavam o carro logo paravam, pegavam na rede que geralmente ia sobre o tejadilho do pequeno carro celular e apressadamente, não fosse o cachorro escapulir-se pela demora, estendia-na de lés a lés da rua, chegando por vezes a impedir todo o trânsito.

 

Carro-canil.JPG

i1 imagem presente no artigo aqui parcialmente transcrito

 

Os modestos funcionários, ou melhor dizendo, na gíria popular da época, os "caça-cães" que seguiam pelo passeio, com receio de que fossem notados pelo cão, escondiam-se por detrás das costas das pessoas que passavam e, após o canino ter tomado a direção dos empregados que já tinham a rede preparada, avançavam na cauda deste e uns e outros iam-se juntando até que o animal ficava envolvido nas redes. Agarrado espetacularmente o cão - espetáculo este que não deixava de ser cómico, triste e irritante, desagradavelmente comentado pelas pessoas de coração, pois a liberdade não foi somente dada ao género humano -, era depois enclausurado numa das divisões do supracitado carro.

 

Porém, nem sempre os referidos funcionários eram bem sucedidos no seu ingrato modo de vida, pois os cães mais espertos, desconfiados - em virtude dos grandes saltos que formavam -, conseguiam transpor as redes, fugiam e punham-se a olhar para trás, como quem diz: "ainda não foi desta vez". Quando isto acontecia, o rapazio endiabrado, principalmente, que não deixava de acompanhar atentamente e encolerizado as evoluções desenhadas em ziguezagues dos "caça-cães", batia palmas de contente, saltitava entusiasmado e não poupava a respetiva zombaria. Conflitos, questões sérias se travavam de quando em vez entre os empregados e o povo, por este, quando via o carro da rede, dar-se ao cuidado de afugentar os cães. Para terminar com a caçoada dos garotos e com as desordens originadas pela apanha dos cães, que se tornavam em espetáculos vergonhosos e aviltantes para a cidade do trabalho, o carro dos cães começou a andar acompanhado por um polícia civil.

(...)

Às vezes acontecia, o cão, ao ser perseguido pelos "homens da rede", refugiar-se no primeiro estabelecimento que encontrava. Se o dono do dito era pessoa humanitária, não consentia que os "caça-cães" pusessem os pés dentro da sua casa de negócio para o aprisionarem. Estes, perante a atitude assumida pelo comerciante, enfureciam-se, reclamavam em altos berros a entrega do "mais fiel amigo do homem" e, depois de muito esperarem e para fugirem aos apupos revoltados do povo, lá se iam embora, resmungando um português pouco decente.

 

Mas casos piores, mais ridículos se davam, e estes terminavam quase sempre em desagradáveis conflitos, porquanto o público não podia deixar de intervir energicamente a favor do possuidor do cão. Aconteceu, muitas vezes, senhoras da alta sociedade portuense levarem ao colo lindos cachorros de pura raça, pelos quais tinham grande estimação. Mas, porque estes não trouxessem coleira, e não viessem açamados, os zelosos empregados deixavam de ter a indispensável urbanidade para com elas, e de uma maneira brusca, selvagem mesmo, chegavam a tirá-los das suas próprias mãos. As senhoras, furiosas, protestavam contra tal violência, os transeuntes aglomeravam-se e criticavam asperamente o acontecimento, barafustavam também e dirigiam impropérios aos empregados por se terem excedido demasiadamente no cumprimento das suas obrigações e, dentro em pouco, o mantedor da ordem via-se embaraçado para dispersar o povo, tendo de por o comprido e pesado chanfalho em ação para acalmar os ânimos, quando não levava aos empurrões, para as fétidas prisões do Aljube, sito à Rua de S. Sebastião, à Sé, os indivíduos que se tinham manifestado contra o incorreto procedimento dos "caça-cães".

 

Screenshot_1.jpg

i2 este pormenor de uma fotografia antiga mostra duas curiosidades: o CE 41, uma das duas únicas unidades de elétricos abertos que o Porto teve; e, assinalado com um circulo, um estranho carro de mão, que embora não se pareça com o desenhado em i1, não deixa de o fazer lembrar. Seria?

 

Terminadas as horas de serviço, os cães apanhados durante o dia eram levados para casotas reservadas, existentes nos serviços de limpeza pública, ao tempo na Rua do Visconde de Bóbeda e traseiras da Biblioteca Pública Municipal do Porto, os quais podiam ser libertados por seus donos mediante uma multa e depois de cumpridas outras formalidades. No caso de não serem procurados eram abatidos.

 

O código de posturas de há cinquenta anos não permitia que os habitantes do burgo tripeirinho possuíssem cães sem a devida licença da Câmara; e os cães, cujos donos tivessem a respetiva licença, tinham de trazer, sempre que saíssem à via pública, uma coleira com a designação do nome e morada do dono e número da licença, sob pena de ter de pagar o triplo da multa. Além da coleira mencionada, os cães tinham de andar sempre açamados, sob pena de 2$ooo réis de multa. Se fossem encontrados na rua sem coleira nem açamo, eram considerados vadios, e como tal, abatidos. (...)»

texto de Manuel Pedro, in O Tripeiro, Série 5, ano VII (Março de 1952), página 249/250.

 

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publicação revista em janeiro de 2020

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