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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Capela-mor e a Sacristia da Sé Catedral

16.11.18

Venho hoje, caros leitores, trazer-vos uma publicação espontânea. Serve ela para celebrar a aquisição de uma obra que já vinha a namorar há algum tempo, e que nesta semana finalmente consegui adquirir. Trata-se do conhecido tratado Memórias Archologico-Históricas da cidade do Porto, editadas em Braga(!) no ano de 1924; da autoria de Monsenhor José Augusto Ferreira.

 

Acredito que alguns de vós já conheça esta obra, mas mais acredito que seja inteiramente desconhecido pela maioria. Não irei discorrer da sua qualidade mas, quando abri e desfolhei os volumes um pensamento súbito apoderou-se de mim e me fez meditar sobre ele : Os exemplares que adquiri estão ainda com as páginas juntas tal qual como saíram da gráfica. Constatei assim que, em quase 100 anos de existência, ninguém leu estes exemplares em particular! Uma obra de uma tiragem tão escassa tão rara e tão importante, virgem como qual saiu do prelo parece-me deveras para lamentar. Assim, e apesar das páginas se encontrarem já amarelecidas pelo tempo, constatei ser o primeiro a por os olhos em pleno nelas. Não que isso me traga especial vantagem ou qualquer tipo de benefício, mas não deixo de sentir uma certa tristeza. Os livros compram-se para serem lidos, é essa pelo menos a minha política...

 

01.jpg

i1 - Capa do primeiro volume da obra em estudo. Nela impera um equívoco: O Porto não é Ciuitas Virginis como aqui se vê no pseudo-brasão, mas sim Ciuitatis Virginis, o que é completamente diferente! Este erro persiste à séculos e é daqueles enganos que de tantas vezes repetido já foi elevado a verdade para muitos que deveriam saber melhor....

 

Isto dito deixo-vos com um pequeno texto extraído desse livro, a pp. 197 e 198, referente à Capela-mor e Sacristia da Sé Catedral, edifícios que a patina do tempo equilibrou com o restante corpo da máquina da igreja, mas que na verdade são umas centenas de anos mais novas que a românica igreja fortaleza que se vislumbra ao longe a todos que contemplam aquela imensa penedia chamada Penaventosa.

 

*

«Capela-mor e Sacristia da Catedral (1606).

Para atestar a grandeza deste Prelado [D. Fr. Gonçalo de Morais] existem na Catedral do Porto duas obras notáveis: a Capela-mor e a Sacristia. Esta, cujo pavimento é de mármore, e tem ao fundo um lindo altar, dotou-a não só de magníficos arcazes e armários par a guarda das alfaias e paramentos, mas também de lavatórios e mesas de mármore, dando-lhe o aspeto imponente que tem hoje(1).

 

A capela-mor, essa foi feita por ele de mármore a fundamentis, com soberbos cadeirais (2) e majestoso retábulo, e, embora não seja cabeça para aquele corpo, por destoar do seu estilo arquitetónico, é contudo, grandiosa e impressionante (3).

 

catedral.png

i2 - A Sé Catedra vista pelo googlemaps: 1 - Capela-mor construída no início do século XVII, construção em claro contraste com a restante igreja e que fez desaparecer a original da igreja com o seu certamente notável deambulatório. / 2 - Sacristia. / 3 - Corpo da igreja, mais antigo, não obstante o seu aspeto atual dever-se a importantes reformas feitas no século XVIII em periodo de Sede Vacante e posteriores obras do século XX no sentido da a reverter à sua pureza românica original, assim destruíndo e refazendo grande parte do que ali se vê.

 

Na capela de S. Vicente, fundação de D. Frei Marcos de Lisboa, ampliou, como disse D. Frei Gonçalo de Morais, o jazigo dos bispos, e para ali fez trasladar solenemente, em 20 de março de 1614, as ossadas dos que estavam em sepulturas dispersas pelo corpo da Catedral, a saber: D. Simão de Sá Pereira, D. Rodrigo Pinheiro e D. Julião, que com os cadáveres de D. Frei Marcos de Lisboa e de D. Jerónimo de Menezes completam o número dos Bispos inumados naquele lugar. (4)»

*

 

NOTA: Tirando esta, as notas finais são parte integrante do texto.

 

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1- A atual sacristia era anteriormente uma capela, onde se diz que se paramentavam os Prelados para as Missas pontificais, o que fazem hoje na capela de S. Vicente. D. Gonçalo de Morais transformou essa capela em Sacristia, por ser acanhada a primeira, que se conserva ainda ao lado da capela-mor, para onde tem porta.
2 - Os cadeirais, que tem hoje o Coro, não são os de D. Gonççalo de Morais, mas aliás da segunda metade do século XVIII, pois o estilo é já do género de Luís XVI.
3 - O mesmo facto se deu, entre outras, na Capela-mor da Sé de Braga e Évora, construídas, aquela em 1509, e esta no tempo de D. joão V, em estilo diferente do corpo da igreja. Os púlpitos de mármore da Sé do Porto são também atribuídos, pelo menos um, a D. Gonçalo de Morais, e bem assim a estante coral de bronze na data de 1616. O brasão de D. Gonçalo de Morais ostenta-se no arco triunfal da mesma capela-mor, na referida estante coral, e na porta do átrio do Paço episcopal, que reformou.
4 - O retábulo atual da Capela de S. Vicente deve ser de D. João Rafael de Mendonça, pois no respetivo altar ostenta-se o brasão deste Prelado.

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