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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A fome foi negra, em 1891

01.04.20

A bancarrota de 1891 terminou com um período de estabilidade no país (1854-1891) e cedo transformou a crise monetária numa crise económica. No Porto, algumas medidas foram tomadas para acorrer aos mais desfavorecidos pela sorte, sendo que entre elas se encontra uma Cozinha Económica, estabelecida pela Companhia de Utilidade Doméstica,[1] com a coadjuvação da Câmara Municipal. O contrato entre ambas foi celebrado nos Paços do Concelho em 29 de outubro de 1891, sendo à época presidente da Câmara e da Comissão Municipal, António de Oliveira Monteiro.

 

Retrospetivando: fora esta companhia que, em 12 de agosto do mesmo ano, fizera uma exposição à câmara pela «conveniência pública de se instituir nesta cidade uma cozinha económica para atenuar os efeitos da crise monetária nas classes trabalhadoras, fornecendo a estas uma alimentação sadia, abundante e barata». A câmara logo no dia seguinte prontificou-se a atender o pedido e auxiliar no que pudesse, a mesma companhia.

 

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i1 imagem repescada de uma outra publicação d' A Porta Nobre. A seta horizontal indica o muro das Carmelitas e a vertical o convento. Dentro da cerca do antigo convento (encoberto pelas árvores) vislumbra-se o telhado da Cozinha Económica.

 

As condições, estipuladas no contrato de outubro acima referido indicam que seria a câmara a fornecer à companhia, num barracão construído no terreno da melhor cerca do extinto convento das Carmelitas,[2] a cozinha, pronta a funcionar, com louças, utensílios, canalizações de esgoto, gás, água, não podendo exceder, na construção e instalação, valor superior a 5:000$000 reis. Sendo que, logo que o terreno lhe fosse necessário, poderia ordenar a demolição do barracão, que ficaria sempre propriedade do município, bem como o terreno.

 

Assim que pronta, a cozinha seria entregue à companhia, que tomaria desde então para si os encargos com a mesma (pessoal, administração e reparações). Ainda que desse prejuízo, seria a companhia obrigada a sustenta-la enquanto durassem as circunstâncias que haviam determinado a sua instalação (até a um limite de 6 meses). Tendo boa aceitação e não prejuízo, seria o valor excedente usado no melhoramento do serviço e na montagem de outras cozinhas que servissem os centros das populações operárias, tornando esses estabelecimentos permanentes.


A cozinha funcionaria diariamente, servindo três refeições tão variadas quanto possível:[3]
1ª o almoço (das 7h às 9h horas da manhã), composto por:
- uma tigela de 7dl de caldo (20 reis)
- 200g de pão (10 reis)
2ª o jantar (das 11h às 16h), composto por:
- um abundante prato de ensopado, denominado «prato do dia» (30 reis)
- uma tigela de 7dl de caldo (20 reis)
- 200g de pão (10 reis)
3ª a ceia (do anoitecer até às 20horas no inverno e 21h no verão)
- uma tigela de 7dl de caldo (20 reis)
- 200g de pão (10 reis)

Os preços apenas poderiam ser alterados com a anuência da Câmara ou da comissão municipal, podendo o consumidor adquirir senhas apenas para pão, caldo ou o prato do dia, se preferisse.

 

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i2 a área do convento, na carta topográfica de 1892: 1. edifício do convento (igreja, claustro e restantes dependências), 2. barracões da cozinha económica, 3. praça "dos leões", 4. praça Guilherme Gomes Fernandes (à época praça de Santa Teresa)

 

As refeições seriam servidas no local ou levadas para o domicílio. No local teriam de ser fornecidos louça, talher, e água (não era permitida a venda de vinho). O pessoal deveria apresentar-se lavado e limpo, sendo «os mais severos preceitos higiénicos» observados na confeção da comida, limpeza da cozinha, lavagem dos produtos alimentares, louças, tinas e dalas de serviço. Na cozinha poderiam entrar livremente «os vereadores da câmara e seu secretário, as autoridades e seus delegados, os facultativos, os oficiais do exército, os membros a imprensa e os acionistas da companhia», os quais poderiam «provar a comida, inspecionar a cozinha, os cozinhados e os géneros neles empregues.

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A crise foi de tal forma impactante que a câmara, com a autorização do governo, iniciou a emissão de vales de 50, 100 e 200 reis, admitidos no pagamento dos impostos municipais e pagáveis em «notas de banco e à vista na tesouraria da câmara». Foi destinada a verba de 4:500$000 para a despesa de fabrico destes vales. Deixa o relatório camarário de onde recolhi estas notas, a consuladora afirmação: «não será demais asseverar-se que os nossos vales evitaram perturbações da Ordem, cujo alcance e proporções ninguém poderia prever...». Quem sabe, um novo 31 de janeiro, episódio trágico que ocorrera naquele mesmo ano.

 

Deixa o mesmo relatório uma nota de louvor aos funcionários da câmara que prepararam os vales, num trabalho «ímprobo e violento, que teve de realizar-se de noite, em parte pelo menos». Foi um trabalho extenuante uma vez que a autorização do governo só chegou «no período mais agudo da crise», sendo aqueles vales avidamente procurados pelo público.

 

Desta recessão, Portugal só verdadeiramente sairia após a segunda Guerra Mundial. À sua dilatação no tempo não terão sido alheias as permanentes convulsões dos últimos anos da monarquia, bem como toda a primeira república, que teve de suportar, além da desunião política, a primeira guerra mundial e a gripe espanhola.

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1 - Sociedade anónima de responsabilidade limitada regida à época por Manuel Vieira de Andrade e Adolfo Marcolino Álvares Pimenta

2 - Que fora anos antes adquirido ao Estado. Ali se pretendeu construir um mercado similar ao da rua Ferreira Borges. Contudo, a crise económica acabou por fazer ruir esse intento.

3 - Apontamentos curiosos para se aferir da diferença entre as refeições que hoje designamos pelo mesmo nome, mas que ocorriam em altura bem diferentes do dia.

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