Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A inauguração da estátua do rei D. Pedro V

29.10.19

Na Praça da Batalha encontramos, desde há cerca de 150 anos para cá, a estátua do rei D. Pedro V que faleceu bem novo após um curto reinado. Foi um rei que não se escusava a visitar e cumprimentar os doentes e os pobres em pessoa; e talvez isso lhe tenha custado a vida... Mas também por isso ficou sempre sendo um monarca muito estimado pelos seus súbditos.

 

Foi em 1862 que a primeira pedra da construção desta estátua foi lançada. Mas apenas em 1866 a estátua foi finalmente colocada no seu pedestal - às 5 da manhã do dia 26 de Janeiro - onde ainda hoje se encontra, estando rei D. Luís, irmão do homenageado, presente na inauguração.

 

No dia anterior a este, a praça da Batalha foi grandemente iluminada, como que um prelúdio para o que se iria passar no dia seguinte. Esta consistia em diferentes estrelas iluminadas a gás e colocadas sobre as pilastras que sustentavam a grade que cercava o pedestal do monumento. Também se iluminaram a Câmara Municipal e muitos edifícios públicos e particulares. Nessa noite foi grande o concurso de povo que girava na rua Santo António e praça da Batalha.

 

No dia seguinte, 3 de Fevereiro, ao nascer do sol, as fortalezas içaram a bandeira nacional. O préstito saiu da casa da Câmara seguindo pela rua de Santo António até à praça da Batalha.

 

A praça da Batalha achava-se vistosamente guarnecida de bandeiras, galhardetes, pirâmides de camélias, e das janelas das casas circunvizinhas pendiam cobertores de damasco de várias cores. A rua de Santo António, praça de D. Pedro e calçada dos Clérigos também estavam vistosamente enfeitadas, sobretudo a rua de Santo António, pendendo variados damascos das suas janelas. Mesmo as árvores da praça foram podadas para melhor embelezamento da mesma.

 

A praça onde se ergue o monumento do Sr. D. Pedro V estava circundada por filas da tropa de guarnição, comandadas pelo general Casimiro Benevento; dentro do recinto achavam-se diferentes corporações, deputações de diferentes classes da sociedade, titulares, cônsules, juízes, lentes dos estabelecimentos de instrução, vários convidados etc.

 

Os corpos e o destacamento de cavalaria formaram em volta da praça dando direita à rua Entreparedes e uma guarda de honra com música formou dentro do recinto interior da praça, dando a direita ao pavilhão erguido para a cerimónia.

 

Eram duas horas e tanto da tarde quando sua majestade el-rei o Sr. D. Luís I, em carro descoberto, e acompanhado dos Srs. Visconde da Praia Grande de Macau, Marques de Sousa Holstein, Sérgio de Sousa e Caula, chegou à praça da Batalha. Nesta ocasião a tropa apresentou as armas, e as bandas militares romperam o hino de el-rei.

 

Screenshot_1.png

gravura representando o monumento referido no texto, no tempo da iluminação a gás

 

Em seguida seguiu sua majestade para o pavilhão que estava armado no recinto da praça; passados momentos o Sr. Luís José Nunes, presidente da comissão do monumento dirigiu-lhe uma alocução.

 

Depois sua majestade encaminhou-se para o pedestal da estátua, o Sr. Nunes entregou-lhe um cordão de seda que comunicava com duas bandeiras nacionais que cobriam a estátua, estas descerraram-se a estátua apareceu descoberta aos olhos da multidão; a tropa apresentou armas novamente; as bandas marciais romperam o hino do Sr. D. Pedro V; subiu no ar uma girândola de foguetes, e salvaram as fortalezas: na da serra do Pilar a artilharia aí colocada salvou com 21 tiros, tendo o castelo da Foz respondido aos mesmos com igual número.

 

Recolhido el-rei novamente ao pavilhão, o Sr. Luís José Nunes proferiu outra alocução, seguindo-se outra do Sr. Governador Civil, o Sr. Conselheiro Januário Correia de Almeida. O Sr. D. Luís, respondeu com um pequeno mas sentido discurso, em que louvava as virtudes do seu falecido irmão, e em que engrandecia o povo que as soubera apreciar.

 

O Sr. Governador Civil findo este discurso levantou vivas a sua majestade, Carta Constitucional, Sr. D. Fernando, família real, e a esta cidade.

 

Da Batalha el-rei seguiu para a igreja de Santo António da porta de Carros (dos Congregados) a ouvir o hino TE DEUM LAUDAMOS, composto especialmente para a ocasião por vários artistas envolvidos e executado gratuitamente; com a guarda de honra montada à porta da igreja durante a cerimónia.

 

Finda aqui esta breve descrição da inauguração da estátua. Remato com uma nota acerca da "pequena polémica" gerada à volta dela na imprensa da época. Tão simples quanto isto: uns queriam a estátua voltada para nascente, outros, para o largo de Santo Ildefonso, ou seja, para o início da rua de Santa Catarina. Correram rios de tinta nos jornais, sendo esta última vontade a que prevaleceu.

 

NOTA: Esta informação foi obtida n' O Nacional de Janeiro/Fevereiro de 1866. Em itálico está o texto transcrito literalmente, o restante foi modificado para se enquadrar no outro.

 

 

__

Originalmente publicado no blogspot em 07.04.2013