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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A ponte de Matosinhos

16.06.13

Esta é mais uma publicação que reintroduzo vinda da antiga casa d' A Porta Nobre no blogspot. É toda ela exclusivamente um traslado de grande parte de um artigo publicado n' O Tripeiro em março de 1952 e fevereiro de 1953 por Flávio Gonçalves. Notar que a mesma foi escrita ainda ao tempo da existência da ponte e por quem certamente a conheceu. Vejamos o texto:

 

DOCUMENTOS

«Fica a referida ponte num lugar ameno, junto à foz do rio Leça da Palmeira. As águas correm ali com mansidão, num esquecimento, permitindo ver através da sua transparência cardumes de pequeninos peixes e a brancura das areias.

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O documento mais antigo que conheço acerca da ponte de Leça-Matosinhos é uma provisão regia de 5 de junho de 1619 (...). Filipe II, sabendo que Pantaleão Pereira arrematara por 6.000 cruzados as obras da reedificação da ponte - postas previamente em pregão - ordena ao corregedor do Porto que mande repartir pelas diversas comarcas e provedorias do norte do país a quantia pedida pelo mestre pedreiro.

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Este trabalho da ponte não pode, contudo, ser atribuído a Pantaleão Pereira. Por um alvará de 17 dezembro de 1649 o restauro da «ponte que divide os lugares de Matosinhos e Leça de Matosinhos» adjudica-se a outro arquiteto - mestre Domingos de Freitas. Pantaleão Pereira desistira da tarefa ou não a conseguira levar a cabo, e então, trinta anos depois, como as ruinas se acentuassem, procurou-se atender outra vez ao assunto.

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D. João IV aceitava, portanto, a oferta de Domingos de Freitas, a quem entregava a obra, e referia finalmente por que comarcas se devia distribuir a soma dos 4.000 cruzados e 50$000 reis [da arrematação]: «Cidade do Porto, vila de Guimarães, cidade de Braga, vila de Viana foz de Lima, Torre de Moncorvo, cidade de Miranda, Leiria, Lamego, Viseu, vila de Esgueira, cidade da Guarda, e vila de Castelo Branco» (...).

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Tudo indicava que a velha ponte iria ter, enfim, a sua desejada e indispensável reparação, ou, melhor dizendo, uma nova e completa edificação. Pois ainda não foi desta vez. Domingos de Freitas abandonou também o compromisso assumido, para António Vieira, arquiteto de Paço de Sousa, o retomar logo em 1651.

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(...) Carecemos, contudo, de um certificado que afirme a sua autêntica intervenção nesta obra. Anteriormente, Pantaleão Pereira e Domingos de Freitas tinham-na abandonado, talvez por dificuldades técnicas ou por pouco lucro. António Vieira procederia de igual modo?

 

Julgo que não. As ruínas da ponte, bem frisadas nos documentos, não permitiriam mais demoras. Por outro lado não se conhecem concursos ou pregões posteriores, nem mais artistas que arrematassem os trabalhos da restauração. E a ponte que se ergue entre Leça da Palmeira e Matosinhos apresenta, de facto, características seiscentistas (...). Deve remontar aos meados do século XVII e provir da direção de António Vieira o monumento que cavalga o Leça perto da sua foz.

 

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Imagem do início do século passado onde se pode ver a ponte e o ambiente pouco urbanizado que a rodeava. Praticamente tudo o que nela se vê desapareceu para dar lugar ao porto de Leixões (imagem do blogue Matosinhos Antigo)

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO PRIMITIVA

Cabe agora interrogar:
Como seria a construção primitiva? Qual a sua idade e aspeto? Estaríamos em face de um monumento romano ou de um monumento medieval?

 

Eis algumas perguntas a que é difícil responder e que, em contrapartida, levantam questões diversas.

 

Na ponte seiscentista que hoje vemos sobre o rio Leça, não se descobrem quaisquer vestígios arquitetonicos anteriores ao século XVII. Tal facto, além de representar uma lamentável ausência de dados informativos, põe-nos diante dos olhos o problema de se saber por que motivo a construção teria sido tão radical. Cai de parte a ideia de um simples restauro ou reforma, para acreditarmos antes num trabalho inteiramente novo e completo.

 

Para mais, atendendo à largura do rio naquele sítio e à força da corrente no inverno, parece lógico que o monumento primitivo apresentasse certa imponência e solidez. E, assim, estranhamente se explica que na ponte substituta não ficassem restos arcaicos, como mais ou menos ficam sempre ao repararem-se construções, ao princípio grandiosas. Ou a fábrica desaparecida possuía um diminuto interesse - o que vai de encontro a argumentos plausíveis - ou foi totalmente desmantelada durante a reedificação., hipótese que os documentos jamais permitem asseverar.

 

Digna de atenção, e também muito impressionante, é a falta de notícias que acerca da antiga ponte nos dão os escritores seus contemporâneos.

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(...) E nem no minucioso Anacrisis Historical ela vem mencionada, apesar de Pereira de Novais dedicar várias páginas ao rio Leça, à sua foz, e à descrição de Matosinhos e de Leça da Palmeira. Sem dúvida que o ilustre historiador portuense se guiou pelos monografistas que o precederam, pois quando escreveu a sua obra, por 1690, já a nova ponte devia estar concluída à muito.

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Afinal, a existência da primitiva ponte de Matosinhos apenas se prova pelos diplomas que no século XVII ordenaram a sua «reedificação». Os testemunhos anteriores são mudos a seu respeito.

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A antiga ponte de Matosinhos poderia ter sido também um modesto trabalho de madeira, apesar do local não ser dos mais propícios, nem dos mais aconselháveis para tal género de construções. Talvez assim se explique, em parte, a falta de vestígios arquitetónicos e a falta de referências escritas. E repare-se ainda que na escritura de fiança de 1651, António Vieira se comprometia a «haver de fazer a ponte» do rio Leça - quem sabe se a «fazer» em pedra o que até então era em madeira desconjuntada...

 

De qualquer modo, a ponte que agora liga Matosinhos a Leça da Palmeira concretiza, realmente, uma obra que nada deve à arquitetura ante-seiscentista.

 

DESCRIÇÃO ARQUITETÓNICA

Passando à descrição da ponte, começamos por dizer que é feita de granito e que tem uma série de pormenores originais.


Constituem-na dezoito arcos de volta inteira, os quais sustentam um tabuleiro várias vezes remodelado, em cujo pavimento passa a estrada. Quanto ao número dos arcos, Cerqueira Pinto escreveu na História do Bom Jesus de Bouças que eram dezanove, levando Godinho de Faria[1] a repeti-lo e o Guia da Leixões a supor que outrora existiam, de facto, dezanove arcos, e que um havia desaparecido. Mas pode tratar-se de um erro de contagem de Cerqueira Pinto; ou então as obras de urbanização e de viação efectuadas em Leça da Palmeira ou em Matosinhos roubaram-lhe esse arco.

 

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A ponte vista de Leça para Matosinhos.


A curva dos arcos mostra-se perfeitamente redonda, de pleno cintro, sendo as aduelas lisas, sem almofadas e quase iguais entre si, do que resulta uma linha regular no extradorso. Diferem bastante uns dos outros os diâmetros dos arcos: - muito reduzidos nos primeiros nove arcos (começando-se a contar da margem sul), maiores nos restantes (os mais próximos da margem norte), e atingindo no décimo quarto a máxima extensão.


O tamanho dos pegões varia de modo inverso, aumentando de largura quando diminui a amplitude dos arcos. A separar os arcos mais pequenos estão, portanto, pilares e tímpanos larguíssimos, verdadeiras paredes de cantaria, onde nem sequer se vêem corta-mares ou contrafortes, mas sim, no alto, alguns modilhões.


O aparelho arquitectónico é regular e médio, de silhares dispostos em fiadas horizontais, e isto tanto no intradorso dos arcos, como nos tímpanos (sem olhais), como nos corta-mares. Estes últimos, que só aparecem nos pilares mais estreitos - entre os arcos maiores - têm forma prismática e secção triangular na face voltada a jusante, e forma semi-cilíndrica e secção semi-circular na face voltada a montante. Semelhante particularidade não é vulgar na composição das pontes. Os talha-mares de base triangular, quando existem, colocam-se da banda de montante, por razões de ordem prática, lógica e até científica.

 

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Postal antigo que nos mostra uma grande parte da extensão desta ponte.

 

O tabuleiro da ponte desce ligeiramente de Leça para Matosinhos, em rampa mal perceptível, e perto da margem sul flecte um pouco para a direita, numa pequena curva. De um e do outro lado do pavimento levantam-se os muros das guardas, que devem provir de uma época distinta do resto da construção, já pela diferente qualidade do granito, ainda sem patine, já pelo próprio aparelhos e argamassa. Pertencem, por certo, a qualquer das obras que em 1816 e em 1883 se realizaram no monumento.


As dimensões da ponte são:

Comprimento total: 121,50m

Idem, da curva até à margem sul: 26,20m

Largura junto da margem norte: 4,00m

Idem, a meio da ponte: 4,22m

Idem, junto da margem sul: 4,20m


Cumpre analisar, finalmente, as duas meias-laranjas abertas no tabuleiro, sem dúvida os pormenores mais curiosos deste monumento. Compõem-se de dois corpos ligeiramente ovais, de fundo lajeado, que apoiados cada um no seu talha-mar cilíndrico, avançam fora do piso da ponte, formando varandas para o lado de montante. Tais construções destinavam-se a facilitar o cruzamento de carros, descongestionando a via. Ainda se utilizavam como miradouros ou caramanchões, para o que serviam os bancos de pedra que lhes correm a toda a volta.


A primeira meia-laranja, encontra-se mesmo na curva que o tabuleiro faz, à distância de 26,20m da margem sul (Matosinhos) e de 95,30m da margem norte (Leça da Palmeira). Adiante 25,30m fica a outra meia-laranja, a 70m da margem norte e a 51,50m da margem sul. O uso destes corpos salientes - feitos para dar passagem aos carros, cavalos, e peões que se enfrentavam na ponte - divulgou-se a partir do século XVII. Já na antiga ponte de Coimbra existia o chamado Ó da Ponte, remontante às construções nela efectuadas nos fins do século XVI e nos primeiros anos do século seguinte. Tratava-se de um redondo, colocado quase a meio da ponte, que se compunha de dois semi-círculos murados, assentes em pegões cilíndricos e separados pelo pavimento da estrada. Felizmente que logo em 1669 durante a célebre viagem de Cosme de Médicis, o florentino Pier Maria Baldi fixou o aspecto dessa desaparecida ponte coimbrã, em duas aguarelas de notável precisão que as artes gráficas reproduziram e que andam bastante divulgadas no nosso país.

 

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Uma imaga da bucólica foz do Leça, para sempre desaparecida. A ponte vê-se em parte no centro dela ainda que algo escondida.


No século XVIII a aplicação das meias-laranjas tornou-se mais frequente, vendo-se sob um traçado circular em Ponte da Barca (1761) e em Amarante (1790), e sob um risco poligonal na ponte de Silves. Só na ponte de Matosinhos existem duas meias laranjas, ambas viradas para o mesmo lado e sem corpos simétricos na face oposta. Caso, na verdade, interessante, que merece ficar anotado de uma maneira particular, especialmente porque esta ponte sobre o rio Leça está condenada a desaparecer. Em breve será derrubada para alargamento do porto artificial de Leixões, cujas docas, febris e enfumaradas, se levantam perto. Assim, mais uma vez em nome do progresso, terminará a história de um típico monumento - típico pela sua biografia agitada e pelos valiosos elementos que fornece para o estudo da arquitectura das pontes seiscentistas."

 

1- Monografia do Concelho de Bouças, 1899