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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A porta das Mentiras

06.01.15

Não obstante esta porta ter transitado do nome que surge em título para o seu oposto, isto é, para porta das Verdades; creio que mentiras estará certamente mais de acordo com a sua índole inicial, que adiante veremos. Esta muito antiga entrada da cidade desapareceu no ano de 1788, pois foi a 16 de abril desse ano, a pedido do escrivão do registo eclesiástico do bispado do Porto, que se celebrou um contrato referindo o seguinte:

 

«que ele em seu nome e de outros moradores da sobredita rua de Detrás da Sé fizeram uma representação por escrito ao Ilustríssimo Senado da Câmara desta mesma cidade dizendo nela que o postigo das Verdades que se acha no fim da mesma rua e que dá serventia aos seus habitadores e aos de todas as vizinhanças da Sé, e ainda da rua Chã para o Codeçal, e Ribeira se achava ameaçando evidente perigo por ter em cima do arco uma parede muito arruinada, e parte de outra do lado do nascente ainda mais, sendo a passagem de degraus muito violentos, e alguns desses se tinham demolido e com a próxima invernada se arruinarão mais o que tudo concorria para fazer muito violenta aquela serventia que é muito frequentada. Que ele representante por ter junto aquele sítio uma porta no seu quintal e outros mais seus vizinhos se ofereciam a fazerem muito cómoda aquela serventia formando-se uma lingueta em lugar de degraus ademolindo-se [sic] o arco que de nada servia senão de ameaçar evidente perigo concedendo-lhe o dito Ilustríssimo Senado licença para a dita obra à própria custa do representante, que nenhuma despesa para ele pedia ao público somente que ele se possa utilizar da pedra da dita demolição e tirar do mesmo sítio a mais que lhe fosse necessária por haver junto à Capela de Nossa Senhora das Verdades bastantes pedreiras e o dono delas nenhuma dúvida a isso punha, nem no mesmo sítio se achava alguma casa junto do dito arco que para ele tivesse janela ou servidão alguma para a dita obra [nem] causava prejuízo algum a alguém, e só grande utilidade ao público o muito maior por lhe não pedir despesa alguma para ela. Pedindo que o mesmo Ilustríssimo Senado se dignasse conceder-lhe a referida licença atentas as razões expostas e a que com outra lingueta que se mais queira fazer abaixo e onde se achava[m] outros degraus poderiam ir com muita facilidade liteiras, e cadeirinhas até o Recolhimento de Nossa Senhora do Patrocínio»

Screenshot_1.jpg

o retângulo vermelho assinala o local onde se encontrava a porta ou postigo das Verdades : a azul encontra-se representado um caminho (desativado aquando da abertura da avenida Vimara Peres), nele ainda se identificam arcos do aqueduto do colégio dos jesuítas (setas azuis)

 

Este pedido foi levado à Junta das obras Públicas que o deferiu mediante algumas condições:

«obrigando-se o suplicante por escritura pública a por um padrão junto à Capela da Nossa Senhora das Verdades e no qual se grave um letreiro em que se diga que naquele sítio havia monumentos de um arco que ameaçava considerável ruína o qual mostrava vestígios da cidade antiga» , pelo que o suplicante e os restantes moradores daquela rua e suas circunvizinhas «se obrigava como com efeito obriga a mandar demolir o Postigo das Verdades que se acha no fim da mesma rua e a parede que existe por cima dele, e lado do nascente e depois a mandar fazer debaixo … uma cómoda serventia no mesmo sítio, formando nele uma lingueta em lugar dos degraus tudo bem reparado e seguro, e à sua própria custa e na forma que se lhe ofereceu fazê-lo ... e sem causar prejuízo algum ao público logo que depois que for finda a dita obra se obriga mais a mandar pôr um padrão junto à Capela de Nossa Senhora das Verdades e escrever nele um letreiro em que se diga e conheça em todo o tempo do mundo, que naquele sítio haviam monumentos de um arco que ameaçava ruína considerável o qual mostrava vestígios da cidade antiga....».[1]

 

Creio que esta porta ou postigo foi no século XI e XII a chamada porta da traição, comum a outras muralhas coevas, que em algumas localidades ainda subsistem por não terem sofrido a pressão modernizadora a que o Porto sempre esteve sujeito (ajudou-me a chegar a este pensamento o artigo do Dr. Ferrão Afonso publicado em 2004 na revista O Tripeiro, sobre o muro velho intitulado Às voltas com a cerca). Este postigo constituiria assim, na fase original da cerca românica, a única entrada para o burgo a par com a muito mais importante porta da Vandoma. As portas de São Sebastião e de Santana serão portanto posteriores a elas. O próprio nome dela - porta das Mentiras - talvez se relacione diretamente com a expressão porta da traição. Este tipo de portas, ou mais acertadamente, postigos, eram utilizados para fuga das populações e guarnições dos castelos ou localidades, mas poderiam igualmente ser utilizadas, se franqueadas por algum traidor, para entrada dos exércitos inimigo, que frequentemente montavam cercos de vários meses às localidades.

escadas verdades 2 (EU).jpg

1 e 2 acesso às escadas das Verdades que posteriormente se bifurcam nas escadas do barredo e na rua da Sra. das Verdades : a foto 2 mostra-nos o local onde muito provavelmente se erguia o arco

 

Logo depois de passarmos esta porta, o caminho flete para a esquerda, onde mais abaixo se cruza com um outro arco que ainda hoje é muitas vezes denominado Arco das Verdades. Na realidade trata-se apenas de um arco do aqueduto que levava água canalizada ao colégio jesuíta.

 

escadas arco verdades 2 (EU).jpg

o arco das Verdades visto do local onde se situou a verdadeira Porta das Verdades (1). Veja-se que do antigo aqueduto subsiste um outro arco também visível na foto; bem como um outro completo e outro pela metade, visíveis no paredão que continua para nascente (2)

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1- ver A rua dos Cónegos, vol. 2, p 211.

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