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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Porta do Sol

por Nuno Cruz, em 22.08.18

Reinicio a trasladação das publicações que se encontravam alojadas na casa antiga d' A Porta Nobre, no blogspot. A presente publicação agrega uma originalmente dividida em três partes publicadas sucessivamente em 22, 23 e 24 de janeiro de 2014. O primeiro artigo aqui transcrito vem do segundo ano da primeira série da revista O Tripeiro (1909-1910). Ele torna-se ainda mais interessante, a meu ver, por ter sido originalmente publicado na revista Porto Illustrado de 1863; portanto numa altura em que a Porta do Sol ainda existia. No segundo, da mesma revista mas já bastante truncado, continua a descrever-se a Porta do Sol e suas imediações, agora da memória de um portuense (1926). Na última parte da republicação, coloco algumas gravuras, que se bem que conhecidas, vêm acompanhadas com comentários e notas. Finalmente uma quarta parte, mais curtinha, onde transcrevo um documento que julgo ainda inédito, naquela que é uma pequena surpresa para os meus leitores...

Espero que gostem!

 

 

I - «A ANTIGA PORTA DO SOL

 

Da muralha que circundou o Porto, construída durante os reinados de D. Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando, poucos vestígios existem hoje, dignos de especial menção. O único, talvez, é a Porta do Sol. Porém, a Porta do Sol, elegante construção que ela é, e que bem se mostra despida do caráter dessa antiguidade, a que pertence a muralha; tal como ela existe e como se vê na nossa gravura, não é contemporânea da grande obra que ocupou, diz-se, os reinados dos três soberanos.

 

Além das portas que costumavam ter todas as muralhas das terras afortalezadas, que eram as portas principais para o serviço publico, havia também outras portas mais pequenas, de somenos construção e pequeno concurso, a que batisaram com o modesto nome de postigos, como o dos Banhos e do Pereira, que ainda se vêm de pé, estes com saída para o rio. Pela parte da terra havia outros, e um destes era o do Sol.[1]

 

Porém, sobre o velho Postigo do Sol, por se achar extremamente arruinado, se levantou em 1768 o arco atual, que custou a quantia de 960$306 reis, sendo feito por ordem do general e governador das justiças que então era João d'Almeida [sic] e Melo, pai do grande Francisco d'Almada. Os mestres pedreiros Caetano Pereira e José Francisco foram os que arremataram e levaram a cabo esta obra, que ficou concluída no mês de agosto do dito ano de 1768; mas só a 28 de fevereiro do ano seguinte é que foram embolsados da sua importância.

 

DSC_398.jpg

 i1 - a Porta do Sol num desenho apresentado no artigo d' O tripeiro

 

Eis aqui a conta, conforme se vê no livro competente, que se acha no cartório da câmara desta cidade:

 

 

Liquidação do que importa a obra da Porta do Sol feita por ordem do Il.mº e Ex.mº Sr. General e Governador das Justiças. 

- 4982 palmos de esquadria lavrada de escada de soco, que corre em volta por baixo de toda a obra, superfície das pilastras, e na superfície da imposta, arquitrave e friso, em rústico, e superfície do arco, tudo feito e acabado, posto em seu lugar conforme arrematação e plano - a preço de 79 réis ... 393$578

- 2475 palmos de moldura nas bases das pilastras, capiteis e friso, compreendendo tudo em volta e seus membros particulares, como também o coronamento do tímpano, tanto pela parte interior como exterior, e acabado conforme a arrematação, o palmo pelo preço de 130 rés ... 321$750

- 70 braças e mais 22 palmos no interior da porta no cheio de alvenaria argamassada, a braça de 200 palmos, conforme arrematação, pelo preço cada uma de 2$280 ... 159$765

- 1140 palmos de lajeado no pavimento da empena, o palmo a preço de 18 réis ... 20$220

- 3 braças e mais 175 palmos de alvenaria na parte que uniu o muro à porta da parte do Convento[2], a preço cada braça de 1$400 réis ... 4$997

- 42 braças e mais 250 palmos no muro que fizeram no sítio onde foi a torre, cada braça a preço de 1$400 réis ... 59$716,6/9

 

-----------------------

960$306/9

 

 

Soma a conta toda a quantia de novecentos e sessenta mil trezentos e seis reis, mais seis nonos de real, que tanto se deve aos mestres.

Porto, 29 de agosto de 1768

 

 

Isto dizia o Porto Illustrado, de junho de 1863; mas o camartelo do progresso, de então até hoje, encarregou-se de suprimir estas relíquias do velho Porto. Qual mal fazia à cidade a conservação do arco do postigo do Sol?»

*

 

 

II - Uma memória de 1926

 

«Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sairemos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do teatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminhar-nos-emos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

 

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defesa: A mais antiga e menor - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluído no reinado de D. Fernando), de muito maior perímetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho. [3]

(...)

A Porta da Batalha era à entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloi, nos Lóios; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, próximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

 

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao centro verá a Porta que uma Câmara de conspícuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia. [4]

 

DSC_0399.jpg

i2 A Porta do Sol aqui devidamente acompanhado com estruturas ainda hoje existentes: ao seu lado esquerdo o mirante de Santa Clara, uma antiga torre da muralha que ainda hoje existe à face da Rua Saraiva de Carvalho; à direita o edifício da antiga Casa Pia portuense (ver uma mais completa descrição mais abaixo).

 

Chamava-se Porta do Sol, por que numa das faces do tímpano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respetivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo António do Penedo, por causa de uma ermida deste santo que aí se construiu.

 

Em 1768 achava-se em completo estado de ruína. O governador D. João de Almada e Melo fê-la demolir e mandou edificar em seu lugar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que falei e com esta inscrição latina:

 

SOL HUIC PORTAE

JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO

JOANNES DE ALMADA E MELLO

PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE

PROVINCIIS AETERNUM

JUBAR GANDIUM PERCUNE

 

A gravura que ilustra esta página [ver i2] é a reprodução de uma outra feita a lápis pelo antigo e muito considerado professor de desenho Snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artística, pelo meu querido amigo e colaborador artístico Snr. José Augusto de Almeida.

 

Por ela poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

 

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, no qual funciona presentemente o Dispensário; mais à frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavalaria permanente, era nos barracões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solípedes dos destacamentos de cavalaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para aumentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se as praças e no da direita os animais.

 

Junto à Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edifício da Casa Pia. Separada dele, por uma rua, a casa para alojamento dos oficiais de cavalaria, nos baixos da qual existia um depósito de palha, e à frente as cavalariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Aflitos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capela de Santo António do Penedo, completa o quadro.

 

Basta de maçada, leitor. Quando quiser pode voltar à sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capela da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada à Cervejaria Bastos, enquanto espera pelo elétrico n.º 17. (...) »

H.P. in O Tripeiro, 1926

 

 

III - O local e a sua evolução, visualmente falando...

 

Eis algumas imagens sobre a evolução do lugar onde a Porta do Sol se implementava, comparativamente com a nossa época.

 

ab.jpg

i3

 

i3 Na primeira imagem vê-se a subida para a Porta do Sol quando a rua Saraiva de Carvalho ainda não existia, e uma rua mais estreita - a de Santo António do Penedo - ligava a rua Chã à dita entrada e saída da cidade. Assinalo a laranja com um retângulo o Palacete do Visconde de Azevedo (ainda existente) e com uma seta verde um outro edifício que fora de um Miguel Brandão da Silva. Este último estava encostado à Capela de Santo António do Penedo, que foi também ela demolida por esses anos. Iniciada a destruição de toda esta área em 1875 - precisamente com a demolição da Porta do Sol - em 1886 desapareceria quase tudo o resto. Motivo: criar novo e desafogado acesso ao tabuleiro superior da Ponte D. Luíz, ficando como se apresenta na atualidade na segunda imagem.

 
Abaixo (i4) temos uma planta do século XIX da área aqui tratada. Com as mesmas cores são assinaladas as edificações da primeira imagem. Contudo, agora é também assinalada a Capela de St. António do Penedo que, note-se, não era propriedade dos mesmos donos da casa que a ela se adossava (seta verde).
 

Planta_1830.jpg

i4

 

 

A i5 mostra a localização de: a laranja o mesmo ângulo que surge na primeira imagem, a vermelho, o lugar por mim estimado (aceito rebate) da existência da Porta do Sol, o circulo verde aponta o local do edifício adossado à Capela de Santo António do Penedo e a azul o da dita capela. Por curiosidade, marquei com a estrela rosa o local onde foi instituída a "Feira da Ladra" no Porto (à imitação da lisboeta), cujo terreno aparece delimitado por um muro na imagem da parte II.

 

2.png

i5

Na i6, que complementa a anterior, verificamos que a Porta do Sol ficaria junto ao local onde hoje se encontra o quiosque embutido no muro.

3sol.png

i6

 

Na i7 e i8 temos novamente uma planta do como era a área imediatamente fora da Porta do Sol (conhecida por séculos como Carvalhos do Monte), e tal como ela se encontra agora. O local onde estavam as cavalariças é actualmente ocupado pelo término do Eléctrico 22. Para que o leitor não se perca, assinalo a capela do antigo asilo das Desamparadas que servirá como ponto de referência para o resto.

 

Planta.jpg

i7 e i8

 

Finalizo com a "cereja em cima do bolo", isto é, uma fotografia - a única que conheço - da Porta do Sol. Aqui se pode vislumbrar, por entre a porta, parte dos edifícios mencionados acima (i9).

 

Porta do Sol_02.jpg

 i9

 

Compare o leitor com a i10, mais conhecida, onde se vê a base de um dos pilares da porta, assinalado em ambas as imagens. E por último faço a transição da i10 para a i11, assinalando a primeira torre ainda subsistente da muralha fernandina na paisagem atual.

 

carvalhosdomonte.jpg

i10 e i11

 *

 

 

IV - A arrematação da obra da Porta do Sol

 

Naquele que é um aditamento à publicação original de 2014, transcrevo devidamente adaptada para a ortografia atual, a arrematação da porta que temos vindo a estudar. Foi uma surpresa para mim descobrir esta pequena (e muitas outras) preciosidade num dos livros de arrematações de obras do Arquivo Municipal do Porto. Esta em particular vem lançada a fl. 25v e 26 do livro 4.

 

 

« Termo de arrematação da Porta do Sol que fez o mestre pedreiro José Francisco e o mestre pedreiro Caetano Pereira onde se acha o postigo de Santo António do Penedo.

 

Aos quinze dias do mês de maio de mil setecentos e sessenta e sete anos nesta cidade do Porto e Casa do Senado da Câmera onde assestiram o Doutor José Paulo de Souza Juiz de Fora do Cível e Vereadores atuais com assistência do Procurador da cidade e aí andando a lanços a Porta do Sol que de novo se abre em o postigo de Santa Clara, lançaram em a dita obra, depois de vários lanços em que tinha andado feita com as condições aqui declaradas abaixo o mestre José Francisco natural de Paranhos e o mestre Caetano Pereira natural da freguesia de Santo Ildefonso.

 

A saber:

- A alvenaria feita de pedra nova dando os ditos mestres cal, saibro, e tudo o mais por sua conta, a dous mil duzentos e oitenta reis a braça;

- Esquadria cada palmo a preço de setenta e nove reis;

- Molduras o palmo facial a cento e trinta reis;

- Palmo de roço cúbico a dez reis;

- Entulho a braça de mil palmos a trezentos reis.

 

E com estas condições se obrigaram os ditos mestres a dar a dita obra acabada por todo o mês de outubro dando-lha demolida, logo em o mês de maio, ou quando não depois da demolida a cinco meses; o que assinaram obrigando-se por sua pessoa e bens a satisfaze-lo, do que fiz este termo eu João de Faria de Sousa. »

[ASSINATURA DOS PEDREIROS]

 

___________

1 - O nome mais antigo que conheço para este postigo é o de Postigo dos Carvalhos do Monte. A zona do convento das clarissas, onde se encontrava este postigo/porta, era bem mais fragoso até ao século XVIII, época em que se iniciaram obras de desmonte dos grandes penedos que por ali existiam; aliás a capela de Santo António do Penedo já desaparecida, era pelo seu nome indicador disso mesmo.

2 - De Santa Clara.

3 - Na realidade à época da sua construção a muralha gótica ou fernandina abarcou muito espaço ainda não urbanizado certamente tendo em conta a futura expansão da cidade o que veio a verificar-se mais de cem anos depois, no final do século XV mas sobretudo princípio do XVI.

4 -  «...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edifício era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o trânsito público, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegância, adornava o sítio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Porto tanto deve». Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285. Crê o autor deste blogue que a porta não foi deitada abaixo para se aumentar ao edifício da Casa Pia, mas sim para alargar o acesso à mesma por aquele lado (é o que me é possível concluir pela observação da planta na i7 quando comparada com a i8 [imagem do googlemaps]).

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