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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

A primeira garagem do Porto?

16
Jun20

Se é verdade que a garagem de O Comércio do Porto foi a primeira grande garagem da nossa cidade, como bem afirma o ilustre arqueólogo e divulgador da história e património, Joel Cleto; ainda assim e sendo a sua construção do início da década de 1930, não foi certamente pioneira. De facto, quando ela surge o automóvel tinha já um importante e crescente peso na sociedade da época, ao ponto de se justificar a existência de um aparcamento daquela magnitude. Mas nesta publicação, que já andava há anos bons em ideia, trago-vos um pequeno apontamento sobre aquela que poderá ter sido a primeira garagem existente na cidade, que começava a dar os primeiros passos na moderna vida automobilística sem a qual não conseguimos hoje conceber o nosso mundo.

 

É o caso que, em outubro de 1907, a recentemente constituída sociedade cooperativa Automotora do Porto entrava na câmara com um requerimento para a construção de uma «garage para automóveis, em um terreno situado entre as ruas Duquesa de Bragança e Malmerandas». Aprovado em dezembro, desde logo se terá dado início à sua construção, num terreno entre duas ruas a que hoje chamamos D. João IV e Dr. Alves da Veiga (o terreno era propriedade dos vizinhos da frente, na rua D. João IV). Lendo a descrição constante do projeto submetido à câmara em 1907, tiram-se curiosos apontamentos sobre a construção original, da qual, aparentemente, tudo o que subsiste se reduz às fachadas.

 

O edifício tem, pelo lado da rua D. João IV, 29,20m de largo e em Alves da Veiga 26,75m. O seu comprimento total é de 90m a norte e 85m a sul, formando por isso um ligeiro trapézio. Na origem, tal como hoje, todo ele seria coberto. A entrada principal situava-se nesta mesma rua, onde existia a garagem e uma «exibição de automóveis e acessórios de automobilismo». No lado oposto estacionariam as «várias oficinas para pequenas reparações de carros», com um andar superior a elas para o «escritório e outras dependências da sociedade e vários gabinetes de toillete que são indispensáveis para a limpeza das pessoas que chegam à garagem, sujos de pó». As fachadas não eram portanto idênticas, uma vez que em Alves da Veiga teria o tal andar ao centro, suportado por colunas de ferro, num comprimento de 22m e largura 9,50m.

 

02.png

esta fotografia mostra-nos com algum grau de certeza a garagem e foi tirada num momento em que desempenhou outra função que não a sua habitual (seria para o evento do Futebol Clube do Porto que ali teve lugar em novembro de 1908?) . a imagem é do AMP (ver aqui)


Erguido já no mais moderno cimento e com um pé direito de 6,5m, a estrutura era coberta por telha, em 3 cumes, com lanternins equipados com persianas que podiam ser erguidas, para arejamento. As colunas de ferro que suportavam a cobertura tinha 6 metros de altura. O chão era em betonilha na parte em que os automóveis parassem e em calçada à portuguesa na zona onde os mesmos eram lavados e consertados. A oficina, equipada para efetuar reparos de carpintaria, serralharia e pintura, era isolada em tijolo e ficava no ângulo sudoeste da garagem, entre a rua Dr. Alves da Veiga e a escada de comunicação para os escritórios no andar de cima, cujas divisórias seriam construídas de «tabique dobrado coberto a cal»

 

01.png

segunda imagem do AMP da mesma garagem (aqui), tirada para o lado oposto

 

Estes apontamentos, embora curtos, não deixam de nos transmitir pequenas frestas de história neles próprios. É o caso da referência ao pó com que os automobilistias forçosamente trariam consigo, provável consequência das estradas em macadam e terra batida então existentes. Igualmente as referências a oficinas de carpinteiro e serralheiro deixam antever a ainda emberbe tecnologia das carroçarias dos automóveis, indústria que nas primeiras décadas do século passado estava a dar os seus primeiros passos rumo à massificação. Curioso é igualmente notar que, embora as fachadas fossem construídas em cimento e nas oficinas se usasse o tijolo (de que tipo?); a compartimentação do primeiro andar se processava pelo velhinho tabique, que ainda hoje muito vemos por aí em edifícios velhos degradados ou em pequenas parcelas recuperadas, como motivo decorativo.

 

Importa também referir que as imagens que acima se vêm estão indicadas no AMP como mostrando o mercado Ferreira Borges.* Mas creio que saltará à vista do prezado leitor que tal é impossível. Ainda que não se possa inequívocamente afirmar que se trata da Garagem Automotora do Porto, tudo aponta para que assim seja.

 

Finalizo deixando-vos uma ligação para o projeto original da garagem (AQUI), bem imagem do edifício na atualidade; aliás ainda utilizado na finalidade para a qual foi construído!

Screenshot_2.jpg

entrada principal da garagem em 2016

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* Entretanto retificado no AMP (pf ver comentário)

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