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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

'A Prova Efetuada à Ponte Pênsil' - parte 1

31
Dez13

Em 1853, a ponte D. Maria II - mais conhecida por ponte pênsil - a primeira travessia fixa entre as duas margens do Douro, foi alvo de uma prova de esforço, por forma a ajuizar da sua capacidade de resistência.[1] Esta e as duas próximas publicações d' A Porta Nobre serão relacionadas com essa prova, momento da cidade já olvidado da sua memória viva coletiva.

 

(Artigo editorial do jornal O Periódico dos Pobres no Porto, em 30 de Março de 1853)

«Agora que o fumo dos foguetes se extinguiu no ar, que os sons da música marcial deixaram de ferir os ouvidos porque a ponte pênsil resistiu à prova oficial de estabilidade, entraremos na análise dessa prova, tendo à vista o relatório do engenheiro o sr. Mouzinho[2] que a ela presidiu. Não o faremos com ânimo hostil à empresa, nem para incutir receio no público; mas para que se esclareça a questão, porque em tal assunto o ocultar-se parte da realidade, ou uma crença errónea, podem ter consequências desastrosas. Se a imprensa, antes do naufrágio do vapor Porto,[3] tivesse analisado o peso que merecia a voz de estar arruinada a caldeira, se tivesse provocado um exame rigoroso do barco; o resultado seria, ou a condenação daquele vapor, ou a persuasão do seu bom estado; e foi ao pouco que nele confiavam que principalmente se deve aquele sinistro; pois se os passageiros não forçassem o comandante a retroceder da Figueira receosos de que não pudesse vencer o temporal pela proa, não lastimariamos hoje tantas mortes. A discussão é pois sempre útil em tais circunstâncias.

 

Tanto mais é para desejar que a discussão esclareça este objeto, por isso que a prova primeiramente anunciada há mais de dois meses com grande ruído, foi protelada com o pretexto de mau tempo, tendo neste intervalo havido dias sucessivos secos e de atmosfera limpa, o que não aconteceu naqueles em que a experiência se fez; e verificando-se afinal esta quando no Porto não estava nem o Governador Civil efetivo, nem mesmo o Secretário Geral que o substitui, pessoa cuja responsabilidade o Governo podia tornar mais efectiva.

 

Anunciada por terceira ou quarta vez para os dias 17 e 18, não se fez naquele dia, aparecendo editais de que não se anunciaria de novo, e teria lugar no primeiro dia de bom tempo; e a 18, sem anúncio algum se começou, sabendo-o nesse dia poucas pessoas. Apesar de que as pipas se enchiam fora da ponte, não se dava acesso aí ao público; as pipas vertiam bastante; e tudo isto incutiu em muitos desconfiança. E que da parte mesmo dos empregados havia não pequeno receio pelo resultado da prova, depreendeu-se por se julgar um triunfo e um atrevimento o Administrador passar a ponte, quando carregada, numa sege a trote.

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O relatório começa por classificar a ponte pênsil "uma das mais belas obras de arte que temos no nosso país, e podendo dizer-se a mais atrevida que entre nós se tem construido".

 

Esta beleza não a compreendemos bem: a beleza de uma obra de arte deve avaliar-se também pela sua solidez e por corresponder aos fins, e não só pela sua elegância e proporções: e tanto é duvidosa a primeira condição, que, depois de ouvidas as autoridades e pessoas competentes, julgou-se necessária nova prova, e SS. MM. foram aconselhadas a que não fizessem por ela a sua entrada no Porto. É constante, e não somos nós que o dizemos que o não vimos, que a amarração, do norte, dos cabos de suspensão ficou de maneira escondida que não pode verificar-se o seu estado de conservação: será isto beleza? a ponte foi colocada tão distante da maior passagem entre os dois cais, e isto por economia da empresa, que dois terços dos que passam o rio preferem embarcar a irem dar a volta pela ponte: será isto beleza? E quando houverem de andar diligências na estrada de Lisboa, tem de abrir-se de propósito uma comunicação entre a ponte e o caminho que se talhar para elas.

 

"A mais atrevida:" se o atrevido está em ser a delgadeza de seus cabos mui notável em relação à sua extensão, como atestam pessoas que têm examinado noutros países obras deste género; concordamos: mas não é atrevimento que louvemos. Mais atrevida seria se fosse, como a empresa primitivamente contratara, em frente da rua de S. João; mas entre duas montanhas de granito, e no mais estreito do rio, não sabemos que menos atrevida pudesse ser. Atrevida seria uma ponte de pedra que desde muito se projetara no Porto, entre a Serra do Pilar e a Casa Pia: essa sim seria atrevida, mas tornaria o Porto mais majestoso, tornaria uma só as duas povoações ao norte e sul do Douro, e facilitaria grandemente o trânsito para a estrada de Lisboa.

 

Mas vamos à prova e ao que ela vale.

 

"O máximo peso a que uma construção destas tem de resistir, supõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este peso está calculado entre 195 e 200 Kilogramas (429 a 440 arráteis) por metro quadrado."

 

Esta base de peso é exata se calcularmos uma passagem regular em dia de concorrência, e não uma aglomeração extraordinária de gente: num quadrado de quatro palmos e meio por lado, estavam certamente mais do que 4 pessoas num apinhamento de povo como o que concorreu ao caes na entrada de SS. MM., ou em outras ocasiões de grande afluência.

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O máximo peso? pois se por a ponte houvesse de passar um trem de artilharia, um regimento de cavalaria, uma sequência de transportes carregados, esse peso não podia ser muito maior?

 

Dir-me-ão que esse caso se não dá, porque se proíbe por cautela: mas então diga-se que se fez a prova somente para pessoas a pé e não andando, e que pelo mais não respondem.

 

A prova foi somente em relação à pressão de infantes[4] imóveis. E não tem a ponte de sofrer a ação de outras forças que ataquem a sua estabilidade? Se em vez do peso dessas duas mil e tantas pessoas para que a ponte foi experimentada, essas pessoas caminharem; poder-se-há afirmar que a ponte resistirá? e se essas duas mil pessoas forem de tropa, que caminhem a passo certo, mais ou menos acelerado, poder-se-há assegurar que poderão passar sem risco? Não pretendeu demonstrar, se não demonstrou, um engenheiro francês, por ocasião do desastre de uma destas pontes, que não havia uma única ponte pênsil em França, apesar de serem em geral mais fortes, que resistisse à passagem de um batalhão a marche-marche?

 

A mesma experiência triunfante do sr. administrador correr a trote em sege pela ponte carregada, aduz receio de pouca estabilidade, se é certo, como afirma um preâmbulo do J. do Povo, que fez repuxar a água pelos batoques das pipas a palmo ou palmo e meio de altura. Que oscilação não era preciso produzir no estrado da ponte para se dar este efeito? E se fossem oito ou dez seges que passassem a trote, mesmo descarregada a ponte, a que força de flexão não corresponderia, e demais em sentido alternativamente contrário, a que o ferro resiste menos?

 

Até aqui não consideramos senão os efeitos das forças de flexão; e já temos demonstrado que a prova não demonstrou que havia estabilidade para todos os casos, e menos no de movimento. Porém se atendermos também às forças de torção a que os cabos e os arames verticais podem estar sujeitos por um temporal, mesmo por um vento algum tanto rijo, a prova demonstra porventura a estabilidade nesse caso?

 

Se atendermos pois ao peso, ao movimento, e a uma mesmo não grande força de torção, que nos habilita uma prova usual, como a que se fez, para nos dar plena segurança?

 

Quando a ponte tinha meia carga, o aumento na flecha pareceu excessivo, e o não corresponder a esse o aumento com a carga total, fez que se atribuísse ao calor do sol parte desta dilatação, o que confirma por a comparação desse aumento em diversas horas do dia. Concedido, de barato, que a ação solar tivesse tanta influência na experience, não era essa mais uma razão para que a prova se tivesse feito no inverno, em que, o calor solar sendo menos intenso, era a dilatação do ferro menos influida por essa causa estranha à experiência?

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Convém também que o público saiba bem o que vale uma prova destas, ainda quando feita com o maior escrúpulo. O tempo entra por muito nas condições de estabilidade, principalmente quando a oxidação ou outros agentes como a água podem operar mudança notável nos corpos de que depende essa estabilidade. Não vimos nós muro da cidade sobre o rio resistir por séculos a cheias, a terremotos, a projéteis de artilharia? que melhor prova de estabilidade do que as duas últimas cheias, principalmente a primeira, em que não só não sofreu aparentemente abalo, mostrado por fenda ou desaprumo, apesar do choque da corrente, e da tração produzida pelas amarrações de navios, as quais transmitiam ao ponto de apoio no muro a força com que a grande corrente os impelia? E no entanto algumas semanas depois desta grande prova de estabilidade, o muro desabou, sem o menor choque ou tração, e pôs em risco de desabarem algumas moradas de casas que sobre ele se apoiavam: e se nessa ocasião houvesse concorrência de povo a ele encostado, teriam havido muitas vítimas.

 

É este um objeto em que, para qualquer empresa, deve a boa fé estar acima de interesses mesquinhos. Diga-se o que vale a prova, o que é a prova; que, havendo cautelas em não passarem muitas pessoas juntas, e menos em passo certo; em não percorrerem juntos muitos transportes; e não se dando a circunstância de um vendaval; a ponte poderá considerar-se segura na atualidade: mas que essa segurança pode falhar por diferentes causas. E sendo a oxidação um dos piores inimigos da sua duração, porque se insiste em pintar de preto e não de branco os arames, quando esta cor é aconselhada por deixar melhor conhecer a ferrugem?

 

O engenheiro que dirigiu a experiência merece-nos muito conceito de amor pela ciência para que não se dê ao trabalho de esclarecer-nos e o público sobre estas dúvidas, a que chamamos a sua atenção, e a discussão das pessoas mais versadas nesta especialidade, ou que a professam.»

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1 - A ponte havia sido inaugurada dez anos antes, apressadamente por causa de uma cheia, no dia 17 de fevereiro de 1843.

2 - Presumo, sem certeza, ser João Pereira de Faria Mouzinho de Albuquerque Cotta-Falcão.

3 - Desastre terrível, que tivera lugar no ano anterior.

4 - No sentido de soldado do Infantaria.