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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

'A Prova Efetuada à Ponte Pênsil' - parte 2

02
Jan14

Continuação da transcrição do artigo editorial do jornal O Periódico dos Pobres no Porto, de 30 de março de 1853, desta vez ele próprio transcrevendo um artigo de outro periódico, O Jornal do Povo.

«PONTE PÊNSIL

 

Transcrevemos em seguida o curioso documento, pelo qual pode o público avaliar o bom estado e segurança da ponte pênsil, em resultado da prova e experiência a que esteve sujeita desde o dia 18 até ao dia 19.

 

Só nos resta acrescentar que o enchimento das 270 pipas com a água do rio, a carga da ponte, e as diferentes vistorias, que se lhe passaram, tudo foi efetuado com a maior publicidade possível.

 

Não era prudente, nem mesmo possível, franquear o trânsito da ponte a todo o povo, e até porque muitas pessoas receariam entrar nela sabendo que tinha em si por 24 horas a enorme carga de umas 15 mil arrobas, que a tanto montaria o peso das 270 pipas, e da água embebida na espessa massa da madeira que constitui o pavimento da ponte, em consequência da chuva que caíu na véspera, e no mesmo dia do principio da carga.

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a frágil elegância da ponte D. Maria II , encontra-se bem patente nesta imagem

 

A ponte esteve contudo franca a certo número de pessoas, que por turnos a puderam ir examinar, vendo se as pipas estavam cheias, e quantas eram. Os poços de atracação estiveram também patentes a quem os quis ir ver, e muitas pessoas lá concorreram a examiná-los.

 

Durante a experiência, a ponte nenhuma diferença ofereceu senão a necessária tenção proveniente da elasticidade dos arames, e produzida pela alternativa do maior ou menor frio da noite e do dia; pois que na força do calor do dia dilatou-se a curva coisa de um palmo; na observação da manhã notou-se que com a contração do frio da noite, tinha subido o mesmo palmo. No último dia da experiência, com o calor do meio dia tornou a descer o mesmo, e assim como se ia descarregando, assim a ponte ia subindo, até que chegou ao seu antigo estado!

 

Concluída que foi a prova e vistorias, o sr. Coelho de Almeida, agente da empresa, desejando mostrar aos tímidos e incrédulos, não só que as pipas estavam cheias, e bem cheias de água, mas também a confiança que tinha na segurança da ponte, subiu a uma carruagem que de antemão para ali mandara, e que próxima estava sem se saber a quem pertencia. O sr. Coelho de Almeida entrado pois na carruagem, teve o arrojo de a mandar rodar a trote pela ponte adiante. O rodar da carruagem e o movimento balouçado assim da ponte como das pipas, fez com que a água destas repuxasse pelos batoques a uma altura de 2 a 3 palmos, o que além da linda vista que oferecia, veio demonstrar o pleno enchimento das pipas, e a inteira confiança do sr. Coelho, que ao descer da carruagem, foi cumprimentado e congratulado por grande número de pessoas.

 

Àquele ato assistiu o exm.º sr. Barão de Valado Governador Civil Interino, administrador do concelho do 1.º bairro da cidade, e o de Vila Nova de Gaia, exmo. sr. intendente da Marinha, presidente da câmara da cidade e de Vila Nova, comandante de caçadores 9, presidente e secretário da Real Sociedade Humanitária, os dois arquitetos das câmaras municipais respetivas, e muitos cavalheiros das diferentes classes da sociedade que foram convidados.

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rampa de acesso à ponte (onde se encontra o carro de bois) e passagem pedonal (à dir.), que permitia de Cima do Muro e das Escadas do Codeçal aceder-lhe diretamente . como bónus, dá-nos esta imagem a possibilidade de vislumbrar, na extremidade direita, parte da muralha fernandina , entretanto desaparecida

 

Além desses, muito outro povo concorreu a desfrutar a bela vista que oferecia a ponte toda simetricamente embandeirada, caindo no todo dela a água das pipas sobre o Douro, ao mesmo passo que se lançava muito fogo no ar, e tocava a música de caçadores n.º 9.

 

O sr. engenheiro Bigot, a empresa, e o público, todos se devem ufanar com o resultado daquela experiência: o primeiro pela sua perícia e conhecimentos arquitetónicos demonstrados na segurança e excelente construção da ponte; a segunda por possuir esse útil estabelecimento; e o público em fim por gozar de uma pronta, segura, e não interrompida passagem no rio Douro, como é a que lhe oferece a ponte pênsil.»

 

(prossegue)