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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

'A Prova Efetuada à Ponte Pênsil' - parte 3

12
Jan14

Finalizamos esta, de outra forma extensa, publicação, apresentando os resultados da referida prova, também eles publicados pelo periódico que temos vindo a seguir. Creio, e apesar do seu caráter mais técnico, que se mantém um documento com elevado grau de interesse para a história desta ponte.

 

«RESULTADO DA PROVA DA PONTE PÊNSIL SOBRE O DOURO

Esta ponte, uma das mais belas obras de arte que temos no nosso país, e pode-se dizer a mais atrevida que entre nós se tem construído, tinha contra si a opinião pública, e chegava a ponto a prevenção, que havia indivíduos que nela receavam passar de carruagem. Felizmente todas estas prevenções se acham destruídas hoje, com a prova que teve lugar nos dias 18 e 19 do corrente; prova, com cujo resultado a ponte deu um desmentido formal a tudo quanto se dizia respeito da sua falta de estabilidade.

 

Encarregado pelo ministério das obras públicas do desempenho desta comissão delicada, cumpre-me informar o público do resultado das experiências a que procedi para verificar indubitavelmente o bom estado deste edificio.

 

A ponte pênsil tem de comprimento de pavimento suspenso 156,3m, e de largura 6,1, o que prefaz uma área de 936,35 metros quadrados. O máximo peso, a que uma construção destas tem de resistir, supõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este peso está calculado entre 195 a 200 kilogramos (429 a 440 arráteis) por metro quadrado de superfície. Partindo desta hipótese foi a ponte carregada com um peso de 184780 kilogramos (406:516 arráteis) pela maneira seguinte:

6 pipas pequenas de 17 almudes ... 3:294 k.
10 ditas grandes de 28 almudes ... 9:020 k.
254 ditas ordinárias de 21 almudes ... 172:466 k.
--------------------------------------------------------------
270 pipas                Total ... 184:780 k.

Deste peso dividido por 936, 35 metros quadrados, do pavimento suspenso da ponte, resulta uma carga de 197,3 kilogramos (434 arráteis) por metro quadrado.

 

Por dous motivos podia desabar este edifício na ocasião da prova; ou por fractura dos cabos de amarra, ou de suspensão (o que nunca temi) ou por desmoronamento dos poços de atracação. Este último modo de ruína dava-me bastante cuidado, e tanto mais quanto havia uns ditos vagos acerca de uma fenda observada na primeira prova, a que a ponte foi sujeita nos poços do norte, de construção sensivelmente mais fraca que os do sul.

 

Screenshot_1.jpg

 

Para poder verificar as alterações que a ponte sofria em consequência da carga, estabeleci duas miras nos pontos correspondentes à flecha da curva formada pelos cabos de suspensão, uma de cada lado da ponte: estas miras, com uma outra que estabeleci em um ponto fixo em terra, me davam com o auxílio de um nível de luneta, qualquer aumento ou diminuição na flecha; e por conseguinte todas as alterações porque passavam os cabos de suspensão. Para avaliar as dilatações dos cabos da amarra, apliquei a cada uma das faces dos quatro cilindros de dobramento nos poços um ponteiro que estando para o raio sobre que os cilindros tendiam a girar na razão de 11/43[?] marcavam em ponto mais sensível qualquer movimento devido a dilatação dos cabos.

 

Preparadas assim as cousas, começou a carregar-se às 7 horas da manhã do dia 18; e quando estava em meia carga aproximadamente, fez-se a primeira observação, e notou-se o seguinte:
Aumento da flecha ................. 0,39

 

Parecia-me grande este abatimento, mas refletindo que ao peso da carga se juntava a dilatação do ferro produzida pelo calor do sol; pois esta primeira observação era feita à meia hora da tarde, fiquei mais descansado.

 

Pela mesma ocasião, visitaram-se os cilindros, e os ponteiros nos poços do norte davam 0,008 e nos do sul 0,010. Continuou a operação da carga, e quando estava proximamente a dous terços procedi a segunda observação, eram duas horas e meia da tarde, e esta deu em resultado o seguinte:
Aumento da flecha ... 0,43
Ponteiros dos cilindros:
Nos poços do norte ... 0,011
Nos poços do sul ... 0,015

 

A flecha aumentando apenas 0,04, mostrou claramente que o primeiro aumento fora em grande parte devida [sic] à mudança de temperatura. Completou-se a carga eram quatro horas da tarde, e a observação feita a essa hora deu:

Aumento da flecha ... 0,47
Ponteiros dos cilindros:

Nos poços do norte ... 0,015

Nos poços do sul ... 0,020

 

Não me admira esta diferença, atendendo a que as amarras têm as do lado do sul 16,86m de comprimento enquanto as do norte só tem 10,82m e os poços do sul tem 14 m de altura, e os do norte 8m abaixo dos cilindros de dobramento, em que estavam fixos os ponteiros.

 

Fez-se uma quarta observação às 6 horas da tarde, a qual deu o seguinte:
Aumento da flecha .... 0,44


Isto é uma diminuição de 0,03 em relação à última observação; prova evidente de contração produzida pela diferença de temperatura no fim da tarde. Os ponteiros dos cilindros davam o mesmo.

 

Observações feitas no dia 19.

Ao nascer do sol - Aumento na flecha ... 0,10

Tinha havido durante a noite pelo resfriamento uma contração nos cabos de amarra que produziria uma diminuição de 0,34m na flecha. Os ponteiros dos cilindros conservaram-se inalteráveis até ao fim da prova.

Oito horas da manhã -  Aumento na flecha ... 1,12

Começaram já os cabos a dilatar-se.

Nove horas. - Aumento na flecha ... 0,20

Onze horas.- Aumento na flecha ... 0,21

Meio dia e meia hora. -  Aumento na flecha ... 0,27
Hora e meia. - Aumento na flecha ... 0,27

Screenshot_2.jpg

É de notar que o dia esteve bastante mais fresco que o antecedente. A estas horas já eu tinha dito ao sr. Coelho, delegado da empresa, que podia com toda a segurança consentir de duas até quinze pessoas passeando sobre a ponte, dando assim ao público um meio de poder verificar que as pipas estavam perfeitamente cheias de água e que a experiência era feita com a devida boa fé.


Às duas horas da tarde, tendo pedido licença ao sr. Governador Civil Interino, que se achava presente, mandei começar a descarga da ponte, que se fez por três vezes, fazendo-se observações a cada uma delas; e estas deram os seguintes resultados:
Ponte com dous terços de carga.

Aumento na flecha ... 0,17

Ponteiro dos cilindros:

Nos poços do norte ... 0,012

Nos poços do sul ... 0,017

 

Ponte com um terço de carga.

Aumento na flecha ... 0,03
Ponteiro dos cilindros:
Nos poços do norte ... 0,008
Nos poços do sul ... 0,007

Ponte sem carga.
Aumento na flecha ... 0,00
Ponteiro dos cilindros:
Nos poços do norte ... 0,000
Nos poços do sul ... 0,00

 

Confesso que ao ver este resultado fiquei admirado, e a não ser a certeza que tinha de ter feito as minhas observações com toda a exactidão, observações em que muito me coadjuvaram o sr. Parada, engenheiro construtor ao serviço da direção das obras públicas deste distrito e o sr. Oliveira, arquiteto da câmara de Vila Nova de Gaia, repito, confesso que duvidava da exatidão delas, pois que a ponte voltou perfeitamente ao seu estado primitivo.


Eis a narração fiel e circunstanciada que eu julguei de meu dever apresentar ao público. Agora só me resta agradecer ao sr. João Coelho de Almeida a boa vontade com que se prestou a todas as exigências minuciosas, que o meu dever me impunha, e a que ele jamais se recusou.

 

João Pereira Mouzinho
Porto 20 de Março de 1853»