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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Ramada Alta

15.02.19

Não procure hoje o caro leitor uma publicação nem longa, nem profunda. Um mero anúncio de venda de umas propriedades é o mote.

 

A cidade do Porto era até meados do século XIX bem mais rica em toponímia local e contar-se-ão certamente pelas dezenas os micro-topónimos que desapareceram quer do mapa quer da memória das pessoas. Ou pela mudança brusca de uma rua ou largo para albergar o nome de um qualquer doutor ou outra personagem notável, ou pela perca de importância desse local e a deslocalização dos seus moradores, passando ele a ser mera passagem de trânsito motor ou pedonal (veja-se o Sério). 

 

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i1 A Ramada Alta nos anos 70 do século passado. Em cima pode ver-se a capela, quase uma ilha, e que ainda subsiste (é realmente um milagre como o tão progressivo Porto não lhe deu o mesmo destino da sua congénere da praça dos Poveiros ou a da praça da Batalha!). Os edifício assinalados com A fazem a ponte para a imagem de baixo, cuja flecha pretende indicar um conjunto de casas à entrada da rua 9 de Julho com um aspeto ainda bastante rural (quem sabe eventualmente relacionadas com o anúncio que aqui se pode ler).

 

 

Mas um que ainda subsiste (até quando?) é o da Ramada Alta. Sem dúvida distante da cidade até às primeiras décadas do século XIX, ver-se-á aglutinado pelo crescer do Porto, que cada vez mais absorve população minhota em busca de uma vida melhor (e que depois de um longo dia debaixo do teto das centenas de fábricas industriais, lojas de comércio, etc; careciam de um teto para passar a noite).

 

Ora o singelo anúncio que vos trago remonta a 1838, época em que por ali ainda abundavam as ramadas em várias casas de lavoura, das quais talvez alguns restos ainda hoje se vejam. E trago-o para aqui pois aparentemente ele se refere à propriedade fundadora daquele micro-topónimo. Senão vejam:

 

«Quem quizer comprar uma boa propriedade de casas, com sua quinta morada, boa agoa da nora, e arvores de fructo, sitas na ramada Alta incluida a mesma ramada, na rua denominada hoje 9 de julho, e com os numeros 1 a 4. Assim como um quintal dividido em tres grandes sucalcos, e com um grande poço e arvores tudo morado; o qual fica em frente da casa acima e estrada real. Assim como cinco moradas de casas terreas unidas umas ás outras com seus quintaes sitas na rua da Bouça ou largo da Ramada Alta, pegadas no dito quintal acima com os numeros 1, 2, 3, 4 e 9[?]. Assim como seis moradas de casas terreas com seus quintaes e uma bouça e grande pedreira na rua da Falperra hoje denominada 9 de Julho tudo em frente da estrada real com os numeros 92 a 97. Falle no largo do Paço da Marqueza numero 127.»

De: A Vedeta da Liberdade de 15 de maio de 1838 (o sublinhado é meu).

 

Serp.png

i2 A área da Ramada Alta nos anos 50 do século XIX. Assinalada está a capela (à esq.) e com as letras ABCD a futura rua de Serpa Pinto. Não nos mostra as casas da fotografia dos anos 70, mas mostra-nos de uma forma efetiva a tortuosidade dos caminhos rurais que ainda por ali existiam.

 

E cá está, caríssimos leitores, como um singelo anúncio ainda que não conclusivo quanto à localização GPS da verdadeira, a única, a singular Ramada Alta, nos transporta eventualmente para perto da data de criação daquele nome.

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