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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

A rua dos Banhos ou a Pompeia portuense

21
Dez13

Hoje, caros leitores, trago-vos novamente um texto esquecido nas páginas de jornais oitocentistas. Apresento-o polido da sua ortografia original e acompanhado com uma imagem da rua em causa (ou melhor, do seu espaço...), não que os meus caríssimos leitores necessitassem de tal para saberem onde se situava tão ilustre arruamento!

 

E aproveito para expressar uma ideia minha (note-se, é apenas uma ideia pessoal): estou convencido que foi sobretudo na área portuária de Lisboa e em menor medida na do Porto, que o Fado terá nascido. Esta música, agora dita nacional, não seria na sua génese mais do que uma canção de marinheiros e prostitutas, que nos lupanares desabafavam as suas tristes vidas. Acompanhadas primeiramente pelas violas[1], foram posteriormente, quando a guitarra inglesa caiu em desuso nas gentes aristocráticas, acompanhados pela guitarra agora dita portuguesa. E, seguindo ainda esta minha ideia, nada me custa imaginar que foi na rua dos Banhos que o Fado teve no Porto o seu expoente máximo da decadência.

 

Mas eis o texto:

«A mão do progresso, passando por cima das velharias clássicas, vai transformando por toda a parte em sítios arejados e limpos, becos imundos e abafadiços, que serviam de cómoda habitação para nossos pais, mas onde as gerações modernas acabariam infalivelmente por asfixiar-se. O Porto antigo era uma cidade de becos tortuosos, de vielas imundas. Mas o nível da civilização, invadindo tudo, derribou, alargou, aperfeiçoou, e dentro de poucos anos, a continuar este afã, só de nome se conhecerão as velhas ruas, sepultadas hoje sob as fileiras de elegantes edificações.

 

A rua dos Banhos é uma daquelas de que já não resta o menor traço. Pois não era das de menos importância da cidade; era até das de maior ruído de outros tempos. Ruído na verdadeira acepção da palavra. Ali, a dous passos dela, sob a abóbada daquele arco, aberto na muralha da cidade, e coroado de uma cousa que mereceu aos nossos bisavós o nome de forte, apinhavam-se os barqueiros, que em todos os tons da escala da apoquentação humana, martirizavam os viandantes perguntando-lhes se queriam ir para além. Os caleches, procedentes da Foz, giravam saltando por cima do mal calçado pavimento da rua, com grave incómodo para os membros dos que iam dentro e flagrante ofensa dos ouvidos dos que passavam fora. E como se isto não fosse tudo, moravam por ali uns tanoeiros, que martelavam todo o santo dia, pondo em água as cabeças do respeitável público. Era pois uma rua de muito ruído a dos Banhos.

ban.png

nesta preciosa foto da época da abertura da rua Nova da Alfândega, vemos assinalado com o n.º 1 o trajeto da antiga rua dos Banhos. A rua era uma das entradas da cidade antiga e terminava num pequeno largo onde entroncava com a rua de S. Nicolau (n.º 2) e a rua da Reboleira, para além de algumas vielas secundárias. O n.º 3 assinala a parte desaparecida da rua de S. Francisco.

 

De dia era isto; mas de noite mudava muito de figura. Então a rua dos Banhos tomava um certo caráter poético, que era exatamente o contrário do que se passava de dia. De dia era o afã do negócio; de noite a avidez do prazer!

 

O botequim do Pepino será para sempre memorável nos anais do Porto. Muitas desordens ali houve! Muitos descantes acordaram os ecos solitários do rio Douro! Muitos fadistas de banza[2] debaixo do braço saíram dali para o Carmo, não sem terem em antes experimentando forças com a patrulha municipal! Aquela casa era frequentada principalmente por tripulantes dos navios ingleses, que vinham abastecer a cidade de bacalhau; e aqueles que assim tinham tanto cuidado em que não morrêssemos à fome, não se inquietavam por que viéssemos a morrer à sede, e arrecadavam à farta nos seus impermeáveis estômagos o nosso rico Port-wine. Assim, no relógio do Pepino, cada minuto marcava uma bebedeira, que, principiando ali, ia completar-se em alguma das tabernas dos Banhos.

 

Eram imundíssimas aquelas pocilgas da prostituição e da crápula; mas os nossos fiéis aliados, depois de aboborados os cascos, não achavam prazer acima do de dançarem algumas horas abraçados àquelas ninfas avinhadas, ou regougarem algumas modas da sua terra ao som da guitarra, tangida por ladino filho da Entruja. Por fim de muito tumultuar, esta orgia tinha sempre dous modos de findar: Se o guitarrista dava leves indícios de ciúmes, porque alguma das ninfas parecesse simpatizar com o roast-biff, a banza não tardava a voar pelos ares feita em cavacos, e às delicias de Orféu sucediam as do soco inglês, distribuido pelos pulsos afeitos a ferrar o joanete. Então as deusas, transformadas em Euménides, de olhar irado, faces rubras e cabelos em desalinho, faziam ouvir uns gritos roufenhos, que acordavam a guarda, que, muito de propósito para prevenir dissabores, estacionava no chamado forte, que, para ser tudo, até no século passado tinha o seu comandante sem soldados naturalmente[3], e lá ia toda a súcia dormir ao Carmo. E a dormir acabava invariavelmente a função, porque de outro modo, quando entre os folgazãos não era perturbada a doce paz, Morfeu encarregava-se de pôr termo à festa, e dentro de poucas horas ressonavam estendidos uns por cima dos outros ninfas, marujos e fadistas. Era este o espetáculo de todas as noites, sem que o cartaz variasse sequer, de um dia para o outro, os nomes dos atores.

 

E muitas vezes aqueles tenebrosos sítios tornavam-se focos de tremendas conspirações contra as vidas dos filhos de Albion, que por fim eram sempre o bode expiatório das vistas cobiçosas dos colegas da orgia. E não raro o que principiava em simples comédia acabava em pura tragédia. Até se dizia que no Pepino se matavam ingleses, se roubavam e se arremessavam os cadáveres ao rio. Esta reputação tétrica, além do que fica dito, dava grande importância ao botequim  e às suas irmãs gemeas, as tabernas dos Banhos.

 

Se o leitor já está convencido de que a rua dos Banhos era uma das de mais ruído do Porto (eu refiro-me aos leitores que não conheceram aquela rua) resta-me convida-los a ir ao sítio em que ela se ostentou outrora, orgulhosa nos seus vícios, soberana na sua imundice, despótica na ralé dos seus frequentadores; convida-os a ir ali escutar os seus ecos, que já não trazem o mínimo rumor de tanta vida, e dirão, passados de surpresa:

- Pois será possível?

 

Era exatamente o que eu diria se não tivesse conhecido a rua dos Banhos tão bem como as minhas mãos. Isto tem uma explicação: é que a rua dos Banhos teve a sorte das grandes povoações, a sorte de Pompeia e Herculano, de Cartago e de Babilónia. Onde houve outrora uma vida ativa, é hoje o nada. Por cima de uma população tão inquieta, paira agora o deserto.[4]

 

Até nisto foi grande a rua dos Banho!»

Excerto do primeiro capítulo de um romance publicado no Archivo Popular, em 1873.

Autor: António Augusto Leal.

 

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1 - o verdadeiro instrumento nacional!

2 - Banza não se refere à guitarra portuguesa, instrumento que normalmente se associa ao fado, mas sim à viola popular de 5 pares de cordas, instrumento popular português que no distrito do Porto sobrevive ainda com o nome de viola amarantina. Este era o instrumento originalmente utilizado para acompanhar a, agora, canção nacional.

3- «Em 19 de Janeiro de 1719 foi nomeado pela câmara comandante do forte da Porta Nova (ou Nobre) o capitão Diogo de Andrade Gramacho. É histórico». (Nota do autor)

2 - Depreendo que este deserto se refira a todo aquele bairro estar já sem casario mas ainda com o empedrado das ruas à mostra, à espera de ser soterrado, uma vez que este texto foi publicado no exato ano em que as primeiras casas da rua Nova da Alfândega começaram a ser construídas, por cima da rua dos Banhos.