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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

A Torre da Marca

por Nuno Cruz, em 25.07.17

Saberão todos os portuenses que se interessam pela história da sua cidade que existiu no local onde esteve o também já desaparecido Palácio de Cristal, uma estrutura alta fazendo lembrar uma torre que balizava a entrada da barra do Douro, arrasada durante o cerco do Porto. Esta estrutura foi erigida em 1542 em substituição de um pinheiro colossal que se encontrava no mesmo local e que servia de guia para a entrada dos navios na dífícil barra duriense; árvore essa que fora «estonado per o pee» em 1533. E se num primeiro momento se deliberou fazer em roda dele «hua boa parede e se enchesse dentro de terra ... que se seguraria»; a verdade é que essa solução se revelou de vida curta pois em 1535 o pinheiro havia estalado. A cidade recorre ao rei para resolução da situação tendo este respondido no ano seguinte. Contudo só em 1537 foi o caso tratado pela direção camarária (entretanto o pinheiro já havia secado). Depois de algumas diligências junto da corte a nova baliza de pedra que ficou conhecida como Torre da Marca foi erigida, no ano já referido.

 

Felizmente ficaram-nos algumas representações deste marca que nos possibilita ter uma ideia de como seria o seu aspeto. Através delas podemos verificar que a estrutura era de uma altura respeitável dada a necessidade de ter de ser vista desde muito longe e construída de uma forma robusta, tão robusta que lhe possibilitou atingir 300 anos de existência, só abreviada por fatores externos à sua solidez. A vista mais antiga que se conhece onde ela figura é a elaborada por Baldi em 1668/69, passando pela belissima e fotográfica imagem de Maldonado de 1791, entre outras. A que aqui apresento (i1) foi impressa em 1829, escassos 5 anos antes da sua destruição (no sopé do monte vemos Massarelos e o seu cais).

 

1829domontedaarrabida.jpg

 i1

 

Creio que a gravura que melhor descreve a Torre da Marca foi elaborada por Marques de Aguilar e impressa em 1793 (i2). Mostra-nos a entrada de uma esquadra na barra do Douro, sendo visíveis a igreja paroquial de S. João da Foz (ao tempo um templo beneditino), o forte e o farol (mandado construir por um bispo de Viseu no século XVI). A imagem é curiosa pois faz parecer ao observador casual que a torre ficava do lado de Gaia. Isso mesmo me aconteceu num primeiro momento; e lendo posteriormente o artigo d' O Tripeiro de Maio de 1964 onde B. Xavier Coutinho é da mesma opinião, segui com a minha convicção reforçada. Chegava aquele autor à conclusão que teriam existido na verdade duas torres e não uma, estando a que se vê na imagem colocada no Castelo de Gaia.

 

aguilar.jpg

i2

 

Contudo, analisando melhor a gravura verifica-se que na realidade se trata da margem portuense. É uma questão de perspetiva que leva a que o monte do Candal ou do Cavaquinho, onde agora temos a Ponte da Arrábida, se apresente muito proeminente em relação ao local da tomada do desenho. Se o leitor ainda em dúvida se deslocar aos recentemente restaurados Jardins do Palácio de Cristal e subir à pequena torre que lá existe ou se posicionar a uma cota mais elevada nas proximidades - área onde existiu a Torre da Marca - constatará este facto.

 

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I3 Jardins do palácio de Cristal com o local aprox. onde existiu a Torre da Marca assinalado por um T; 2 - Igreja paroquial de S. João da Foz; o circulo vermelho circunda a eminência do monte do Candal (imagem do googlemaps).

 

Em 1838 uma outra gravura surgiu em Inglaterra, trabalho de J. Holland. Negra e triste, o que ali vemos já não é a Torre da Marca mas sim um amontoado de pedras espalhadas pelo chão, esboroadas pelos obuzes miguelistas na tentativa de silenciar a bateria da tropa afeta a D. Pedro IV, colocada naquele ponto estratégico. Assim, o que ela representa é o resultado fatal como o destino e nada profético de toda e qualquer guerra: destruição!

 

holland.jpg

I4

 

Mas, se é verdade que a Torre da Marca do Porto há muito desapareceu, não longe daqui podemos ainda hoje admirar uma estrutura semelhante em função e estilo. Trata-se de uma construção situadas em Vila do Conde na freguesia de Árvore, que conjuntamente com outros pontos de referência apontavam a entrada da barra do Ave. Não sendo tão imponente, permite ainda assim dar uma ideia do aspeto da congénere portuense. Também esta se encontra num local altaneiro, no cimo de um outeiro à face da E.N. 13, e terá sido construída no séc. XVI (ver mais aqui).

 

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I5 Nestas três fotos podemos ver a "Torre da Marca" de Vila do Conde. É bem visível a sua construção em alvenaria de granito e no topo ao centro o local onde seria colocado o facho (imagens do autor).

 

Quanto à "nossa" Torre da Marca, é realmente lamentável esta estrutura não ter perdurado até aos nossos dias pois seria com certeza um ex libris dos jardins do "Palácio", um ponto de atração turística e cultural, desempenhando uma função útil ainda que não utilitária. Foi vítima (mais uma!) da guerra dos manos e dela só nos ficaram uma mão cheia de referências iconográficas e pouco mais.

 

 

Aditamento: A Marca Nova

Mas de longe podemos pensar que esta marca foi única. Entre outros sinais estáticos e pouco conhecida, uma outra marca existiu - a Marca Nova - localizada não longe da capela de Santa Catarina, em Sobreiras. Visível na ilustração Entrance of the Douro de 1833 (ano da destruição da torre da Marca) e com a designação de Bar Mark. Surge ela também no Plano hidrográfico da Barra do Porto de 1861/62 (ver I6).

 

1861.JPG

I6

 

Esta estrutura era, segundo Sousa Reis, de silhueta idêntica à Torre da Marca. Se bem que o autor menciona duas estruturas similares(!): «...duas torres ou simples paredes com três ameias cada uma, existentes ainda no lugar de Sobreiras, uma está dentro da quinta de Carlos Joaquim de Azevedo Vareta que a ela encostou a casa da sua vivenda, a outra permanece em terrenos pertencentes à família nobre desta cidade Freitas Meneses e Vasconcelos». Informando também que a capela de Santa Catarina também servia de baliza. Quando descreve a Torre da Marca que vimos atrás, diz o mesmo autor que ela «vinha a ser, como as duas que se vêm em Sobreiras, mais alta que larga, diferindo delas em ter no centro rasgada uma altíssima e estreita fresta superiormente acabada em semicíruclo que a vazava de lado a lado...»; pelo que se depreende que as outras seriam de parede completamente lisa. Na i7 coloco um pormenor do esquema de entrada da barra do Douro de 1833, onde podemos ver uma dessas marcas (terá a outra realmente existido?).

 

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i7

 

Não nos admiremos com o arvoredo que aparentemente vemos na i6 em volta daquela baliza: em 1842 o Intendente da Marinha expediu outros oficios do piloto-mor que solicitava providências sobre uns pinheiros existentes no terreno de uma senhora viúva, que encobriam a Marca Nova e a capela de Santa Catarina... Curiosamente, na i8, também ela um pormenor do esquema de onde se retirou a i7, vemos a zona aparentemente limpa de arvoredo.

 

dom.JPG

i8



Atualmente, talvez por desnecessária ou obsoleta, mesmo essa marca já não existe. Aliás, o local está completamente modificado em face ao aspeto que apresentava até meados do século XX e completamente urbanizado. Mas mais uma vez, podemos recorrer a Vila do Conde para verificarmos a existência de uma estrutura similar, assente num pequeno pinhal adjacente ao parque de campismo de Árvore, na rua do Gaiato; é essa estrutura que apresento na i9.

 

DSC_0869.jpg

 

F I M

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Bibliografia:

Apontamentos para a história da cidade do Porto, de J. M. P. Pinto, publicado pela Tipografia Comercial (1869).

Barcos e gentes do mar do Porto (séc. XIV-XVI), de Amândio Jorge Morais Barros, publicado no n.º 14 da revista da Faculdade de Letras: História (1997).

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