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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Ainda a planta da cidade de 1892

11.04.20

Já por duas vezes aqui abordei a Carta Topográfica da Cidade do Porto de 1892, um grande projeto que foi levado a cabo durante cerca de 15 anos (ver aqui e aqui) por um capitão do exército e engenheiro militar que passou à história empírica pelos apelidos do seu nome: Teles Ferreira. Desta vez, e possivelmente fechando o assunto Carta Topográfica, trago-vos o relatório por ele mesmo lavrado em 30 de março de 1892, aquando da conclusão do seu trabalho e que fala por si próprio.

Mas, antes de vos entregar o manuscrito, convêm falar de quem a história não fala... É que, por detrás de um grande nome, há muitas vezes vários pequenos nomes cujo trabalho e esforço muito concorreram para os louros do seu mentor. E se na carta surge o nome do seu principal ajudante, Fernando da Costa Maia, o próprio Teles Ferreira se refere a outros três que o ajudaram na persecução de seu trabalho: Manuel Pereira da Costa, José Batista Figueiredo e Moisés Augusto. Três augustos anónimos que complementaram o trabalho do grande Augusto, o capitão Augusto Gerardo Teles Ferreira!

 

*

«Tenho a satisfação de comunicar a V. Exa. que se acha concluída a planimetria da planta da cidade do Porto na escala de 1:500, da qual fui incumbido por ordem da Exma Câmara cujo trabalho comecei em janeiro de 1878, faltando apenas algumas retificações a que estou procedendo, para referir a mesma planta ao ano de 1892, e bem assim o nivelamento, trabalho que já teria começado se a isso não tivesse obstado o rigoroso inverno.

 

Conjuntamente com este trabalho, reduzi duas cartas, uma cadastral, na escala de 1:2500, e outra de gabinete na escala de 1:5000, às quais aumentei a margem sul do rio, cartas que tenho a honra de enviar a V. Exa. a fim de serem presentes à Exma. Câmara na sua sessão plenária.

 

Estas duas cartas são o complemento da planta geral, e portanto de uma necessidade incontestável e que a Exma. Câmara teria de mandar executar, logo que se concluísse a planta na escala de 1:1500 foram executadas conjuntamente com aquela, aproveitando as minhas horas vagas e os dias em que o rigor do inverno não permitia trabalhos de campo; desta maneira julgo ter correspondido à confiança que a Exma. Câmara em mim depositou, fazendo que esse trabalho acompanhasse o levantamento, evitando assim uma despesa de dois a três contos de reis, que vai de certo diminuir o custo do levantamento da planta geral de que só fui encarregado.

 

Permita-me V. Exa.e a Exma. Câmara que chame a esclarecida atenção de V. Exa. sobre estas duas cartas, e ainda sobre um outro ponto importante destes trabalhos.

 

A carta cadastral na escala de 1:2500 tem a vantagem de, pela sua escala, se poder lançar nela o nivelamento, curvas de nível, divisão de folhas, de freguesias, enfim tudo quanto seja necessário apreciar conjuntamente o que se não poderia fazer na planta geral, pela sua grandeza, nem na carta de gabinete que, pela pequena escala, a tornava confusa.

 

Igualmente serve para se poder melhor apreciar os novos estudos de ruas que forçosamente se hão de abrir nas freguesias anexadas, depois de concluída a nova estrada de circunvalação, é enfim uma perfeita carta cadastral com a propriedade total dividida, sobre a qual se poderá fazer uma perfeita matriz predial, sem os erros e contestações provenientes das más e incorretas medições que geralmente se praticam nestes trabalhos, provenientes da insuficiência de quem os executa, e da falta de uma boa carta.

 

Que grande serviço prestaria ao município do Porto a Exma. vereação que levasse a efeito esse trabalho, com o qual pouco mais despenderia, e que se poderia executar em um ano aproximadamente? E se ela se efetuasse que papel importante representaria esta carta, e quanto neste caso atenuaria o preço do levantamento da planta geral?

 

A carta na escala de 1:5000 é uma excelente carta de gabinete que a Exma. Câmara não deve hesitar em mandar gravar, não só para uso das suas repartições, como bombeiros, polícia, junta de obras, etc,. como das outras repartições públicas, polícia, governo civil, juntas de paróquia, escolas, quartel-general, etc., etc.

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cabeçalho da Carto-índice da planta da cidade do Porto de 1892, disponível AQUI.

 

O Porto, a cidade das tradições fidalgas, cujo adiantamento é incontestável, já pela sua área de 4:000 hectares, já pelo desenvolvimento da população, e de todos os ramos de ciência, comércio e indústria, que de dia a dia aumenta, não quererá de certo ficar aquém de outras cidades estrangeiras, de muito menos importância, onde o viajante encontra cartas que o guiam por toda a parte.

 

Não será pois agora que a Exma. Câmara fez o sacrifício de despender 40.000$000 no levantamento da sua carta,que deixe de tirar todo o proveito dela, dotando a cidade com uma boa carta de gabinete, e dando ao viajante um guia seguro, que o encaminhará numa cidade tão acidentada e de topografia irregular. É finalmente necessário que o Porto se faça representar pela sua carta nos diversos países onde vá mostrar a sua área, e aumento da sua civilização, e da atividade de seus filhos.

 

O custo da gravura será. segundo uma proposta apresentada à Exma. Câmara pelos gravadores da comissão dos trabalhos geodésicos, para tiragem de 1:500 exemplares, de 5.000$000 reis. Se esta verba, à primeira vista, parece excessiva, V. Ex.ª deve contar com a venda desses exemplares para as repartições públicas, para o público, e finalmente encontrará uma venda rápida no Brasil, onde a maioria da nossa colónia é filha das províncias do norte, que de certo adquire com prazer a planta do Porto, onde lerá mil recordações da pátria, sempre tão grata aos expatriados.

 

Se a Ex.ma Câmara não se resolver pela proposta apresentada, pode então abrir concurso, e é possível que apareça quem com outras vantagens execute esse trabalho, mais barato; posto que no país só são reconhecidos de merecimento neste género de trabalho, os proponentes, por ser a sua especialidade a gravura em pedra.

 

Depois de concluída a planta geral, e depois de gravada a carta de gabinete, ainda resta muito a fazer, visto que a Exma. Câmara possui hoje uma carta em tão grande escala.

 

Não apontarei Paris, ou as grandes cidades onde as repartições das plantas das cidades são verdadeiras repartições, com um pessoal técnico numeroso; apontarei apenas Lisboa, com quem mais diretamente se deve comparar o Porto, que gasta todos os anos em melhoramentos e retificação da sua carta 5.000$000 reis.

 

A carta do Porto vai referida ao ano de 1892, mas nunca uma carta está completa, dia a dia vai sofrendo alterações, que é necessário retificar, pois não sendo assim, no fim de alguns anos é quase um trabalho novo.

 

Ora o desenvolvimento da cidade, depois de concluída a estrada da circunvalação, deve ser importante nas freguesias anexadas - além do que esta aumenta todos os dias em novas construções.

 

Há ainda cópias a tirar para conservação dos originais, o estudo da planta subterrânea da cidade, para se conhecerem os diversos encanamentos do município e particulares, e por fim para o cadastro, se se intentar fazer um dia.

 

Para todos estes trabalhos precisava Exma. Câmara de um pessoal habilitado para o desempenhar, mas não sendo possível fazê-lo nas atuais circunstâncias, e sendo isso de maior dispêndio, novamente insisto com a Exma. Câmara para que sejam nomeados com qualquer classificação, e no serviço exclusivo da planta da cidade, os atuais empregados que tem confecionado o levantamento dela, e que sendo habilíssimos, são os únicos que conhecem toda a cidade, a marcha e boa ordem de todo o serviço.

 

Os empregados em questão, e que contam de 12 a 13 anos de serviço são Manuel Pereira da Costa, e José Batista Figueiredo, vencendo 700 reis diários, e Moisés Augusto que vence 500 reis, em dias úteis.

 

Mas se a pequena despesa que a Exma. Câmara vai fazer com estes empregados para a conservação da planta for ainda sobrecarregar o município, em ocasião tão crítica lembro a V. Exa. que a própria planta pode dar receita para atenuar essa despesa, obrigando a Exma. Câmara, por diminuto preço, que as plantas que lhe forem apresentadas sejam cópias da sua planta geral e facilitando igualmente cópias, para uso dos particulares: desta determinação nascerá uma razoável receita.

 

Debaixo da inteligentíssima direção do Exma. engenheiro da Câmara, estes empregados, não só farão as cópias e retificações precisas, conservando a planta sempre em dia, mas também a pouco e pouco irão fazendo os outros trabalhos que indiquei, conseguindo a Exma. Câmara, no fim de alguns anos, e com pouco dispêndio, obter trabalhos que lhe seriam depois dispendiosíssimos.

 

Quanto a mim, bem compensado ficarei se pelos esforços que empreguei nestes trabalhos, bem merecer da Exma. Câmara»

*

 

Pela minha parte, em 2020, só posso questionar à Comissão de Toponímia o que espera para dar a uma rua o nome deste ilustre cidadão?

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