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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Alexandre Herculano: um homem de carácter

13
Mai16

Este blogue não entra muito no tema da política ou da biografia, não é essa a sua intenção nem sequer um desejo subjacente à sua ideia. Quantos nomes há, espalhados por ruas desta e de outras cidades, cuja sua ligação ao passado os vestem de uma aura de santidade mas que foram na sua época tão movidos pela sede do poder e dinheiro como os de agora (e acreditem, muitos dos de agora vão estar em 2116 convertidos com aura de santidade também...).

 

Ainda assim, uma pessoa há que gostava de salientar dos demais, de seu nome Alexandre Herculano de Carvalho Araújo. Um ser que se distinguiu da maioria das figuras de proa do seu tempo, tendo um papel (aparentemente) secundário na vida do país. Mas não duvidemos: contribuiu para a sua estabilidade após a guerra dos irmãos, da guerra patulaica e outras ocorrências onde em nome do povo alguns flautista de Heimlich, tocaram a mesma música que há muito se canta ainda...

 

Aquando da guerra civil de 1832-1834, Alexandre Herculano foi colocado como 2º bibliotecário na então recém criada Biblioteca Pública Municipal do Porto. E foi nesta mesma biblioteca que há dias vim a "descobrir" no Periódico dos Pobre no Porto estes muito interessantes documentos que reproduzo abaixo (lembro que para este episódio temos de ter em conta que semanas antes se havida dado um golpe, ficando conhecido como a Revolução de Setembro). Dias depois, era Alexandre Herculano dispensado do seu lugar, englobado numa cornucópia de exonerações dos indivíduos que não serviam aos interesses da fação ora instalada.


Foi precisamente contra esta revolução que Herculano se estreou na literatura com A Voz do Profeta e o próprio regime que o afastara, anos mais tarde voltou a chama-lo, desta vez para redator do Diário do Governo. Foi também maçon, mas cedo abandonou essa agremiação, quem sabe por se querer manter totalmente isento e livre(?).


Mas, mesmo que nos bastidores, qual será a sua implicação na Regeneração como conselheiro do rei consorte D. Fernando e subsequente estabilização do país? Certo é que nos últimos dez anos da sua vida (faleceu em 1877) se retirou para a sua propriedade de Vale de Lobos, para a tranquilidade de uma quase vida monástica, como produtor de azeite, mantendo até ao fim uma autoridade moral inigualável.

Screenshot_2.jpg

Alexandre Herculano no final da sua vida ou Alexandre Herculano, o lavrador


Vejamos então o que se encontra publicado no periódico:

 

«Pede-se-nos que publiquemos na nossa folha os documentos seguintes:

Exmo.º Sr. Manuel da Silva Passos.
Há um mês que o 1.º Bibliotecário da Biblioteca Pública desta cidade e eu fomos convocados para prestar juramento à Constituição de 1822, que então e hoje, de futuro alterada, felizmente nos regia e rege. Ambos recusamos praticar este ato: procedimento a que, pela minha parte, me levaram as razões que V. Ex.ª verá da resposta que dei, e que remeto inclusa. Foi logo demitido o meu colega, e eu ainda aqui estou esquecido. Não atribuo isto a falta de equidade de V. Ex.ª, porque reconheço a retidão da sua alma e que nem ódio nem afeição seriam capazes de torcer os principios de V. Ex.ª, antes o lanço à conta dos muitos cuidados e negócio que cercam V. Ex.ª no alto cargo em que o colocou o voto unânime da nação e a livre escolha de S. M. a Rainha. Só da minha insignificância me dôo, que fez não ser eu lembrado de V. Ex., que a tantos com mão profusa tem liberalisado a honra da demissão.
Não creia V. Ex.ª, que por este modo a peço: porque nem uma demissão pediria ao governo atual: esta minha carta é apenas um memorandum que levo à presença de V. Ex.ª, como se eu fosse alheio ao caso; porém não indiferente à boa fama e glória de V. Ex.ª.
A Providência não se esqueça de V. Ex.ª nem de nós, como todos precisamos para que Portugal seja salvo.

Porto 19 de Outubro de 1836. = Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo

 

Seguem-se apresentados os documentos que provocaram esta reacção, de fina ironia, de A.H.:

« Illm.º Sr. = Tendo S. M. a Rainha determinado que a Câmara e mais autoridades e empregados jurem a Constituição de 1822, assim o faço saber a V. S.ª para que hoje, ao meio dia, venha ao Paço do Concelho prestar o mesmo juramento, e deferi-lo depois aos empregados dessa repartição. Deus guarde a V. S.ª

Porto 17 de Setembro de 1836 = Illmo.º Sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo = Manuel Pereira Guimarães, Presidente.»

 

Ao que Herculano respondeu:

«Ilm.º Sr. - Persuadido pela voz da íntima consciência de que não devo prestar o juramento para que V. S.ª me convida no seu oficio de hoje, julguei também que cumpria comunicar-lhe imediatamente a minha resolução.
A fé que prometi guardar à Carta Constitucional da Monarquia, selei-a com as misérias do desterro, e com os padecimentos e perigos de soldado, os quais passei na emancipação da pátria: para a conservação de um cargo público eu não sacrificarei, por tanto, nem a religião do juramento, nem o orgulho que me inspiram as minhas ações passadas.
Pode assim V. S.ª declarar a essa Ilm.ª Camara que o meu lugar de 2º Bibliotecario está vago, para que ela proponha ao governo atual outra qualquer pessoa, que por certo, melhor do que eu, desempenhará as obrigações a ele anexas. Deus guarde a V. S.ª Porto 17 de Setembro de 1836. - Illm.º Sr. Manoel Pereira Guimarães. = Alexandre Herculano de Carvalho

 

Aqui está, espraiada em palavras, a nobreza de carácter que este homem possuía. E o Porto, como tem tratado da casa onde ele viveu enquanto por aqui permaneceu? Bem, da maneira que abaixo vemos...

sebast.jpg

casa na Travessa de S. Sebastião em que viveu Alexandre Herculano . esta artéria denominou-se Viela dos Gatos até 1 de julho de 1874 (e claro, assim se chamava quando Herculano ali viveu) .  para uma imagem desta casa, ainda habitada, ver AQUI