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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Alves dos Reis e o Porto

05
Dez20

O que tem este conhecido nome a ver com o Porto? Bem, a título pessoal, no normal desenrolar da sua vida, possivelmente nada.[1] De facto, Alves dos Reis, ou melhor, Alves Reis (AR), seu verdadeiro nome,[2] não era do Porto nem nele morava. No entanto, esta cidade comercial e burguesa desempenhou papel importante na descoberta do seu ardil, em 5 de dezembro de 1925, faz hoje precisamente 95 anos!

 

AR, que fora para Angola com um emprego obtido à custa de um falso diploma de engenheiro, acabou preso por passar cheques sem cobertura, cumprindo cerca de 50 dias de prisão, entre julho e agosto de 1924, na cadeia da Relação do Porto. Foi aqui que, com tempo para pensar e ambição de vencer, terá começado a elaborar o plano que o celebrizou e que veio a culminar na duplicação de um grande volume de notas de 500 escudos. Facilitou tal embuste o facto de naquela época as notas do Banco de Portugal (BdP) serem produzidas no estrangeiro, por se encontrarem as suas máquinas avariadas. Há que reconhecer que foi um plano arriscado, elaborado, e que só poderia ter sido perseguido e executado por uma mente brilhante.[3]

 

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Imagens da revista Ilustração de janeiro de 1926. Com o nº 1, a filial do Angola e Metrópole no Porto, com o n.º 2 a casa de câmbio e com o n.º 3 o largo de S. Domingos, mostrando a enorme fila de pessoas que se dirigiram ao BdP a trocar os vascos

 

A primeira remessa de notas chega a Lisboa em fevereiro e março de 1925. De pronto foi organizada uma rede de agentes para trocá-las por moeda estrangeira; rede essa que operou com realce no norte do país, sobretudo na cidade do Porto. E isto tem uma explicação: existia aqui um mercado paralelo de troca de moeda estrangeira em franca atividade, motivado pelo comércio do vinho do Porto bem como pela presença de uma grande comunidade inglesa a ele afeto. Assim, foram contratados vários especialistas nestes câmbios - os zangões - que trocavam as notas de 500, sem discutir o preço. Por mais de meio ano tudo corre bem e AR pode levar uma vida faustosa com a sua esposa, bem como os seus associados. Consegue nova remessa de notas, que começa a chegar a Portugal em outubro de 1925, mês em que embarca para Angola a tratar de negócios. Ainda antes, em abril, contra a vontade do BdP mas coadjuvado pelo ministro das Finanças, AR consegue fundar um banco: o Banco de Angola e Metrópole.

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a filial portuense do Angola e Metrópole localizava-se no local assinalado, n.º 19 e 20 da praça da Liberdade, no informalmente denominado Palácio das Cardosas

 

Entretanto surge uma certa inquietação gerada pela grande quantidade de notas de 500 em circulação, nomeadamente por parte dos comerciantes, que as começam a rejeitar, apesar do BdP afirmar que tudo está bem. O jornal O Século, a serviço de outros interesses, publica alguns artigos que colocam em causa o Angola e Metrópole e a credibilidade dos seus dirigentes. No Porto, os artigos desse jornal saídos em novembro são muito comentados nos cafés, e é certamente de uma dessas conversas que nasce a 'pulga atrás da orelha' ao tesoureiro da casa de câmbio José Pinto da Cunha, Sobrinho, fornecedor de moeda estrangeira ao banco de AR; pois ele sabia que as transações não eram escrituradas. Convencendo-se da falsidade das notas e comentando tal apreensão a colegas do Banco Espírito Santo, a notícia acaba por chegar ao BdP.


É então que o governador envia ao Porto inspetores bancários, acompanhados de agentes da polícia criminal, para investigar a casa José Pinto da Cunha, onde descobrem uma grande quantidade de notas de 500 escudos. Não obstante estas serem dadas como verdadeiras, a casa de câmbios é encerrada uma vez que o seu valor não estava lançado nos livros de caixa (são presos o gerente e guarda-livros). De seguida os inspetores visitam a caixa filial do Angola e Metrópole: mesmo sem provas, o banco é encerrado e apreendido todo o montante encontrado nos cofres, com a prisão do seu gerente. Desnorteados, um dos inspetores propõem levar as notas de 500 que estavam no banco para a caixa filial do BdP, ao largo de S. Domingos, e aí compará-las exaustivamente com as que lá existiam. O trabalho prolonga-se madrugada dentro, e é já no dia 5 de dezembro que finalmente surgem duas notas com o mesmo número de série. Segue-se a 6 a prisão de AR, que acabava de desembarcar em Lisboa, e na mesma data o BdP decide recolher todas as notas de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama.

 

julgamento de AR e seus cúmplices teve inicio em 6 de maio de 1930, sendo a sentença lida a 19 de junho. Veredito: 8 anos de prisão e 12 de degredo para o mentor. Acabava assim, já em plena ditadura militar, o episódio que fora mais um problema lançado para cima da desprestigiada e moribunda primeira república.

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a casa de câmbio onde se empilhavam notas de 500 vindas do banco de Alves Reis, localizava-se num edifício à época muito recente, à entrada da rua de Sá da Bandeira (encostado à igreja dos Congregados)

 

E eis então explicado, caro leitor, como o Porto foi cenário do ato inicial e final do sonho de Alves Reis. Não quero deixar de terminar esta publicação, que espero tenha sido agradável de ler, com uma 'curiosidade':

 

Em 1 de janeiro de 1926, no primeiro número da 2.ª série d' O Tripeiro, na rubrica Correspondência entre leitores, secção Novas Perguntas, surge esta questão: «NOTAS DE BANCOS: Que bancos do Porto tiveram a faculdade de emitir notas antes de passar esse exclusivo ao Banco de Portugal?» Ora, quem pergunta intitula-se A. Reis... Coincidência certamente, ou brincadeira malograda, porque logo no número seguinte veio a resposta, que aproveito para transcrever em jeito de despedida:

 

«Deseja um leitor saber quaes eram os Bancos do Norte de Portugal que no tempo da liberdade de emissão, traziam notas em circulação.

Eram os seguintes:

- Nova Companhia Utilidade Publica

- Banco União

- Banco Mercantil Portuense

- Banco Commercial do Porto

- Banco Alliança

- Banco do Minho

- Banco Commercial de Braga

- Banco de Guimarães

Teve permissão do Estado para emitir notas e chegaram a estar gravadas e promptas a serem lançadas em circulação, o Banco Industrial do Porto, mas não chegaram a circular porque nessa occasião foi promulgado o decreto cassando a todos os Bancos em geral a faculdade da emissão, e atribuindo-a exclusivamente ao Banco de Portugal.

Ainda no tempo da liberdade emissora circularam aqui tambem as do Banco de Portugal, mas só tinham curso as que fôssem rubricadas no verso por dous dos administradores da Caixa Filial desta Cidade.»

 

1 - Na verdade, no ano de 1925, ano em que AR e seus associados atingiram o apogeu, este encontrou-se frequentemente a habitar o Grande Hotel do Porto, à rua de Santa Catarina. Frequentes foram também as compras de jóias na célebre ourivesaria Reis & Filhos, Lda, que as entregava diretamente no hotel (com quem AR veio a cortar relações, pela não aceitação dos seus cheques). A esta seguiu-se a ourivesaria Cunha, Sobrinho Lda, que não se poupava a esforços para entregar as encomendas, fosse onde fosse!

2 - Artur Virgílio Alves Reis, era seu nome completo.

3 - O caso envolveu vários outros cúmplices, que para efeitos desta publicação irei ignorar.

___________________

FONTES: O lugar da História: Alves Reis ; O caso “Angola e Metrópole” ; Ilustração ; Alves Reis - Uma história portuguesa

AGRADECIMENTO: a Manuel de Sousa, por me ajudar na identificação da casa de câmbio e da filial do Angola e Metrópole!

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