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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Apontamentos para a história do arco da Vandoma

18.04.20

Creio que a maioria dos meus leitores terá conhecimento que outrora existiu nesta cidade um arco de uma antiga porta medieval denominada da Vandoma, assim como creio também que a maior parte de vós terá uma ideia da sua localização; pelo que  nesta publicação não se fará uma grande dissertação sobre esta estrutura, muito menos sobre a muralha a que ela pertencia, a chamada cerca velha ou muro velho da cidade. Tenhamos apenas em mente que ela foi, durante alguns séculos, a principal entrada para o burgo do Porto, quando este se resumia quase exclusivamente à cidade episcopal da Penaventosa. A muralha fernandina é-lhe muito posterior....

 

Este arco foi demolido no ano de 1855, por forma a alargar a passagem para a Sé e ruas adjacentes. Assim, desde aquele ano e por quase durante um século, o local onde se encontrava o arco, ainda que mais largo do que quando ele existia, manteve-se uma relativa estreita passagem que nos permitia saber onde ele ficava. Para esta pequena publicação trago apenas duas imagens: o quase fotográfico desenho de Vilanova, de 1833; e uma fotografia do início do século passado que nos dá uma curiosa vista da calçada da Vandoma, também já desaparecida, arruamento onde se encontrava aquele resto do velho Porto.

 

Screenshot_1.jpg

i1 esta imagem da terceira ou quarta década do século passado é excelente para nos indicar onde se encontrava a porta da Vandoma. O pequeno arco a amarelo pretende representar o local aproximado do referido arco, onde se encontra o V. À direita, com a letra S temos o transepto da Catedral portuense e o C indica a rua Chã; quase tudo do que aqui se vê em primeiro plano desapareceu

 

Da revista O Panorama,de 1858, retiram-se uns curiosos apontamentos, firmados por Manuel Bernardes Branco:

«No alto do arco da Vandoma havia uma capela, na qual estava uma imagem da Senhora, conhecida por uma tal invocação, que denotava a maior antiguidade. Em 1855, por ocasião da demolição do arco, foi esta imagem levada para uma das capelas do claustro da Sé, onde se lhe estabeleceu uma confraria com o fim de fazer anualmente uma festividade a esta imagem. No ato de se remover a imagem do altar, onde esteve por tantos séculos, encontrou-se uma âmbula, da qual posso fazer a descrição, segundo as informações dadas pelo sr. Henrique Querubim Lagoa, paleógrafo da Misericórdia do Porto, e pessoa amante das nossas antiguidades nacionais, e que a possui atualmente. "Esta âmbula é pouco maior do tamanho de uma noz grande: segundo parece é feita da pau de pereira: divide-se ao meio por uma rosca; dentro contém um vaso de chumbo: este divide-se em dois repartimentos: o primeiro e superior contém dentro uma matéria esponjosa, da qual rescende ainda um aroma agradável: no repartimento inferior e mais pequeno vêem-se aderidas às paredes internas partículas de seiva. Parece ser uma âmbula de bispo. Sobre a face inferior vê-se dentro de um círculo, símbolo heráldico da igreja, uma águia imperial de duas cabeças, suspensa no ar, e com as garras abertas: no campo do escudo ovado se notam ainda restos de ouro."
Na opinião do possuidor desta antigualha, é ela um monumento heráldico, e a águia de duas cabeças significa a reunião de dois impérios o do Oriente e o do Ocidente, conquistado por Carlos Magno; o que então constituiria o selo das autoridades eclesiásticas francesas.»

Questiono, no século XXI, onde andará esta peça?

 

Embora de origem medieval, a forma que a capela e o próprio arco assume na imagem de Vilanova é posterior a esse período. Pelo lado interno, no entanto, ele apresentaria ainda um aspeto antigo, a julgar por alguns desenhos que chegaram aos nossos dias. Opto por não os apresentar aqui para não fixar na mente do leitor uma possível falsa imagem do real aspeto daquela estrutura. É que os desenhos são suspeitos, como apontou o grande historiador Magalhães Basto no seu excelente volume Sumário de Antiguidades...

A imagem de Vilanova é colhida de fora para dentro, isto é, da rua Chã para a Sé; quanto à face interior, ela ficará muito provavelmente para sempre perdida no tempo. A julgar pela descrição de Henrique Duarte Sousa e Reis que ainda a conheceu, o seu aspeto seria seguramente mais antigo do que a face exterior.

 

vilanv (1).jpg

i2 foi assim que, em 1833, Joaquim Cardoso Vitória Vilanova viu o arco da Vandoma

 

Embora algo longa, transcrevo para aqui a descrição do autor atrás referido, por forma a que o meu leitor possa fazer uma melhor imagem mental do arco e das suas redondezas:

 

*

«Tenho agora a descrever o arco da Vandoma demolido nos fins do próximo passado ano de 1855, e dele farei mais larga menção por estar tão recente a lembrença de sua forma e feitio, e quem sabe talvez o único dos quatro, que ainda conservava restos da sua primitiva ou quase primitiva edificação, a qual se via pelo lado interno do mesmo arco, e consistia em seu talhe ser extremamente baixo, ainda que pelos rebaixes sucedidos na calçada, que por baixo dele se descia ficava o assento da pilastra talvez superior ao calcetamento 10 ou 12 palmos: em volta deste arco, e em lugar devivo (sic) mostrava uma continuada série de contas de pedra, negra e de carcomido granito, que bem mostrava os séculos, que se sucederam depois de terem sido cinzeladas aquelas pedras: seus encontros estavam como firmados pelo sul a uma casa moderna pertencente a António Perfeito Pereira Pinto Osório e mulher, a qual se via ter sido levantada de arrimo ou encostada às sólidas e grossas paredes sobre, que edificaram esse arco, e vinha a fazer pelo mesmo lado o interior dele, aí havia um postigo com grades de ferro e já muito corroido da ferrugem, proveniente do tempo que não obstante o obrigo em que ele estava, tinha feito os seus costumados estragos, e logo inferior lhe ficava crvado na própria parede um elo e ferro muito mal trabalhado, mas vigoroso e forte, que indicava ter servido de encontro ao varão ou tranca da porta, que ali houvera para fechar o recinto desta fotaleza, e do lado do norte estava como encravado este arco, e a abóbada de tijolo, que lhe formava o teto, em uma casa ou antigo palacete de um andar, que pertenceu aos Marqueses de Távora, e ao meio desa parede havia aberto um beco, que dava comunicação para os altos das casas do lado esquerdo da rua Escura, que lhe ficava inferior pela parte do norte. Em uma e outa parede lateral deste arco se viam os efeitos do picão desgastador de sua grossura primitiva, para o alargar tanto quanto bastasse para o trânsito de seges e povo, que seguia para a catedral e seus contornos.

 
Pela parte externa era este arco de obra moderna, talvez do século passado [o XVIII], todo guarnecido de pilastras e maineis lisos de polida cantaria, e como o embelezamento da rua Chã requeria uma linha mais reta através dela, sendo a antiga inclinada para a esquerda, quem subia por essa rua apenas via por uma como fresta vazada, parte do edifício da Sé (que ficava a pouca distância) por serem como desencontradas as faces do referido Arco, e de forma tal que a extensão da parede interna dele e do lado direito era muito maior, que a do esquerdo.
 
Sobre este Arco, e pelo mesmo lado da rua Chã havia uma parede a prumo dele, guarnecida de pilastra de pedra, com larga janela envidraçada e da mesma arquitetura, que encerrava o altar, e sobre ele uma imagem de nossa Senhora feita de pedra, muito grosseiramente fabricada e de 9 palmos de alto (...) : pelo lado interno ou do largo da Sé também havia levantada sobre esse antigo arco uma parede lisa, que indicava ter sido levantada para vedamento (sic) e comunicação interna de algumas casas próxima, que como disse ambas eram muito mais modernas, ou finalmente seria feita para o restaurar da mudança do oratório da Senhora, que presumo ter estado voltado, como os dos mais arcos, para a parte central da fortificação, e mostrava ainda um pequeno postigo.
 
Ainda pelo lado externo ou da rua Chã havia encostada à parede que formava a casa de António Perfeito Pereira Pinto Osório uma escadaria de pedra mas coberta de telhado e perfeitamente vedada com muros apilastrados, que dava entrada para a capela da Senhora da Vandoma (...) a sua porta elevava-se do pavimento da rua por dous degraus também e pedra, sendo o segundo lanço desta escada construído pelo interior da casa, a que encostava este primeiro, e fazia saliente toda esta obra, a qual sem dúvida alguma se edificou, quando se fez a enxertia, e acrescentamento do arco antigo, e foi talvez isto executado para com facilidade e sem incómodo da família administradora da capela, se poder expor à devoção pública a imagem que nela por tantos séculos se venerou, e com quem o povo tanta devoção tinha.»

*

 

A 9 de julho de 1855 foram orçamentadas as obras necessárias para demolir esta estrutura, parte integrante de um palacete pertencente a António Perfeito Pereira Pinto Osório e sua esposa. A louvação incluía a «transferência do altar, retábulo, imagem de Nossa Senhora da Vandoma feita em pedra a qual terá de altura nove palmos, para o 2º andar da casa da Vandoma», «Demolição dos arcos, a abóbada em que pousa a dita capela», «Reparo nas paredes das casas pela dita demolição».

Havia igualmente que ter em conta a «despesa com o corte da casa da Vandoma», para quando a câmara o quisesse fazer, por forma a «alinhar a continuação da rua Chã pela linha do nascente». O corte geral em toda a frente, apeando «a atual frente, removimento de entulhos, levantar a nova frente conforme o atual prospeto nela existente (...)» ou um plano mais em conta, se se limitasse ao «corte da dita casa principiando do lado norte para o sul até ao centro onde atualmente está uma pilastra».

Seguia-se, a erguer posteriormente à demolição, «duas braças de parede de perpianho» e nela «duas janelas que se fizeram de pedra lavrada». Isto no que toca à pedra, pois havia ainda a despesa de carpintaria a fazer com o «tapamento em frente da rua e duas janelas» e a «reforma da armação» (do telhado, seguramente).

 

Quanto ao arco em si, foi louvado em 11 de julho, nos seguintes termos: «achamos poder valer por uma só vez, atendendo à sua antiguidade segundo o estado em que se acha ... 600$000, «ficando pertencente à exma. câmara todos os materiais dos referidos arcos». E assim, com duas ou três simples linhas perdidas e esquecidas num volume do AMP, se arquivava o valor de mais de oitocentos anos de história. Porque, tudo, mesmo tudo, tem um preço.