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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Apontamentos sobre o rio da Vila

29
Nov20

Todos os amantes da história do Porto já ouviram falar no recorrentemente citado rio da Vila. Servindo de pretexto, em inícios do século XIII, para que a Coroa usurpasse terreno à Mitra e Cabido portuenses (senhores de facto de um couto que na realidade se estendia até ao rio Frio); foi durante séculos usado como esgoto a céu aberto pelos cidadãos e indústrias citadinas. Na segunda metade do século XIX, o troço que ainda restava à superfície foi relegado para o subsolo; ficando assim escondido e transformado no colector principal ou aqueduto geral, como os documentos do final do mesmo século o referem. É portanto, um ribeiro morto e literalmente enterrado, que vai agora, ao que parece, ser musealizado (ver aqui).

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A imagem que ilustra esta publicação não é do rio da Vila, antes do ribeiro das Azenhas, ou de Santo Antão, equivalente gaiense que ainda hoje tem um troço a céu aberto junto ao Instituto de Emprego e Formação Profissional. Também ele quase todo entubado, dividiu na época baixo medieval a povoação de Gaia da de Vila Nova

 

Este ribeiro era alimentado por várias nascentes de água, formando-se junto à porta de Carros, na atual praça Almeida Garret. E não se pense que era sempre manso e suave, na verdade temos documentada pelo menos uma grande tragédia, em 1569, quando o seu insuficiente encanamento junto ao muro dos padres de Santo Eloi provocou a morte a alguns dos habitantes das casas adjacentes. Reza assim um documento de contrato entre aqueles padres e a câmara (lavrado no ano seguinte):

 

«... disseram eles padres e assim os ditos vereadores e procurador da cidade que por se não poder escusar se concertarem em renovar e fazer o cano do rio da Vila desta cidade convém a saber aquela parte dele que ia pela horta do dito mosteiro por causa de ser estreito e de pequena altura e por essa causa por algumas vezes pela horta o dito rio da Vila que pela dita horta passava que no tempo das invernadas não podia caber pelo cano por onde a dita água ia pela dita horta. E porque por essa causa rebantaram os ditos canos por algumas vezes por aí se espalhara a dita água e se juntara na dita horta e com o peso da dita água saira a dita água fora da horta que era muita e derrubara algumas casas da cidade e morreram muitas pessoas.»[1]

 

Mas as inundações não cessaram com a construção daquele aqueduto, e seus reparos que certamente existiram ao longo do tempo. Na verdade, ainda em meados do século XIX[2] surgem referências aos estragos causados pelo caudal do rio naquela área. Os proprietários e moradores do largo da Feira de S. Bento (praça Almeida Garret), desde o número 11 ao 45[3] sentiam-se altamente prejudicados com as águas que corriam pelo aqueduto que da praça da D. Pedro (praça da Liberdade) se dirigiam por baixo daquelas casas ao aqueduto do largo de S. Bento. Diz o documento:

 

«Porque a forma como estão ligados os dois aquedutos, a pouca capacidade do primeiro e o mau regime geral de toda esta canalização, dão causa ao extravasamento das águas que invadindo as lojas e armazéns onde tem seus depósitos de fazendas em época de chuvas anormais. Assim solicitam a modificação daquela ligação o mais breve possível para obstar aos prejuízos que sofrem e que montam a contos de réis, em consequência da deterioração dos artigos do seu comércio. O primeiro proprietário do abaixo assinado oferece mesmo à câmara a quantia de cem mil réis para auxiliar a despesa daquela obra se ela se comprometer a fazê-la antes do próximo inverno, pois o mesmo havia sido prejudicado pela evasão das águas do dia 23 passado numa quantia superior a três contos de réis; pelo facto de ser de dia, pois de noite seria bem pior, haveria mesmo perda de vidas e eventual aluimento das casas 28 a 35, dada a força da evasão das águas.»

 

Vemos assim que em meados do século XIX o risco de perda de vidas humanas era ainda uma realidade. Só nos anos 80 e 90 do mesmo século foram refeitos os aquedutos daquela área, a pensar não só no escoamento da água pluvial e das nascentes, mas também em receber os esgotos das casas, uma vez que a salubridade começava a ser uma verdadeira prioridade da câmara municipal (possivelmente refletindo obrigações causadas por legislação nacional).

 

O braço do rio que a que se referem os documentos anteriores, respeitaria apenas aquele que nascia na área do agora bastante aplanado monte de S. Brás. Contudo, um outro braço a ele se juntava vindo da Fontinha. E é precisamente a esse braço, ou pelo menos a um dos seus meandros, que se refere o documento de 1884, que para aqui recupero e que traz já referências que todos nós ainda hoje conhecemos:

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excerto de uma planta do século XVIII que parece mostrar o ribeiro mencionado no documento (r). Por esta época ainda não se encontrava urbanizada boa parte da rua 31 de Janeiro (A). Vê-se também a viela da Madeira (B) e a muralha fernandina perfeitamente marcada, bem como a igreja dos Congregados (D)

 

«Ex. Câmara,

Em observância às ordens de V. Exa., vimos dar a informação respetiva ao conteúdo do ofício que a V. Exa. dirigiu o comissariado da Polícia, sobre o n.º 2137, em 22 do corrente.

O ribeiro a que se refere o mencionado ofício corre por baixo das cocheiras do teatro Príncipe Real[4] e segue a descoberto 37,00m, sendo destes 17,0m sob as casas da Rua de Santo António, ao longo da passagem inferior que ali existe em comunicação para a viela da Madeira, indo desaguar no cano que se dirige ao aqueduto geral da Rua Mouzinho [da Silveira], construído em substituição do antigo rio da Vila.

São imundas as águas do ribeiro, e é de toda a conveniência canalizá-las, mormente na ocasião presente, por meio de um aqueduto que deverá ter, pelo menos, 1,0m de largo por 2,0m de alto.

Esta obra parece não dever ser feita à custa dos proprietários vizinhos, mas sim do município, pois eles nada [têm] a aproveitar, a não ser para vazadouro do lixo.

Esta obra custará a quantia de 202$908 réis, segundo a medição e orçamento juntos, se as freiras de S. Bento de Avé Maria não se opuserem a que seja aproveitado para uma das cortinas do aqueduto, o muro onde está assente o cano das águas que fornece o mesmo convento.

Em caso contrário o orçamento atingirá a quantia de 269$590 réis.»

 

Anos mais tarde, também este pequeno riacho foi entubado

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Nesta minuta de campo da planta de Teles Ferreira, vemos o que parece ser o ribeiro, na sua face a céu aberto, passando atrás do teatro. Notar que a folha final desta planta, não o assinala (cf. aqui). na imagem o A marca a rua de Sá da Bandeira e B a rua 31 de janeiro.

 

 

Hoje, quem passa nestas áreas tão centrais da cidade, não imagina que por baixo delas correm várias pequenas linhas de água, responsáveis, não há muitas centenas de anos, pela irrigação dos diversos campos de lavradio que por ali existiam...

Estes três apontamentos, desconexos no tempo mas não no objeto, pretendem de certa forma revelar um pouco dessa realidade oculta por toneladas de pedra, areia e betão; a que obriga o bom funcionamento da cidade moderna. Mais espero trazer, sobretudo sobre a fase final do rio da Vila, numa próxima publicação.

________________

1 - In A Rua das Flores no século XVI  - p. 191 - de José Ferrão Afonso.

2 - Perdoe-me o leitor por não ter o registo do ano preciso.

3 - Numeração sequencial antiga.

4 - Teatro Sá da Bandeira.