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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

As últimas casas manuelinas do Porto

22.03.20

Sabem os meus leitores assíduos que volta e meia costumo referir os escritos de Henrique Duarte Sousa e Reis, indivíduo que legou à cidade uns manuscritos compilados por si e a que deu o título de Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, que nos prestam muitas e variadas informações sobre a cidade do seu tempo, algumas delas únicas. Desses manuscritos quatro foram já publicados, mantendo-se três por publicar.[1] Tive oportunidade de recolher alguma informação do seu 5º volume (o primeiro não publicado) e é dele mesmo que translado o texto que se vai ler. São apontamentos singelos mas preciosos sobre dois edifícios que deixaram de existir nos meados do século XIX e que o autor ainda conheceu.[2] Tratavam-se de dois exemplares de arquitetura habitacional manuelina, os únicos ou os últimos resistentes na cidade, cujos congéneres ainda se podem encontrar em várias localidades de Portugal, nomeadamente nas de pequena e média dimensão, não tão sujeitas à pressão urbanística.

 

Eis, então, o texto:

§§

«Recordação das casas da rua da Alfândega e da rua da Ferraria de Baixo, a que chamam do Patim; cujas edificações eram antiquíssimas e bem é de crer fossem nesses tempos os palacetes mais nobre desta Cidade do Porto.[3]

DEMOLIÇÕES

A casa n.º 7 situada na rua da Alfândega desta cidade à esquerda de quem desce, era talvez uma das mais antigas casas nobres do Porto, e edificada poucos anos antes daquela chamada a dos do Patim, e que estava assente logo no princípio da rua da Ferraria de Baixo ao descer de S. Domingos, e também ao lado esquerdo, porque eram quase iguais na arquitetura, tendo ambas os mainéis das janelas e portas não só circulares na parte superior delas, mas todo o seu vivo rebaixado, e nele em alto relevo lavradas contas e flores.

As mudanças que em tão poucos anos tem havido nesta nossa cidade do Porto me instiga, a como sei e posso faça as lembranças ocorrentes daquelas, que durante a minha vida presenciei, e assim ache algum curioso nestes apontamentos algum instante, em que se recreie, assunto para partirem[?] as suas ideias, ou motivo para tirarem alguma dúvida sobre a localidade e forma de tais edifícios; destes dous farei a descrição se não minuciosa ao menos clara.

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i1 fotografia da casa  no Terreiro da Alfândega sobre o qual nos fala Sousa Reis. A janela de canto assinalada ainda existe na quinta da Aveleda em Penafiel (ver aqui)

 

Constava a casa da rua da Alfândega de três faces ou frontarias exteriores e visíveis, porque parte da primeira, e toda a voltada ao lado do nascente estavam encravadas no edifício da Alfândega de forma tal, que daquela que olhava para o norte ou embocadura da rua logo ao descer da dos Ingleses[4], apenas se via cousa de 12 palmos[5] saliente, e tantos importava, o que ela obstruía a referida calçada da Alfândega, e foi agora demolida para facilidade do trânsito, e da outra fachada do nascente nada se alcançava pela razão acima dita; nestas faces não havia obra alguma mais que paredes lisas, o que assaz prova ter estado esta parte saliente e visível igualmente encoberta e encostada a outras casas antes da fundação da fachada da repartição da Alfândega, que é natural recuasse esses 12 palmos para alargar a rua do mesmo nome, que com este estabelecimento deveria ser muito concorrida, sendo até aí estreitíssima como testemunha esse grande avanço que esta propriedade tinha. Essa rua estreita foi em antigos tempos chamada rua do cunhal de S. Francisco, se não houve engano em um documento, que vi, respetivo a esta casa, que descrevo.

Na frontaria da parte do oeste tinha praticada, mui próximo ao cunhal do norte, uma porta e a seu par uma janela engradada de ferro de grandíssimas dimensões, e tão lisamente feitas, que bem mostravam ter sido abertas assim para corresponder às janelas centrais dos dous andares da fachada principal virada ao sul, com quem diziam perfeitamente no talhe, porém em lugar de serem arcadas eram direitas as padieiras, e todos os mainéis com elas mostravam cortado e em meia cana saliente e filetes[6] nas margens, os seus vivos, de forma tal, que bem poderia julgar se foram elas obras mais modernas, se isso fora possível: desvaneios do arquiteto, ou gosto variado do dono da propriedade.

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i2 aqui a casa foi já em parte demolida, e encontra-se em construção o edifício atual, que hoje alberga o Arquivo Municipal do Porto. Na imagens vê-se uma parte da fachada da casa manuelina, à direita, que ainda não foi demolida; bem como a pedra da mesma casa espalhada pela rua que muito certamente foi reutilizada no novo edifício

 

Esta parte dava entrada geral para este palacete, pois assim se podia chamar, porque naqueles tempos decerto podia; e devia ser considerado.

A fachada principal como já disse era voltada para o sul, e em sua frente ficava-lhe o espaço chamado o Terreiro, e compunha-se de dous andares, sobre três portas baixas abertas em forma circular como que formando no centro um bico, e muito natural é, serem dentro delas os cómodos dos criados e cavalgaduras; que os primitivos habitantes e edificadores desta propriedade pela sua posição social careciam: eram extremamente acanhadas estas portas, correspondiam-lhe logo superiores no primeiro andar três janelas de sacada com varandas de ferro, sendo a do centro mais elegante porém singela no lavor como a porta principal da entrada e a janela contígua, que já descrevi, e as duas laterais sacadas posto que mais baixas e estreitas eram todas cobertas de florões tão salientes e tantos, que topavam com as soleiras das sacadas do segundo andar, que lhe ficavam por cima, igual em construção, gosto, dimensões e adornos, e só diferia em conter demais junto ao cunhal da parte do oeste ou fronteiro a capelinha do Terreiro um como mirante ou miradouro ricamente adornado e feito em tal gosto, que era o único no seu género nesta cidade, e por essa singularidade não me pouparei a fazer distinta descrição dele.

A coronigem que cobria este miradouro foi construída debaixo da mesma linha, que a geral das três fachadas; sobre o cunhal da casa, que ficava inteiramente partido e rematado no nível do pavimento do segundo andar, em que esta obra era montada, se levantara um peitoril de pedra para o lado da rua da Alfândega, e outro para o do Terreiro, e na esquina ou juntoura deles, e na linha perpendicular e a prumo do referido cunhal pousava uma mui delicada e bem trabalhada coluna de pedra que sustentava as duas padieiras formadas por grandes roscas[?] e retorcidos de veias ou listões de pedras, e a coronigem acima indicada.

Estes peitoris, a parte que distava das padieiras à coronigem, e os lados exteriores deste miradouro eram enriquecidos com tarjas de flores, folhas, pomos e arabescos fantasiados tão bem lavrados em pedra, e ainda que era antiquíssimo aquele trabalho, tinha na ocasião da demolição valor excessivo pelo seu muito merecimento.

Diz-se que quando a Rainha Dona Filipa de Castela[7] atravessou o rio Douro para nesta cidade se casar com el-rei D. João 1º de Portugal, que em Évora se achava, de cujas festas faz larga menção D. Rodrigo da Cunha na Crónica deste rei a fl. 241[8] várias autoridades esperaram a real noiva neste palacete, e algum tempo de se demoraram no miradouro descrito, por serem dele facilmente descobertas as embarcações, que deveriam fazer o cortejo da nova soberana portuguesa. Tão memorável e rica peça foi no ano anterior de 1855, apeada não só pelo estado ruinoso do restante edifício, e causou as vistorias de 5 de Julho de 1848 e outras mais, como por estar essa parte dele estreitando o caminho tão precioso para a contínua servidão da Alfândega desta segunda capital.

Pertencia esta propriedade a Manuel Guedes da Silva da Fonseca, e em seu vínculo estava incorporada, razão esta porque tinham sido infrutuosos todos os esforços que a câmara muitos anos e repetidas vezes fizera para levar a efeito esta demolição a qual conseguiu ultimamente por pacto amigável com seu possuidor, a quem pagou a quantia de R 1:700$000 só pela parte adiantada do alinho da casa da Alfândega, mas o vendedor tal preço fazia deste miradouro, que no contrato o reservou para si; e todas as pedras de que se compunha foram cuidadosamente apeadas e recolhidas à sua habitação nobre sita na praça da Batalha, para em tempo e lugar oportuno talvez colocar este chefe[?] de arquitetura antiga.

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i3 o local na atualidade (comparar com a i1)

 

Não era por certo muito mais moderna a edificação da famigerada casa dos do Patim,[9] pertencente à família de Van Zelleres acreditados negociantes desta praça, a qual já disse, onde era situada, porém como seja necessário descrever-lhe os acessórios para melhor se compreender a descrição da mudança, que se fez nessa parte da cidade, com eles me vou entreter um pouco.

Todos sabemos, onde está situada a Caixa Filial do Banco de Portugal, cujo edifício nos assegura, que muitas gerações conheceram no futuro ser ele parte do convento dos religiosos de S. Domingos, e assente ao sul da rua deste nome, pois saibam também os vindouros, que ao cunhal do poente desta casa estava ligada a igreja dominicana, e seu frontispício coberto de pilastras, com um historiado óculo de vidraças, era rematado por floreadas pirâmides de pedra, e tudo se estendia para a mesma parte do poente, e de tal forma que apenas ficava a distância de uma mui estreita viela entre este templo, e as casas, que por este mesmo lado ficavam fronteiras, e ainda existem. Descendo-se por esta viela encarava-se em frente com um portão, que talhado na parede logo em face através da calçada, e seguia o alinhamento da parte do sul das propriedades da rua da Ferraria de Baixo; este portão dava entrada para a pequena cerca dos frades de S. Domingos, e nesse muro pegava a casa da família do Patim de tal arte, que parte dela se via, logo a embocar nesta viela.

Era a mencionada casa dos do Patim de dous andares, e em cada um havia rasgadas três janelas entre si distantes por grandes intervalos, sendo as do primeiro de sacada com engradamento de ferro e as de segundo de peitoril; três portas lhe correspondiam, porém desiguais na altura por ser a referida rua da Ferraria muito inclinada, não lhe obstando os rebaixes por vezes feitos, ainda é áspera a sua descida. Estas seis janelas tinham as padieiras arcadas, e os vivos dos mainéis rebaixados a meia esquadria: neste rebaixe eram levantadas folhas e pomos, que iam rematar em florões no centro superior de cada um das janelas, e às quais serviam de remate ou fecho, e haviam sido tão solidamente construídas todas as obras desta habitação apalaçada, que poderia ainda durar anos e talvez séculos, mas a necessidade era tal, a fim de que a cidade alcançasse fácil comunicação mais direita e curta, com a Alfândega e cais da descarga, que obrigou à Câmara Municipal a imaginar e levar a efeito pelos anos de 1836[10] a abertura da rua Ferreira Borges; e para isso forçoso foi demolir toda a igreja de S. Domingos de que apenas existem vestígios, arrasar o muro e portão da cerca, e parte das paredes do convento dos religiosos do mesmo santo, que todo ardeu durante o cerco da heróica cidade do Porto,[11] e cortar na largura de uma janela a notável casa dos Van Zeller do Patim; o restante desta casa, passados anos foi comprada por um particular, para sobre seus alicerces levantar essa série de propriedades modernas, que bons alugueres lhe rendem.

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i4 para quem tem difculdade em identificar o local da casa do Patim: 1- casa que substituiu a do Patim, no novo alinhamento : 2- este passeio, é grosso modo, equivalente à viela que existia no século XVIII e início do XIX, estando o restante - até ao local onde se tirou a foto - ocupado pela igreja dos Terceiros dominicanos : 3- foi sensivelmente aqui que existiu o portão que dava acesso à cerca de S. Domingos, antes das demolições de 1835.

 

Seguiu-se para completa abertura desta nova rua, a demolição de uma grande propriedade de casas de três andares, situada na rua nova de S. João,[12] e fronteira à paroquial igreja de S. Nicolau pertencente a Vicente Ferreira de Novais, e logo nela se levantaram para embelezamento de tão cómoda passagem o majestoso edifício da Bolsa, ou praça do Comércio, em que se converteram os magníficos restos do incendiado mosteiro de S. Francisco, e a par desta a segura casa do Banco Comercial do Porto, que cada uma em seu diverso gosto arquitetónico mostram haver nesta cidade operários e mestres tão peritos como nessas capitais da Europa, onde tanto se ostentam os bem delineados riscos, e sumptuosas execuções.»

§§

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i5 a única imagem da casa do Patim é esta e data de 1836 (infelizmente trata-se de um desenho algo estilizado). por esta época a rua ainda estava longe de ser concluída. nela pode-se ver o murete que veio depois dar lugar à rua da Bolsa e ao edifício do Banco Comercial do Porto (agora Instituto dos vinhos do Douro e Porto), entre outros

 

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NOTAS:

s/nº: o autor usa a palavra coronigem, sem dúvida correspondendo à mais atual cornija.

1 - No meu entender esses manuscritos merecem nova e integral publicação, com a ortografia atualizada e com notas sobre a mesma quando necessário. Esse trabalho merecia igualmente ser acompanhado de vários comentários, pois, como em todas as obras de vulto, por vezes o autor erra.

2 - Quando o edifício do Patim foi demolido o autor contava 25 anos. Quando o mesmo aconteceu ao da rua da Alfândega, o autor estaria já perto dos 60.

3 - Poderá haver aqui algum exagero do autor. Estas casas seriam as únicas que haviam chegado aos tempos modernos, tenho para mim que mais existiram anteriormente, sofrendo o azar de serem demolidas em tempos em que este tipo de edificações não era valorizado artisticamente.

4 - Hoje rua do Infante D. Henrique.

5 - Aprox. 2,60m.

6 - No texto parece estar escrito efiletes.

7 - É lapso por Lencastre.

8 - Algum confusão aqui há. D. Rodrigo da Cunha não escreveu a crónica do rei D. João I mas sim o Catálogo dos Bispos do Porto. Nesse trabalho, a pp. 241 surge o traslado de um documento que descreve a cerimónia de assento da primeira pedra do convento de Santa Clara, onde D. João I participou, mas sendo já rei. Quem escreve a crónica do rei é Fernão Lopes (ver aqui).

9 - A casa dos do Patim, é necessário ter presente que a palavra Patim nada tem que ver com o nome de uma família, antes do lugar onde ela foi construída que era em patamar.

10 - Na verdade a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto, e foi inicida em maio de 1835.

11 - Num outro manuscrito, que não pertence a esta série, diz o mesmo autor: «1 de junho[de 1835]. Neste dia principiou-se a demolição da igreja pertencente ao extinto convento dos religiosos dominicos, para abertura da rua Ferreira Borges». Segue logo abaixo, a letra diferente, mas do seu punho: «Era este templo grande porém escuro, e o seu frontispício de bela arquitetura e todo e pedraria lavrada, porém como a rua de S. Domigos é estreita e a mesma igreja sobremodo apertava a rua da Ferraria de Baixo, ambas vinham a ser escuríssimas; se por um lado pois melhor (sic) a cidade e a localidade pela demolição e abertura de mais uma via de comunicação, por outro perdeu-se mais um bom edifício, cujo remate cheio de pirâmides lavradas atestava o gosto nas obras de edificação, e a religiosa veneração deste povo por tudo, quanto diz respeito à religião católica».

12 - Lapso por rua dos Ingleses, hoje rua do Infante D. Henrique. É possível que esta casa fosse também ela, na sua origem, manuelina. Era uma casa foreira ao mosteiro de S. Francisco, tendo sido originalmente erguida por Manuel Cirne, feitor na Flandres. A despesa de exproriação desta casa foi, em abril de1835, orçada no valor de 10,200 mil reis.