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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Cinco relíquias das Congostas e mais alguns curiosos detalhes....

por Nuno V. Cruz, em 11.09.18

A rua das Congostas era uma artéria íngreme e bastante antiga que partindo da rua do Infante subia o declive que ainda hoje se apresenta a quem inicia a subida da rua Mouzinho da Silveira, indo desembocar junto à encruzilhada da rua de S. João, Biquinha (também ela já desaparecida) com o largo ou calçada de S. Crispim (designação dada no século XIX à rampa que sobe para S. Domingos). Esta rua mantinha ainda muito do seu carácter medieval na tortuosidade e estreiteza que a caracterizava - sendo talvez a dos Mercadores um bom exemplo de comparação. Aquando da grande revolução urbana promovida no casco histórico da cidade à época de Pinto Bessa (1867-1878) foi inteiramente sacrificada por forma à cidade ficar com melhores acessos à recem inaugurada Nova Alfândega em Miragaia.

 

Mas nem toda a rua desapareceu... ou melhor dito; nem todos os edifícios que a compunham desapareceram. Com efeito, o projecto levado a cabo para a rua das Congostas expropriou quase todos os proprietários dos prédios nela sitos, uma vez que o seu alinhamento iria ser completamente diferente do existente, em face do novo arruamento que se queria mais amplo e desafogado; tendo-se eventualmente mostrado desnecessário demolir cinco prédios do lado nascente. Esses cinco edifícios constituem como que uma relíquia do arruamento que por séculos ali existiu e que desde cerca de 1875 desapareceu para sempre. Na i1, colhida ontem no local[1], podem ver-se em destaque os edifícios em questão (a fonte para esta afirmação foi o Projecto Base de Documento Estratégico para o quarteirão da Feitoria Inglesa da Porto Vivo).

 

 

5relcong.jpg

i1 - Ressalvando a eventual remodelação das suas fachadas e/ou reperfilamento dos portais, estas cinco casas são o que resta in situ da antiquíssima rua das Congostas.

 


Mas outros pequenos factos curiosos descobri[2] no AMP no que toca a esta rua, posteriormente à publicação original destas linhas. Em primeiro lugar é necessário retificar o que escrevi acima (2013): pois caro leitor parece que, afinal, daquelas 5 casinhas pelo menos a que se encontra mais a sul teve a sua fachada realinhada. Isso mesmo constatei ao me deparar com um documento referente a uma outra sua vizinha, mais precisamente a primeira acima delas.

 

Ora o caso é o seguinte: em junho de 1892, 36 proprietários e moradores da rua Mouzinho da Silveira entregaram na câmara (mais) um abaixo assinado pedindo o corte dos prédios com os nº 58 a 66, com vista «ao complemento da referida rua e fazer desaparecer a má impressão e péssimo efeito que produz o conservar-se o referido prédio fora do alinhamento». O documento refere também que já se andava a proceder ao alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo[3] bem como do prédio com o n.º 50 e 52, ficando por conseguinte muito fora do alinhamento e fazendo má vista aquele edifício; o único que faltava alinhar. Alertavam também para o facto de ser aquela altura do ano a melhor ocasião para os inquilinos do referido prédio procurarem habitação e o proprietário não se opor ao alinhamento com o fundamento de não poder despedir os inquilinos senão na época própria.

 

 

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i2 - Planta de 1892 usada pelos técnicos da Câmara para expor a questão do realinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do edifício a sul deste. Legenda: P - Pátio de S. Salvador : A - área de terreno da antiga rua que a nova capela de S. Salvador do Mundo veio a ocupar para a trazer ao alinhamento atual : b - terreno que a Câmara teve de expropriar para alinhar aquele edifício : c - terreno que a Câmara teve de alienar para trazer o edifício ao novo alinhamento. O traço verde representa o alinhamento das fachadas e o azul o das guias do passeio da rua Mouzinho da Silveira.

 

Há depois a resposta dos serviços técnicos da câmara, datada de 4 de agosto de 1892, que informa: «O prédio nº 58 a 66 da rua Mouzinho da Silveira, pertencente a José Nogueira Pinto compõem-se de duas casas, uma que tem os n.ºs 58, 60 e 62, de quatro andares, tem de avançar na sua maior parte para vir ao alinhamento da rua, e a outra que tem os nº 64 e 66 de 3 andares tem de recuar para o alinhamento segundo a planta junta (i2), levando por isso a excelentíssima câmara a adquirir o terreno que faz parte da casa 64 e 66 com a superfície de 5,75m2 (...) e de alienar o terreno que defronta com a casa que tem os nºs 58, 60 e 62 com a superfície de 1,65m2 (...)». Seguem-se as contas de deve e haver na alienação e compra do terreno, apeamento e reconstrução da fachada do nº 64 e 66, valor de 6 meses de renda dessa casa e indemnização ao proprietário para reparos no interior e rebaixe de um portal nas traseiras. Não incluiu o técnico da câmara a indemnização pela demolição e reconstrução da fachada da casa nº 58 a 62 por essa obra não ser urgente não sendo necessário a câmara compelir o proprietário a executa-la[4].

 

 

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i3  Postal que nos mostra aquelas casas, com as suas lindas janelas setecentistas, ainda no alinhamento original.

 

 

Certo é que após o alinhamento da capela de S. Salvador do Mundo e do tal edifício das Congostas supostamente nunca reperfilado; este outro edifício ainda ficou mais uns anos a fazer um estranho e inconveniente cotovelo. Com isso ganhou o direito de ser figurante em vários postais do início do século, sobretudo os que retratam a estátua do Infante D. Henrique.

 

 

ali02.JPG

i4 - Outra perspectiva das casas em estudo.

 

 

As duas imagens que deixei para o fim são as que reputo de mais surpreendentes: uma mostra-nos um pouco do rés-do-chão daquele edifício tão desalinhado dos restantes (i5); a outra (i6) mostra-nos o andar cimeiro dos edifícios em questão, com uma ressalva enorme: a rua das Congostas ainda existia!

 

 

CONG.jpg

i5 - Nesta imagem podemos ver o completo desalinho do edifício em face à rua Mouzinho da Silveira (amarelo) e também verificamos que a capela de S. Salvador do Mundo já se encontra alinhada (azul).

 

 

congpred.jpg

i6 - Por uma acaso fotográfico, os edifícios que temos vindo a acompanhar ficaram registados numa imagem - anterior a 1872 - ainda emaranhados no meio da tortuosa e medievica rua das Congostas!

 

 

Se caro leitor não se apercebeu de que edifício temos vindo a tratar, a i7 ajudará a ver qual o edifício e como ele se encontra na atualidade.

 

 

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i7 - Com uma mãozinha do googlemaps, aqui se apresenta a entrada do pátio de S. Salvador ladeado pela capela do mesmo nome (reconstruída, como vimos, em 1891/1892) e a casa que temos vindo a estudar.

 

 

Como observação final e pessoal, não posso deixar de notar que o projecto original da fase 2 da rua Mouzinho da Silveira previa a manutenção do nome Congostas, o que, se virmos bem faria todo sentido, uma vez que este troço da rua parecerá, ao turista ou transeunte que nada saiba de toponímia, um arruamento independente do outro grande lanço que vai de S. João a Almeida Garret. Não deixaria de ser bem mais pitoresco e quem sabe mais "verdadeiro" ter mantido aquela nome, no entanto a edilidade da altura assim não o entendeu[5].

 

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1 - Isto é, em 02.02.2013.

2 - Foram para o autor destas linhas uma descoberta pois nunca as vi referênciadas talvez por serem meros pormenores, em qualquer outra publicação.

3 - Prometo falar deste assunto em outra publicação...

4 - Ou seja, a fachada que se encontrava recuada poderia, quem sabe, ter assim chegado aos nossos dias.

5 - Aliás o projeto é encarado inicialmente como sendo o alargamento da rua das Congostas!

 

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 03.02.2013, agora revista e bastante aumentada.