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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Fragmentos visuais (2) : A Capela de Santo António do Penedo

por Nuno V. Cruz, em 04.09.18

Esta publicação, caros leitores, já está no meu pensamento há longo tempo. Contudo esperava que as obras de Santa Engrácia por que passa o edifício protagonista terminassem, para fazer uso de uma foto colhida por mim próprio. Mas aquilo está mesmo parado e parece que não tem forma de avançar! Assim, recorri ao nosso velho amigo googlemaps. Como pretendo seja habitual nesta série de publicações, quer na foto antiga como na foto moderna coloco uma âncora; isto é, assinalarei algo em ambas que ainda se mantêm para poder fazer a ligação entre o passado e o presente. Ora com esta explicação, quem sabe desnecessária, vamos ao cerne da questão:

 

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A i1 mostra-nos a capela de Santo António do Penedo no antigo largo de Santa Clara e hoje largo Primeiro de Dezembro, aí pelos anos 50 do século XIX. Recentemente vimos uma publicação centrada em volta deste local, quando falamos da Porta do Sol. Contudo, por desnecessário, não viemos espreitar atrás de uma pequena casa apalaçada que surgia na i3 e que é nada mais nada menos do que a fachada do edifício que aqui vemos encostado à esquerda, junto ao cruzeiro (ali colocado no ano de 1643, com uma inscrição datada de 26 de outubro[1]).

 

frflo.JPG

i1 -  A capela de Santo António do Penedo com a sua galilé que desapareceu em 1860, vinte e cinco anos antes da capela em si. As janelas assinaladas com o círculo no edifício atrás da capela servem de âncora com a i2. Notar: o curiosíssimo pormenor de podermos ver - caso muito raro! - um lampião da primitiva iluminação pública da cidade, anterior ao gás canalizado! Igualmente peço ao leitor que repare nas janelas superiores à galilé, que se encontram aparentemente cravejadas de balas: terá o edifício sido usado por atiradores durante o cerco?

 

Sem querer entrar na centenar história do pequeno templo, convém pelo menos referir o ano em que deixou de existir: 1886. Nesta data ultimava-se a rua Saraiva de Carvalho e este local bem como as redondezas sofriam alguns alinhamentos finais que moldaram o sítio à forma atual. Mas antes disso já a capelinha tinha sofrido alterações de monta que a modificaram substancialmente em relação à imagem que aqui vemos. 

 

Em 1835 a capela estava em ruína. O prédio seu vizinho foi vendido a um Manuel Teixeira Pinto que em 1860, num processo trabalhoso, conseguiu também a capela para si. O agora proprietário tratou de a adaptar ao uso que lhe pretendia e daqui adveio o último estágio evolutivo do monumento, poucos anos antes da destruição final: nivelou-a ao seu prédio do lado poente, demolindo o alpendre bem como a escadaria localizada em frente à sua frente (também visível na foto). Todo este terreno deixado livre foi à sua custa ajardinado, e mais algum de que entretanto se apossou... Mais pobre mas ainda com aspeto de capela, o seu interior foi a partir daí usado como dependência de arrumos do proprietário!

 

Quando quer a capela quer a casa que lhe estava contígua foram demolidas para desafrontar aquele espaço[2], foram por ali encontradas várias ossadas - o que é perfeitamente expectável - mas também várias moedas antigas do período filipino. O arco cruzeiro desta capela, de primoroso lavor, foi salvo da destruição tendo também ele sido remetido para o museu municipal a S. Lázaro. Mas, como refere Pedro Vitorino (ver aqui), quando o quiseram voltar a erguer na quinta do SMAS, o mesmo já se mostrava incompleto!

 

 

agpened.JPG

i2 - O local na atualidade. A parte do edifício onde se encontrava a PSP sinalizado pelo retângulo, ajuda a colocar mentalmente a capela de Santo António do Penedo.

 

Agora o local está como o podemos ver acima. Aqui como em quase toda a cidade, a teraplanagem, o rebentamento de penedos e o entulhamento, foram homogeneizando a paisagem citadina. Restam-nos algumas referências antigas, escritas ou visuais, que nos permitem reconstruir - sempre de forma parcial - o que outrora existiu.

 

(Nota final: os apontamentos históricos são extraídos do trabalho de F. A. Carlos das Neves, publicados n'O Tripeiro  ano 1, semestre 2.)

 

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1 - Sousa Reis fala em dezembro desse ano... O padrão referido, após a demolição da capela, foi recolhido no edifício da Biblioteca Municipal, que albergava à época o museu da cidade. Estará agora no Soares dos Reis?

2 - Veja-se os penedos em rocha viva que ainda aparecem na foto e não esquecendo que pelo menos já no século XVIII aqueles ou outros em seu redor haviam já sofrido desbaste, pelo que mais fragoso tudo à volta deveria ser...