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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Impressões sobre a igreja de Santa Clara.

14
Mar20

Hoje, caro leitor, deixo-lhe um texto simples de um crítico de arte inglês, escrito nos meados do século passado, quando o mesmo passou pelo Porto e visitou a nossa pequena mas lindíssima igreja de Santa Clara. Espero que vos agrade.

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«De manhã, antes que os meus companheiros acordassem, saí, dirigindo-me ao convento de Santa Clara. Um dos seus melhores encantos é não ser fácil de encontrar e, depois de descoberto, bem difícil de lá entrar. Tinhamos tentado na tarde anterior. A porta não pudemos então abrir, e de umas casinhas próximas apontaram-nos a entrada lateral, dizendo-nos que batessemos aí. Batemos, tornamos a bater, cabeças apareceram a janelas, mas ninguém desceu com a chave. De manhã foi outra vez a mesma odisseia, e por fim decidi ir dar um passeio, de que voltei um quarto de hora mais tarde para tornar a bater. Nesta porta, onde até é difícil de bater com força, tem de se procurar nas algibeiras[1] algum objeto de metal para o conseguir. Uma moeda será o mais apropriado, mas depois de algumas pancadas caiu-nos da mão e rola pelo pátio adiante. Só à quarta tentativa, se bem que ela tivesse ouvido logo de princípio e descido imediatamente em resposta ao nosso chamamento, uma velha abriu a porta lateral, de maneira para nós invisível porque parece não haver ali nem fechadura nem batente. A velha desceu ao pátio, trazendo a chave de Santa Clara na sua mão ossuda.

 

A julgar pelo exterior, ninguém envidaria esforço algum para entrar em Santa Clara, antes à primeira dificuldade se iria embora satisfeito. Porque nada há de notável na sua fachada.[2] Não há exteriormente sinais do seu fantástico interior doirado.

 

A portaria do convento, donde emergira a velha, tem um par de colunas salomónicas e há ali janelas gradeadas que sempre sugerem um certo recolhimento e expectativa. Mas logo no mesmo instante em que se entra na igreja, o encanto corta-nos literalmente a respiração. É uma airosa capela de construção medieval transformada num camarim de oiro. Mas a transformação não foi arquitetural, é a arte do doirador e do cenógrafo de altar, muito influenciado pelo teatro, ou, melhor dizendo, debaixo da influência da música sacra. Isto é uma manifestação inteiramente portuguesa, nada tendo a ver com os arquitectos italianos que trabalharam em Portugal, ainda que afetada pela ópera italiana e pintura cenográfica. É um êxtase ou delírio final e culminante do barroco; e é de notar que há qualquer coisa no temperamento dos portugueses em que o tema da freira na Virgem sagrada - particularmente se se tratasse de uma princesa ou senhora de grande merecimento que se unia em espiritual matrimónio com a Ordem das pobres clarissas - se revela de transcendente e dominadora inspiração. Já vimos isto em Braga, onde a Conceição era uma comunidade de Santa Clara, e havemos de a encontrar, novamente no convento de Jesus de Aveiro, e no de Arouca. São das mais encantadoras de todo o Portugal, e todas de idêntica inspiração. Debaixo do seus auspícios, a fantasia e a imaginação do estilo nacional, o manuelino, renasce. Para o encanto dos delirantes e transcendentes efeitos, o convento-capela de Santa Clara do Porto a todos supera.

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Há cinco altares da cada banda, e sobre eles grandes janelas de grades, através das quais sentimos postos em nós os olhares de desvanecidas religiosas.[3] Até a abóbada de pedra da capela ostenta grandes, doirados relevos que pendem dela, enquanto floreados de oiro se espalham e florescem sobre as nervuras góticas. Assim parece cair do teto uma densa chuva doirada. O altar maior tem um enorme arco triunfal, de toda a altura da capela, com doiradas imagens de tamanho natural fazendo guarda sob doirados locais. Por detrás deste, o retábulo-mor é uma fresta de oiro nesta câmara dourada. Podemos bem passar aqui uma estirada hora, estudando o labirinto doirado que na sua espiritualidade é prolixo, como as esculturas de um templo Hindu da idade do oiro. Por cima e por detrás do altar, os assentos doirados diminuem, degrau a degrau, e parece subirem incessatamente, como trepando por uma fita, ou como cascata de vidro sobre um relógio, que esvoaça e se move, aqui transformado em celestial argumento de uma escola para o Paraíso.

 

Mas a beleza suprema de Santa Clara é o coro alto. Como se apresenta tão maravilhosamente encerrado o mistério do oiro! É aí que a inspiração poética, emanando do tema da virgindade santa, atinge o seu apogeu. Só tem paralelo nas capelas do convento de Santa Rosa e Santa Clara em Querétaro, no México, [... ...] ... o mistério do coro alto de Santa Clara do Porto. Porque o mistério é impenetrável. Do pavimento da capela é impossível todo o pormenor. É, na verdade, uma lição de como proporcionar efeitos de mistério, apesar de que não conseguimos saber como tal se conseguiu. Só temos a impressão de pálidas, desvanecidas formas doiradas e relevos por detrás das grades. Deve haver aí cadeirais para as freiras, um trono para a abadessa, altos espelhos dourados, mas nada se pode afirmar. Uma área de requintada e arrebatadora essência desde do coro das freiras.

 

Do mais que possa existir no convento de Santa Clara, não o sabemos. Talvez que no seu rosto de pobreza as freiras tudo gastaram na sua capela. Ou será a parte escondida do convento tão romântica como o de Jesus de Aveiro? Outro mistério de Santa Clara, é a dificuldade de o datar em pormenor. A talha doirada parece ser de todo o período que vai de 1680 até ao terceiro quartel do século XVIII. Tudo bem considerado, diremos que é um teatro sacro ou, mais precisamente, uma casa de ópera sagrada. E em face dele, qualquer outro monumento do Porto, incluindo S. Francisco, é ermo e triste [... ...]. É triste deixar o Porto, sem saber quando se tornará a admirar o camarim dourado de Santa Clara! »

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Extrato do livro Portugal and Madeira, de Sacheverell Sitwell, publicado em Londres em 1954. Tradução de Eugénio Andrea da Cunha e Freitas, surgida n'O Tripeiro, série VI, ano XI.

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1 - Esta palavra e o constante surgir do ditongo oi por ou são sintomáticos de um texto traduzido por um lisboeta, ainda que um apaixonado pelo Porto e pela sua história e que muito fez por a divulgar.

2 - Que reparo injusto!

3 - Tive a felicidade de me sentir da mesma forma na igreja de Santa Clara do Funchal, de estrutura algo semelhante à nossa, quando no final de um concerto de cravo pude testemunhar três vultos escuros vestidos com hábitos de freira, de pé no coro alto, olhando cá para baixo. Fiz, mentalmente e por breves segundos, uma viagem ao tempo em que tal realidade era comum (o convento está ainda hoje a cargo de uma Ordem religiosa feminina).

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