Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Manuel Luis Sentieiro e o seu restaurante

por Nuno Cruz, em 29.04.18

O apelido Sentieiro será porventura apenas uma nota de rodapé na história desta secular cidade. Ele entra nos pergaminhos municipais pela mão de Manuel Luis Sentieiro, um portuense da segunda metade do século XIX. Já aqui se referiu o seu nome como receptador de uns vasos de pedra que adornavam o largo do Souto, quando eles foram dali removidos por extinção daquele largo para dar passagem à rua Mouzinho da Silveira[1].

 

sentie.jpg

i1 - pormenor da planta de Teles Ferreia que nos mostra a rotunda da Boavista onde se vê o chalet que albergou o restaurante (R). Ao lado dele a Estação de Caminho de Ferro (E) e a entrada da rua das Pirâmides, atual avenida de França (F). Mais ao lado encontra-se a rua das Valas, atual rua de Nossa Senhora de Fátima podendo-se ver também parte da avenida da Boavista e do Hospital Militar (c. 1890).

 

Sobre o restaurante que o mesmo possuíu na praça Mouzinho de Albuquerque, dá-nos Horácio Marçal estas preciosas notas n' O Tripeiro, Série VI, ano X, p. 298:

« Pouco depois de inaugurada a Estação da Boavista, montou Manuel Luís Sentieiro, aí por 1875, num terreno a ela contíguo e a fazer esquina com a então rua das Pirâmides (atual avenida de França), um restaurante que em pouco tempo, mercê do apurado requinte culinário, atingiu invulgar reputação no meio citadino. O edifício, que bem conhecemos, era em forma de chalet, com jardim florejante na frente cercado de gradeamento de ferro e respetivo portão de acesso. Nas traseiras, havia um frondoso quintal com dilatado caramanchão de ferro envolvido por odorosas trepadeiras, sob o qual e sob um túnel de japoneiras, nos dias e noites quentes de estio, eram servidas as soculentas refeições. A aprazibilidade do lugar, está-se mesmo a ver, era um dos motivos básicos do chamariz.

 

aer.png

i2 - Fotografia aérea daquela zona, agora já bem mais preenchida de construções e regularizada, sobresaindo o conjunto da remise da Boavista à esquerda (área ocupada pela Casa da Música e prédios de habitação). Repare-se que o edifício do restaurante, extinto já há muito, ainda existia (c. 1940).

 

O proprietário, que simultâneamente explorava a Serralharia Sentieiro sita na rua da Vitória, entre os Caldeireiros e a rua do Ferraz, por motivos por nós desconhecidos, resolveu encerrar o restaurante. Por falta de frequềncia, por certo, não foi. A razão seria outra.

 

serrsent.jpg

i3 - Timbre da Fundição da Vitória, propriedade de Manuel Luís Sentieiro (AMP)

 

Quando, o Restaurante Sentieiro fechou as suas portas, formou-se uma comissão de moradores da Boavista (...) e ali fundaram o Clube da Boavista, com jogos de vaza e bilhares, para entretenimento dos seus associados. Porém, teve uma existência efémera, muito breve mesmo. Depois foi o chalét aproveitado para instalação dos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Póvoa e mais tarde, pelos anos vinte [do século XX] serviu para habitação do pessoal da mesma companhia. Atualmente [1970], como pode observar-se, apenas resta o terreno plantado a couves galegas, bem como o gradil de ferro exterior e o portão principal, que conserva ainda no alto, sob o remate, em letras de ferro fundido o apelido do antigo proprietário do restaurante - Sentieiro. »

 

rotboa.jpg

 i4 e i5 - Outro aspeto da praça Mouzinho de Albuquerque, mais à frente no tempo do que o anterior. O cenário é idêntico ao que Horácio Marçal descreve: de tudo o que ali houve resta apenas o muro de entrada para o antigo chalet e o terreno convertido numa pequena horta.

ceusent.JPG

 

Sobre este indivíduo diz-nos J.M.G. Viana (Gonçalves Viana?) em 1926, no 1º ano da 3ª Série d' O Tripeiro (a p.78) , em resposta a uma pergunta de um leitor:

« Este cavalheiro, que foi um grande orador de comícios eleitorais de propaganda do partido progressista, teve efetivamente uma pequena oficina na rua da Vitória, não de ferreiro mas de serralheiro. A sua ação na política deu-lhe recursos monetários para ser o arrematante em 1873 ou 1874 do gradeamento que existe na rua da Nova Alfândega até Monchique[2], e também para montar uma regular fábrica de fundição de ferro junto à serralharia na mesma rua da Vitória[3], antes de estabelecer o restaurante na Boavista. (...) »

 

sentieir.jpeg

i6 - Única imagem que me foi possível obter do gradeamento que pertencera ao restaurante, de fraca qualidade e tapada por sinalética rodoviária, é de meados dos anos 90 do século passado. (foto youtube)

 

pfora.jpg

i7 e i8 -  Aspeto atual que apresenta o local. Parte dele parece ter sido expropriado para alargar a entrada da avenida de França. Longe vai já o período do frondoso quintal repleto de vegetação, à sombra da qual eram servidas as refeições. Nem mesmo couves galegas por ali nascem! Mas estarão os precisoso vasos da extinta praça de S. Roque escondidos no meio do matagal? (fotografias do autor)

pden.jpg

 

____________________________________

1 - Na licença de obra n.º 327 de 1877 para «Construir portão de entrada e gradil» no Arquivo Municipal do Porto, consta Manuel Luis Sentieiro como proprietário. A esperança que tinha de nesse pedido puderem estar desenhados ou mencionados os vasos revelou-se vã; trata-se de uma planta de um gradil - o mesmo que lá se encontrava até há poucos anos - perfeitamente de acordo com a estética dos finais do século XIX, conforme tantos ainda por aí se vêm, mas sem os vasos presentes. Estariam eles já interior do terreno e parecem mesmo figurar na planta de Teles Ferreira(?).

2 - No Arquivo Municipal do Porto verifica-se que o Sr. Sentieiro contratou pelo menos mais dois trabalhos com o município, ambos em 1889: a construção de três urinóis em ferro e a grade de ferro que resguardava um muro no cemitério de Agramonte.

3 - Com esta fundição está provavelmente relacionada a construção de um prédio na rua da Vitória registada na Câmara com a licença de obra n.º 195 de 1879, onde Manuel Luis Sentieiro consta como proprietário.

 

____

Última modificação: 02.07.2018

2 comentários

Comentar post