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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O acontecimento que tornou possível o Palácio da Bolsa

01
Mai16

O Palácio da Bolsa, um dos ex-libris da cidade do Porto, é um edifício excecional sobre vários aspetos. Era também, pelo menos antes do boom do turismo, o monumento da cidade que mais visitantes recebia. Acredito que a maioria dos caríssimos leitores saberá que a sua existência apenas se tornou possível, na forma em que se encontra, devido a um acontecimento trágico. Esse acontecimento, relatado de forma algo novelística, surge relatado no periódico liberal Chronica Constitucional do Porto de 3 de agosto de 1832:

 

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a última fase da metamorfose exterior do convento no Palácio da Bolsa ainda foi captada em foto. aqui se vê ainda algumas das paredes calcinadas do convento (a vermelho), perdendo terreno para a obra nova (azul)

 

«O outro facto teve lugar nesta cidade do Porto na noite de 24 do corrente (...).
Haviam os malvados [miguelistas] ajustados com os falsos ministros da religião que, se S.M.I. triunfasse naquele dia [batalha de Ponte Ferreira], os seus emissários dariam um alarme à cidade para pôr em desordem e confusão seus pacíficos habitantes; e se este alarme não tivesse resultado, as tropas da rainha fossem queimadas nos conventos quando recolhessem à cidade; e para mais facilmente o conseguirem, os frades nessa noite dariam vinho em abundância aos soldados.
Não produzindo o alarme o efeito que os rebeldes esperavam, teve lugar a distribuição de vinho, mas os comandantes das companhias não consentiram que os soldados bebessem senão mui pequena porção.
O convento de S. Francisco, onde estava aquartelado o valoroso batalhão 5º, quando os soldados começavam a descansar das fadigas da batalha, começou a arder nos quatro ângulos e em poucos minutos foi geral a conflagração; havendo fugido alguns frades que estavam no segredo nefando, e indo um deles levar a Penafiel a notícia que foi ali muito celebrada por esses hipócritas que se dizem amigos do trono e do altar.
A divina providência, que vigia sobre nós, que protege, salvou aquele bravo batalhão, que perdeu três soldados devorados pelas chamas, perda sensível para todo o homem de bem, que vê indignado os meios infames e imorais de que se serve o crime e a irreligião para fazer guerra à fidelidade e à virtude.
Deve mais acrescentar-se que os frades incendiários não se embaraçaram com a Santa Eucaristia que seria reduzida a cinzas se um soldado do mesmo batalhão 5º acompanhado de Mr. S. Leger, ajudante de campo de S.M.I. [e conde da Bemposta], não se arremessassem por entre as chamas, tirando os sagrados vasos do sacrário, e entregando-os ao ministro da religião com todo o respeito e acatamento devidos. (...)»

 

No dia seguinte mais pormenores são dados:

«Na noite de 24 para 25 de Julho passado os frades do convento de S. Francisco desta cidade, da província dos Menores Observantes de Portugal, receberam com os braços abertos os soldados do batalhão de caçadores nº 5 (...) [que] desconfiaram logo da sinceridade e cordialidade da receção, e a tiveram por hipocrisia que escondia alguma negra traição, e não se enganaram nos seus juízos. Os frades (...) também de generosos, abriram suas adegas, e ofereceram aos soldados quanto vinho quisessem beber. Mas a prudência aconselhou a desconfiança, e esta providenciou por tal forma que não se consentiu a cada um soldado beber mais que uma pequena porção de vinho (...).
Pela meia noite foram vistos sair dous frades do dito convento, e após estes mais alguns outros. Passada meia hora o fogo se ateou nos quatro ângulos do edifício, que inteiramente ardeu. Muito grande foi a confusão e muito custou a livrar os soldados do incêndio, e a despeito dos maiores esforços e diligências dous pereceram nas chamas; outros dous despedaçados por se precipitarem das janelas; e dous finalmente das queimaduras no hospital. o resto da comunidade via e observava a sangue frio este horrendo e doloroso espetáculo! A indiferença e a frieza com que estas frades viam arder o seu convento, queimar alguns bravos defensores da liberdade e da rainha; o abandono em que deixavam no sacrário da igreja os vasos sagrados com a sacrossanta eucaristia, sendo possível salvá-los, aconselhou a autoridade a lançar mão deles e foram presos. (...)
Por não haver vento o incêndio limitou-se no convento predito; de outra sorte toda a cidade arderia, ou pelo menos grande parte dela, atenta a situação do edifício. (...)»

 

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entre a igreja conventual e a da ordem terceira podemos ver a antiga portaria do convento, tudo o que restou do aspeto exterior setecentista, da casa franciscana

 

Assim foi que, passado o estado de guerra civil e com D. Miguel fora do país, foi em 1834 o edifício do convento cedido à Associação Comercial do Porto, para nele instalar a praça do comércio, que até aquela época se fizera ao ar livre, na rua do Infante (a entrega definitiva só ocorreria em 1841). Finalmente, em 6 de outubro de 1842 era colocada, no cunhal entre a rua de D. Fernando (rua da Bolsa) e rua Ferreira Borges, a primeira pedra do que viria a ser o Palácio da Bolsa.

 

Do convento franciscano pouco ficou: alguma parede aqui ou ali, a arcaria do antigo claustro, a escadaria junto à portaria (esta última, praticamente intocada); e a igreja, que em bom rigor vale bem mais do que o restante. Contudo, graças a esta calamidade pôde nascer um dos, sem dúvida, mais belos edifícios da cidade.