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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

O dia em que a Torre dos Clérigos estremeceu...

01
Mar21

Esta publicação, embora curtinha pois que resulta de um arrumo que estou a fazer nos meus verbetes e notas, será ainda assim surpreendente para alguns dos meus leitores.

Existe um volume pouco conhecido de Henrique Duarte e Sousa Reis intitulado Apontamentos para os Anais da cidade do Porto 1832-1839, que aliás já aqui referi, com muitos interessantes informes para a história da cidade, para o período em que dura a guerra civil e os primeiros caóticos anos subsequentes. Neste volume, Sousa Reis introduz, através da data, o assunto ou assuntos que vai tratar, numa letra que chamaremos hoje regular. Depois, em parágrafo seguinte, numa letra diferente mas da sua inteira lavra, escreve uma explicação, deduz um raciocínio, aponta um caminho...

Assim, e para mostrar o meu respeito pelo legado, embora não mantendo a ortografia original, apresentarei os parágrafos com essa separação visual, reservando o itálico para o segundo. E sem mais delongas, segue o dito verbete, que termina de uma forma humorística (ainda que se fosse eu o envolvido, não ganharia para o susto!)

Screenshot_1.jpg

«3 de Setembro [de 1835]. Na noite que precedeu este dia caiu um raio elétrico sobre a cúpula da Torre dos Clérigos e lhe destruiu algumas pedras e bem assim as pirâmides que a rematam pelo lado do sul, abalando o globo de cobre sobre o qual se hasteia a cruz de ferro que está colocada no mais alto da dita torre, estragos estes que na sua restauração custaram avultada soma de cabedal à Irmandade dos Clérigos Pobres, a quem pertence este majestoso edifício. Sofreram bastante dano algumas casas sitas na rua da Assunção sobre as quais caíram grandes pedras quebradas pelo raio; uma centelha ou faísca perdida[?] na casa dos Wanzellers em Vilar e outra na torre do mosteiro das religiosas de Santa Clara correndo em várias direções destes dous edifícios pequenos danos causaram mas não o deixaram de fazer com grande susto dos seus habitadores.

 

O nenhum uso que esta cidade se faz dos condutores, maiormente quando o Porto é assente sobre altos montes, sujeita-nos a estes acontecimentos, é verdade que não muito amiúde, porém se os houvera talvez nem esses poucos sucessos se dariam: no edifício da Bolsa recentemente[1] colocaram alguns condutores. É notável o que aconteceu com o raio entrado pela Torre dos Clérigos que descendo por ela abaixo entrou no aposento do padre sacristão, e lambendo-lhe algumas moedas de bronze, a que se dá o nome de patacos, e ele tinha sobre a mesa do quarto onde ele dormia nenhum dano lhe fez, porém sumiu-lhe um botim por ter o tacão ferrado, deixando-lhe o outro não obstante ser-lhe igual.»

 

Post Scriptum: No dia seguinte à publicação, tive a alegria de a ver valorizada e complementada pela página de FB da Torre dos Clérigos, com a partilha da documentação referente a este episódio da vida do monumento. A eles o meu obrigado, ao leitor interessado em saber mais pormenores, aqui fica a ligação:

https://www.facebook.com/torreclerigos/posts/3546232685486540 

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1 -  A julgar por outras datas presentes neste volume, o autor escreve nos anos sessenta do século XIX.