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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O estado de ruína da Igreja da Graça em 1872

09.09.13

A igreja de Nossa Senhora da Graça foi parte integrante do Colégio dos Órfãos, fundado pelo padre Baltasar Guedes, após muitos sacrifícios, no ano de 1651. O colégio veio a ser erguido no local onde já existia uma ermida da mesma invocação que a lenda diz ter sido fundada pela rainha dona Mafalda, mulher de dom Afonso Henriques (a imagem original desta ermida foi colocada num nicho por cima do sacrário do altar-mor da nova igreja).

 

A igreja da Graça teve a sua primeira pedra lançada em 21 de novembro de 1651, tendo a câmara municipal contribuído com vinte mil reis para o arranque das obras.[1] A igreja ficou com onze altares e num deles encontrava-se a Senhora da Conceição, pertencente ao regimento dos militares da cidade, numa irmandade instituída em 1697 pelo coronel António Monteiro de Almeida,[2] tendo a sua celebração própria no quarto domingo de agosto, «com todos os cultos eclesiásticos militares». A primeira pedra do dormitório foi apenas lançada em 21 de novembro de 1653, e o colégio só começou a receber água em 23 de junho de 1649(!), retirada do aqueduto que vinha de Paranhos. 

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i1 desenho de Joaquim C. V. Vilanova, de 1833, que nos mostra a Academia a ser construída. Em segundo plano, a cinza, vemos a fachada da igreja da Graça e parte das instalações do colégio. A vista é tirada da atual praça de Parada Leitão, com o artista a dar as costas ao famoso Piolho.

 

Baltasar Guedes morreu a 6 de outubro de 1693 e foi sepultado «no pavimento da porta travessa que sai da igreja do colégio para o claustro». Numa parede próxima gravou-se o singelo epitáfio: Aqui jaz o primeiro reitor e fundador deste colégio dos órfãos Baltazar Guedes a seis de outubro de mil seiscentos noventa e três. Como legado perpétuo, aos seus sucessores deixou a obrigação de se cantar «uma missa de requiem pelas almas dos justiçados, com cinco responsos no lugar de suas sepulturas, que é de fora da porta do Olival, abaixo da primeira torre do muro à mão direita da parte do sul[3], onde os vão rezar em comunidade os mesmos meninos órfãos com o seu padre vice-reitor em uma capela que está junta ao mesmo cemitério» (curiosamente, Baltasar Guedes recomendou  também aos seus  sucessores que não escrevessem testamentos nem fossem testamenteiros, para se não tornarem odiosos!).

 

Os tempos foram passando e as necessidades civilizacionais também. O local onde se encontrava o colégio dos Órfãos foi sendo ocupado por um novo edifício, que esteve quase um século semi-construído, uma vez que as edificações do colégio e da igreja ainda se mantinham. Falo, é claro, da atual Reitoria da Universidade do Porto, cuja finalidade, nome e traça foram evoluindo ao longo do tempo (o projeto inicial é de Carlos Amarante:  1807).

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i2 desenho de Joaquim C. V. Vilanova, de 1833, vista do lado da Cordoaria. Neste ângulo, da igreja, é apenas visível o topo da torre sineira. Vêm-se no entanto vários dos seus edifício (à esquerda na imagem). É claramente visível a aglutinação de toda aquela área pelo novo edifício.

 

Na vereação de 31 de Janeiro de 1872,  dá-se indicação do estado de ruína da Igreja da Graça nestes termos: «(...) o Sr. presidente informou os Srs. vereadores de que assistira, bem como o arquiteto da câmara, o Sr. Gustavo, a um exame a que, pela direção das obras públicas se procedera na igreja da Graça, e pelo resultado dele se verificara que aquele templo, se achava em estado de ruína, como melhor poderia informar o Sr. Gustavo. Chamado este senhor, relatou que tanto a frente da igreja como a parede do sul e parte da do norte ameaçam ruína, achando-se as paredes desaprumadas, e com grandes fendas. Que o coro principalmente oferecia mais eminente perigo de ruína e que finalmente toda a igreja estava em mau estado de segurança, como ele próprio verificara bem como os outros peritos que tinham assistido ao exame. O Sr. presidente, continuando, disse que, ouvida a informação dada pelo Sr. Gustavo, era de necessidade representar-se o mais breve possível ao governo sobre este assunto, atendendo a que as obras que houvessem de fazer-se para reparar o templo seriam muito dispendiosas e nada aproveitariam em consequência do referido templo ter mais tarde de ser demolido para a continuação das obras da Academia.

Propunha, portanto, que se representasse ao governo no sentido de que em primeiro lugar ordene desde já que os exercícios religiosos da corporação dos meninos órfãos se faça na igreja dos Terceiros do Carmo, fechando-se a da Graça, pelo estado de ruína em que se acha, e em segundo lugar para que o governo destine outro edifício para onde se mude o colégio dos órfãos, visto a casa em que actualmente está achar-se também muito arruinada e não ter as condições precisas.

Foi aprovada a proposta do Sr. presidente, devendo a representação ser acompanhada do auto que os peritos terão de lavrar em resultado do exame, bem como da informação do arquiteto da câmara. (...)»

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i3 desenho de Joaquim C. V. Vilanova, de 1833, vista do lado "dos Leões".  Aqui se torna mais perceptível o local onde se encontrava a igreja. Ela ocupava a área onde hoje podemos ver, dentro do edifício, a receção da Reitoria e por trás dela a belíssima escadaria em mármore rosa que dá acesso ao primeiro piso.

 

No entanto, ainda em 1879 se escrevia no relatório da câmara:

«Desde janeiro do ano findo que na igreja do colégio se não celebra o culto em consequência do aviso que recebi do Exmo. Sr. vice-presidente José Augusto Correia de Barros, por não estar em boas condições de segurança, correndo o risco de algum desastre. Com pesar meu, ordenei que se fechasse, porque, sendo ela necessária para o cumprimento de legados, a que o colégio é obrigado, a educação religiosa dos alunos, era ao mesmo tempo uma fonte de receita, que por tal modo cessou. Bom seria que a excelentíssima câmara autorizasse alguns reparos de que o templo carece, os quais, por informações que tenho, não seriam muito dispendiosos, abrindo-se de novo à veneração pública, se é que não está para já a mudança dos órfãos da casa em que vivem para uma outra sua própria, como é a que presentemente possuem».

 

E da facto, na década de 70 do século XIX os órfãos que ali viviam já se encontravam em condições deploráveis, em penumbra completa (rodeados pelo edifício novo) e quase abafados. Contudo, só no penúltimo ano do século XIX é que a igreja, ou o que na altura sobrava dela e das restantes dependências, foram demolidas para possibilitar a finalização do edifício que já vinha, aos poucos e ano a ano, a digerir  a obra que a Baltasar Guedes tanto custara a erguer. Os orfãos,  que entretanto já dali havia saído para outros edifícios provisórios, foram finalmente instalados no antigo seminário diocesano, que após sofrer obras - por se encontrar em ruínas - os albergou a partir de 1903.

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i4 parcial de uma panorâmica do século XIX. Nela vislumbra-se o topo da igreja de graça (1) e ao lado o edifício da Reitoria ainda incompleto (2). Por curiosidade, assinalo igualmente outras estruturas entretanto desaparecidas: os celeiros da cidade, depois substituídos pelo Mercado do Peixe (3), o antigo Hospício dos padres de Vale da Piedade, onde durante muitos anos esteve instalada a Roda dos Expostos (4) e finalmente a capela do Calváro Novo que por esta altura estava já reduzida a armazém (5). Todos estes três edifícios deram lugar ao eenorme complexo do Tribunal da Relação do Porto.

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1 - E sobre a proteção de dona Catarina de Bragança, que chegou a ser rainha de Inglaterra.

2 - É possível que este coronel seja o mesmo que teve o seu nome gravado numa pedra colocada na Porta Nova.

3 - Será este o famoso campo das Malvas, onde se veio a erguer a igreja e torre dos clérigos.