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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O largo de S. Roque e a sua capela

por Nuno Cruz, em 07.04.18

De novo trago duas publicações que estavam alojadas na casa antiga d' A Porta Nobre. Como sempre faço nesta situação aproveitei para rever o texto, ficando este acrescido de uma pequena novidade que não constava anteriormente...

 

1ª parte

Em 1756 a capela de S. Roque existente em frente da galilé da Sé Catedral foi demolida por se encontrar arruinada em consequência do terremoto do ano anterior. Por essa altura, e já na vigência da Junta das Obras Públicas (dirigida pelo "homólogo" de Sebastião José de Carvalho e Melo no Porto, seu primo direito João de Almada e Melo) se pensava em erradicar os pelames do Souto do centro da cidade. Com efeito essa tão poluente indústria fora sempre relegada para o limite das povoações, não sendo disso o Porto exceção. Contudo, o que na época medieval era um local relativamente afastado ou pelo menos isolado da maioria dos vizinhos, tornara-se no século XVIII absolutamente central e era agora impensável numa cidade que se queria moderna e higienizada, manter esta situação. Assim, foi a indústria dos pelames obrigada a transferir-se para as Fontainhas (à época lugar praticamente ermo) e os aloques onde por séculos se haviam curtido peles e couros para a cidade, desativados e destruídos. No seu lugar foi construída uma bonita - ainda que pequena - praça denominada praça de Santa Ana ou largo de S. Roque e mais tarde, já no século XIX, largo do Souto.

 

E o que tem a capela de S. Roque a ver com isto, perguntará o leitor? Bem, é que uma vez que a capela original fora demolida pelo seu estado de ruína, foi a nova capela de S. Roque edificada ao centro desta bonita praça. O traçado da praça e o desenho da capela deve-se a Francisco Pinheiro do Cunha, com o início dos trabalhos em 1767 prolongando-se até 1773. O desenho de Villa Nova (i1) que a mostra é sobejamente conhecido. E felizmente restam-nos um par de fotografias da praça, capela e fonte, ainda que as mesmas sejam de fraca qualidade.

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 i1. A Praça de S. Roque no belíssmo desenho de Vila Nova

 

Mesmo com a ajuda das plantas não ficará muito explícito ao portuense do século XXI onde se situava esta praça e sobretudo como se orientava no espaço, porque hoje nada dela resta. E ao contrário do que já vi escrito algures, o paredão à entrada da rampa que soube para a rua do Souto não é o que resta desta praça. Não me apoio em documentos para afirmar isto tão categoricamente; mas apenas na comparação das plantas do antes e depois. Na realidade ele está, relativamente a esta imagem, no seu canto direito e quanto muito poderia ser a parede traseira das casas da escadaria desse mesmo lado.

 

Ainda assim nem tudo o que na imagem se vê desapareceu... Ainda algo dela existe que nos pode ajudar a situar o local e a forma. A rua dos Pelames ainda lá se encontra meio escondida e a atual fonte monumental (localizada onde por séculos num penedo ali existente persistiu a tal indústria nauseabunda de curtumes) a sustentar essa mesma rua e umas casas que desde algum tempo se me afiguravam "suspeitas"... Mas creio que não há que enganar: elas ajudam, sem recorrer a plantas e à nossa imaginação, a situar aquela pequena mas bela praça, que um dia (1877) cedeu o seu espaço para que o progresso chamado rua Mouzinho da Silveira chegasse em toda a força. Peço que confiram a minha afirmação olhando para a imagem i2. Convido igualmente o leitor concordante ou discordante a deixar a sua opinião.

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  i2. Comparativo entre a época em que existia a praça e a atualidade, com a rua Mouzinho da Silveira. O aspeto mais importante a reter é o conjunto de habitações na rua dos Pelames, que proporciona uma ponte magnífica entre o passado e o presente.

 

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i3. Já na imagem anterior assinalei um outro pormenor que agora desenvolvo. É que, segundo a memória de um tripeiro que conheceu ambas as realidades, os balaústres da fonte monumental são os que originalmente ornavam a escadaria da praça de S. Roque!

 

 2ª parte

Num artigo da Revista O Tripeiro, na sua 1ª série (1908-1911), a p.124 do vol. 2, revela um certo C. L. estas curiosas notas:

 

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante Sentieiro, na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosíssimo largo do Souto.

 

O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lajeado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era! E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo. Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga [i4] com cunhal que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.

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i4. Eis a "nesga" restante do antigo largo do Souto. Pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela? Exatamente por baixo passa o Rio da Vila (que na verdade apenas passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior, num troço antes da rua da Ponte Nova).

 

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i5.  O que restava do largo do Souto nos meados dos anos 80 do século XIX (n.º 2). O n.º 1 indica o edifício da Adega do Olho e o n.º 3 uma casa que se projetava construir no local outrora ocupado por parte da escadaria que subia para a capela, onde aparentemente se vêm ainda alguns restos (atente o leitor na curvatura).

 

Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...». Esta casa com a padieira em arco ainda hoje se encontra na rua Afonso Martins Alho, sendo uma das poucas que sobreviveu do antigo largo por ser desnecessário expropriar para alinhamento da rua Mouzinho da Silveira (i6).

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i6. Casas sobreviventes do antigo largo do Souto assinaladas de 1 a 4, a casa 2 possuí o arco referido, que dava acesso à viela do Cadavai. Todas elas fazem hoje parte da rua Afonso Martins Alho.

 

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i7. O rio da Vila parcialmente "à vista" ainda que bastante escondido por uma rede, aquando da obra de requalificação do eixo Mouzinho-Flores. Fotografia de Abril de 2013 na rua Afonso Martins Alho, que o ribeiro atravessa (e não o leito da rua do Mouzinho como normalmente se refere).

 

Num artigo mais extenso (que transcrevo truncado) um senhor de nome João G. Oliveira e Torres descreve-nos muito bem este largo:

 

«... Era a praça ou largo do Souto, pelo lado do nascente, de forma semi-circular e encostava-se perfeitamente aos rochedos que formam o alto dos Pelames em seguida ao Corpo da Guarda; e neste lado foi que a Câmara mandou edificar a capela.

 

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i8. O largo representado na planta para a rua do Mouzinho, a amarelo as casas que sobreviveram, a vermelho o local onde agora temos a fonte monumental. Os pontos azuis indicam o rio da Vila.

 

Era ela exteriormente de forma oitavada e ficava como que encravada na parte central da frontaria; era de boa perspectiva e lindo gosto, e a respeito da qual o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, se exprime assim: "... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lajeada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."

 

O edifício era todo de pedra lavrada e tinha, por assim dizer, dois corpos: no primeiro sobrepujava-o uma cornija que corria pelas oito faces, e sobre este, mas mais dentro, assentava outro corpo de pouca elevação, que rematava em abóbada, sobre a qual se elevava um formoso zimbório por onde se coava a luz. (...) Ao lado do sul e pegado à capela existia uma pequena sacristia, onde o eclesiástico se paramentava, e em um armário com gavetões se guardavam os poucos paramentos e objetos do culto que possuía, e que pertencia a uma confraria a qual estava a cargo o culto e festividade de S. Gonçalo, confraria composta, na maior parte, de latoeiros que por aquelas proximidades moravam. Além desta festa, também alguns anos ali se festejou ruidosamente a imagem de S. Vicente Mártir.

 

(...) No largo havia feira às terças e sábados, de linho e seus derivados, como: estopa, tomentos e cobertas às riscas. Quando dali saiu o mercado os feirantes opuseram-se, e só em presença da guarda municipal é que submeteram a ir para o Bolhão, lugar que a Câmara lhe designou e onde atualmente se conserva.

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I9. O largo do Souto antes da hecatombe. A "micro" rua Afonso Martins Alho surgirá do desmembramento da rua do Souto, após o desaparecimento do largo.

 

Se nos últimos tempos o padroeiro S. Roque teve festa, não sei; o que sei é que as imagens que lá conheci eram: S. Roque, S. Gonçalo, S. Vicente e a Virgem das Dores. (...)

 

Falemos agora do edifício. A pedra, que era de boa esquadria, as escadas e o tanque, tudo foi empregado nas obras da nova rua Mouzinho da Silveira. Os balaustres foram aformosear a parte superior do arco da fonte da mesma rua, e a água que caía no tanque, dizem ser agora a de uma das suas duas bicas. A figura de granito que cavalgava o golfinho, e por muitos anos fora o enlevo dos rapazes e talvez o cismar das raparigas, essa dei-me ao trabalho de a procurar, e por fim encontrei-a. Pouco depois da demolição da capela, era voz pública que aquela estátua fora, por ordem da Câmara, recolhida ao seu edifício, visto que ela era a proprietária de todo aquele monumento; mas passados alguns anos, mandaram-na para um recinto que há junto da casa da Desinfeção Municipal. Aí me dirigi; mas já a tinham removido para as traseiras das obras em construção, lado norte da Biblioteca Municipal. Entre ruínas de arquitetura e destroços de escultura fui encontra-la; mas em que estado? como diria o poeta: nem sei como de nojo o conte! Estava mutilada, sem cabeça, sem um braço, sem um pé, servindo de calçar um pequeno muro, como coisa de nenhum valor! A monte, talvez por se julgarem nulidades, ali encontrei brasões mutilados, cruzes lascadas, taças de fontes incompletas, capitéis partidos, e outras muitas peças truncadas que davam o aspeto de um grande cataclismo

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i10. A capela e a sua pequena sacristia ao lado. Por baixo da capela está o tanque que dava de beber às pessoas e aos animais que por ali passavam.

 

Houve ideia de se aproveitar a capela e coloca-la em outro lugar; nesse sentido se empenhou uma comissão de influentes religiosos e políticos, com a Câmara para lhe permitir reconstrui-la na rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxílio em outro lugar que se escolhesse. Os influentes em vista disto, desistiram do seu propósito.

 

E assim desapareceu a capela, espalharam-se as imagens, mutilou-se a estátua, tudo se desfez, e deste naufrágio apenas escapou a devoção de S. Gonçalo cuja imagem, colocada na igreja dos frades franciscanos, é um símbolo de fé, uma memória de piedosa crença dos portuenses.»

 

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Esta publicação agrega duas originalmente colocadas no blogspot em 12.01.2017 e 09.02.2016, tendo sido revista para esta republicação.