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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O 'macadam' segundo Arnaldo Gama

04.01.20

Esta publicação poderia perfeitamente encaixar no blogue que extingui denominado O Porto de Oitocentos[1]. Trata-se de uma passagem de um famoso livro de Arnaldo Gama intitulado Um motim há cem anos. Nesta obra Gonçalo Antunes é um antiquário e investigador, amigo fictício(?) do narrador que este visita no Hospital do Carmo onde o Sr. Antunes residia havia dois anos. Na parte introdutória da história que o mesmo irá contar, discorre a personagem sobre a inovação do macadam que chegou às ruas do Porto por meados do século XIX e que nunca acolheu o agrado geral. Pelos anos 80 do mesmo século iniciou-se finalmente a sua substituição gradual por paralelepípedos de Canelas, sistema ainda hoje utilizado.

 

 

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«- Antes de lhe chamar a atenção para a localidade, onde, ainda há pouco tempo, existia uma das mais importantes antigualhas do Porto, deixe dizer-lhe duas palavras a respeito do sistema de calçar as ruas usado em 1757. Nesse ano o Porto ainda não tinha a felicidade de ter ruas macadamisadas. Os pobres diabos dos tripeiros ainda não haviam tocado aquele grau de perfeita civilização, que lhes deu em resultado um sistema de pavimentar ruas, que, chovendo, os faz caminhar por entre lama até o joelho, e, fazendo vento, cospe de si turbilhões de poeira que os suja, e que os cega[2]. Em 1757 as ruas do Porto ainda eram calçadas por grandes e lisas pedras do magnífico granito, com que a natureza lhes fecundou o solo. Era um salão continuado; o pavimento das ruas atestava a opulência desta rica cidade. E assim se conservaram por mais trinta anos seguidos, até 1787, em que a câmara, em atenção à comodidade das carruagens, substituiu a obra majestosa dos nossos passados por um pavimento de seixos roliços, que no Porto se chamavam então burgos, e hoje se chamam bôgos. Deles ainda restam vestígios em algumas ruas menos importantes da cidade. Ficou-lhe à câmara desse tempo o juízo a arder com a lembrança; mas ainda mais lhe arderia a reputação, se a atualidade lhe não justificasse o tolo alvitre com o pulverulento macadame. Este então rematou a obra; foi oiro sobre azul. Que os ingleses preconizem o macadame como o mais económico e cómodo pavimento de estradas, e que nós lhes abracemos por este motivo a ideia, vá; é justo, é sensato. Que as nações, que não têm granito para pavimentar as ruas, as cubram de macadam tão perfeitamente combinado, que consigam por esta forma empedrá-las artificialmente, é natural, naturalíssimo. Mas que nós, que abundamos em granito, que o trazemos aí aos pontapés diante de nós, macadamisemos as nossas ruas só por tolo espírito de imitação, isto brada ao céu. E dizem que é por causa das carruagens e das bestas que as puxam! Pois a comodidade de cem, duzentos, mil trens, se quiserem, vale porventura a pena de estragar uma grande cidade e de incomodar uma população de cem mil habitantes? Que lucram eles com a comodidade de trezentas ou quatrocentas pessoas que podem andar de sege? E que direito têm, os que podem ter a comodidade duma sege, a incomodar as cem mil pessoas que a não podem ter, unicamente com o fim de juntar ao cómodo de ser levados nas pernas de outrém o gozo de ser doce e suavemente levados? Ah! Bom arrocho! E depois dizem que é por filantropia, por amor pelos pobres animais que arrastam as seges! Esta humanidade exemplar pela comodidade das bestas é perigosa para a reputação dos caridosos camaristas. Que homens! Que cabeças! A ideia faz-lhes honra; em nome dela a posteridade há de decretar-lhes as glórias do panteon da asneira.

O antiquário parou de novo, meneando gravemente a cabeça.


— Desafogada — continuou, finalmente — esta minha justa indignação.. (justa e justíssima porque sou uma das vítimas mais ofendidas do maldito macadam, em razão duma oftalmia que, por causa dele, sofri um ano a fio, e que me deixou, como vê, sem metade das pestanas que tinha nas pálpebras) ...»

 

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Screenshot_2.jpg

pormenor da rua das Taipas ainda macadamisada

 

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1 - Cujas publicações foram trasladadas para A Porta Nobre.

2 - Por este sistema as ruas necessitavam de manutenção permanente. Ficaram famosos os pipinhos da câmara municipal: funcionários que tinham por obrigação regá-las no tempo seco para que a poeira não tornasse impossível o trânsito de pessoas e animais. Outra queixa frequente nos jornais era a do constante pó que se metia dentro das casas nas ruas calçadas por este sistema.