Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O mercado do Anjo - cento e dez anos de existência

08.10.18

O mercado do Anjo foi inaugurado em 1839, logo após ter sido demolido e terraplanado o espaço onde existira o Recolhimento do Anjo - daí o seu nome - cuja autorização de demolição fora dado pelo governo dois anos antes à Câmara. Ao longo da sua história, foi passando quase que incólume a modernização e só em 1948, várias décadas depois de primeiramente se ter aventado que o mesmo já não estaria em condições condignas com as exigências quer higiénicas quer de funcionalidade da época, foi este mercado finalmente demolido.

É um pequeno texto que encontrei nos Boletins da Câmara de 1937 que me move a escrever estas linhas. mas acima de tudo, foi a vontade de dar a conhece-lo a vós meus caríssimos leitores, que resolvi traslada-lo para este blogue.

 

anjoo.jpg

i1 O mercado do Anjo no início do século passado (entrada da rua das Carmelitas).

 

*

« Entre as diversas 'ilhas' do Porto uma há com especial fisionomia: 'O Mercado do Anjo'!

 

Vivem adentro dele, dia e noite, permanentemente, em péssimas condições higiénicas e morais dezenas de pessoas, algumas em míseros subterrâneos sem ar, sem luz, e sem o mais rudimentar saneamento, mercadejam constantemente centenas de outras, ora molhadas pela chuva e enregeladas pelo frio destes dias invernosos, ora torrificadas pelo sol e abrasadas pelo calor na temporada estival. Castigada é por vezes duramente a grande clientela que o procura.

 

Trabalha-se ali afincada e resignadamente, angariado o pão nosso de cada dia, sem queixumes de maior, mas com o protesto íntimo e veemente de todos aqueles que à causa pública e aos fracos da fortuna, dão generosamente o melhor dos seus esforços e da sua inteligência; de todos aqueles que se esforçam pelo revigoramento da raça e que estudam a solução dos mais instantes problemas da profilaxia da higiene sociais e até e também e muito de todos aqueles que desejam satisfazer os mais elementares princípios da moral e da caridade cristãs.

 

Impõe-se, pois, a necessidade urgente e inadiável de eliminar o velho, desmantelado e insalubre 'Mercado do Anjo', substituindo-o condignamente por outro.

 

Assim o tem pensado anteriores Vereações, assim o pensa a atual Vereação.

 

Em 1934, abriu a Excelentíssima Câmara de então um concurso para apresentação de ante-projetos para um grande mercado geral a construir no atual 'Mercado do Peixe', sendo apresentado apenas um, aliás grandioso e bem concebido, mas irrealizável por ser incomportável com as possibilidades financeiras deste Município, o que nos levou a estudar de novo o problema, procurando solução mais económica e consequentemente mais rápida.

 

Em sessão de 11 de junho do ano findo [1936], tivemos a honra de propor à Excelentíssima Câmara a nomeação de uma Comissão, para proceder aos primeiros estudos (...).

 

dem.jpg

i2 Um aspeto da demolição do Mercado do Anjo, vendo-se o fontenário central que já pouco teria que ver com o original. Ao fundo vislumbra-se o edifício da Livraria Lello.

 

Reuniu-se esta comissão várias vezes escolhendo e localizando definitivamente o terreno em que deve ser construído o novo mercado, preferindo-se um ante-projeto simples, agradável e económico, e, consideradas todas as nossas sugestões, resolveu-se seguir metodicamente um plano para melhorar alguns dos departamentos municipais e criar outros, onde a população desta laboriosa cidade se abasteça.

 

Todos sentiram e convencidos estamos que toda a cidade sente que não pode continuar, o que existe.

(...)

O velho 'mercado do Anjo' será transferido para o atual local do mercado do Peixe e terrenos anexos, a oeste do jardim da Cordoaria. Por sua vez, o que está atualmente ocupado pelo mercado do Anjo, numa área de 6.000 metros quadrados, por exigências de urbanização e de salubridade, será transformado numa nova e formosa praça ajardinada, a que muito bem poderemos chamar 'Praça da Universidade'.

 

Teremos assim desafogado e valorizado dois grandes e imponentes edifícios citadinos: O Palácio da Universidade e o Templo dos Clérigos e ainda um terceiro, o da Relação todos de momento amesquinhados pela vizinhança insalubre dum conjunto de miseráveis barracas que formam esse mercado do Anjo!»

*

 

O que acima se leu é um excerto de um texto do vereador João de Paiva de Faria Leitão Brandão, lido em sessão de Câmara de 4 de fevereiro de 1937, que aborda na totalidade o assunto dos mercados. Olhando para trás, podemos verificar que entre os projetos e a realidade, como aliás é frequente, muito se alterou. Não obstante estas intenções, só dez anos depois o mercado seria fechado e transferido para um outro, provisório, no local onde existira a Roda, paredes meias com o mercado do Peixe. Daí e juntamente com o seu vizinho, mudou-se de malas e bagagens para os lados do Bom Sucesso em 1952.

 

Contudo, a extinção daquele mercado era já previsto no Plano de melhoramentos... de 1881, onde se previa a sua mudança para um novo edifício a construir na área do convento das Carmelitas; o que mais uma vez não se veio a materializar. E já em 1887, diz o relatório camarário da época, causava uma deplorável impressão a quem visitava a nossa cidade, o dito mercado, por se encontrar arruinado e sem capacidade para a vendagem que ali se fazia.

 

maq.jpg

 i3 Maqueta do projeto para a futura Praça de Lisboa, nunca executado.

 

 

provcord.jpg

i4 Construção do mercado provisório da Cordoaria, que substituiu o do Anjo enquanto não surgia o mercado do Bom Sucesso. Para a sua construção foi demolida a antiga capela do Calvário Novo bem como o edifício da antiga Roda dos Expostos que fora, na sua origem Hospício dos frades de Vale da Piedade (ao fundo ainda se vê uma parede dele).

 

 

O local onde existiu, por quase 110 anos, aquele mercado, ficou durante bastante tempo um parque de estacionamento e posteriormente um como que mercado a céu aberto de pequenos vendedores que outro sítio não tinham e por ali se ajuntavam. Já no início dos anos 90 do século passado surgiu um Clérigos Shopping de não saudosa memória, e só há poucos anos, por fim, o espaço voltou a ter uma ocupação condigna de tudo o que por ali existiu, com um bonito olival a encimar uma área de restauração.

 

NOTA FINAL: Embora Horácio Marçal no seu sóbrio artigo sobre este mercado publicado na série Nova d' O Tripeiro, indique que o provisório que o substituiu se localizasse onde estivera o Mercado do Peixe, tal afirmação oferecia-me dúvida a julgar pela imagem 4 aqui apresentada. A parede que se vê ao fundo do edifício demolido para dar lugar a esta estrutura provisória está, a meu ver, mais de acordo com a arquitetura de uma instituição como foi o Hospício dos frades de Vale de Piedade: com os seus cachorros nas beiras das janelas para recreação destes enquanto contemplavam a paisagem circundante. As janelas do mercado do Peixe eram de um formato completamente diferente e sem qualquer intenção de permitir aos seus frequentadores tais descansos contemplativos, sem dúvida desagradáveis dado o cheiro que por ali deveria imperar! Aliás, o Mercado do Peixe encostava por completo a sua face Sul à casa da Roda, o que parece ser o caso nesta fotografia uma vez que as janelas que aqui se vêm são (ou estão) cegas.

Após ter escrito estas linhas, e ter mesmo tornado publica a publicação, pude comprovar no sítio do AMP a existência de umas imagens digitalizadas em formato bastante reduzido, que comprovam esta ideia (ver i5).

A01.JPG

i5 Fotografias aéreas do Mercado do Peixe e do mercado provisório que substituíu o Anjo, datadas de 1952. Seria a intenção de os registar para memória futura da cidade?

2 comentários

Comentar post