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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O orgão de tubos do Palácio de Cristal

26.05.17

O muito recordado Palácio de Cristal, monumento ingloriamente desaparecido, tinha ao fundo da sua nave central um estrado onde se poderia instalar uma orquestra com grande número de instrumentos. Nele estava instalado um órgão de tubos magnífico, se não no som pelo menos na monumentalidade. Os apontamentos que abaixo apresento foram originalmente compilados por L. A. Esteves Pereira, e apresentados na revista O Tripeiro de dezembro de 1972. Para aqui traslado as informações sobre a composição do instrumento, bem como informações sobre o seu desaparecimento; que aliás antecedeu vários anos a destruição do edifício e não terá ocorrido de uma assentada, por assim dizer.

 

Sigamos então aquele autor:

 

«Os seus 2750 tubos repartiam-se por quatro secções correspondentes a quatro teclados manuais e mais uma seção correspondente ao teclado da pedaleira. Os quatro teclados manuais possuíam 56 notas (dó 1 ao sol 5) e a pedaleira 32 notas (dó 1 a sol 3). O conjunto de tubos era repartido do seguinte modo:

1.º teclado - Órgão do Coro - 8 registos;

2.º teclado - Órgão do Principal - 13 registos;

3.º teclado - Órgão do Expressivo - 12 registos;

4.º teclado - Órgão do Sola - 4 registos;

Pedaleira - Órgão do Pedal - 7 registos.

 

Ao todo 44 registos sonoros, mais 6 registos de acoplamentos, a saber:

Acoplamento Coro/Pedal;

Acoplamento Principal/Pedal;

Acoplamento Expressivo/Pedal;

Acoplamento Solo/Pedal;

Acoplamento Expressivo/Principal;

Acoplamento Expressivo/Coro.

 

palacio_navecentral.jpg

a nave central do edifício vendo-se ao fundo, esbatido, o órgão de tubos

 

A caixa expressiva onde estavam encerrados todos os tubos do 3.º manual (órgão expressivo) era fechada por réguas que, em dois grupos de 10, fechavam as duas janelas anteriores e que se moviam com toda a facilidade, por meio de um pedal de expressão. A transmissão do movimento das teclas até às válvulas dos tubos era completamente mecânica, assim como o movimento dos tirantes dos registos. O ar comprimido era fornecido por 3 foles paralelos, com um volume total aproximado de 8 m3, com bombas diagonais acionadas manualmente por alavancas. A fachada era constituída por tubos pertencentes aos registos dos Principais de 8 a 16 pés abertos, havendo no órgão do pedal, um registo de 32 pés, tapado, em madeira. As quatro torretas da fachada eram constituídas por 5 tubos, além de um plano central de 11 tubos e dois laterais de 9, cada.»

 

O autor continua referindo a possível disposição que o instrumento tinha, mas que não lhe permitia tomar como definitiva umas vez que os elementos de que dispunha «já se encontravam prejudicados pelo mau estado de conservação em que o órgão se encontrava, à data em que foram colhidos». Aliás no final desta sua hipótese de disposição, o mesmo autor refere: «Entre parêntesis vão os nomes equivalentes, em inglês, que teriam sido os originais e que estavam, na sua maior, parte já ilegíveis, quando estas notas foram tomadas.» Opto por não colocar aqui a disposição aventada pelo autor, remetendo o leitor interessado para aquele número da secular revista O Tripeiro.

 

Apenas mencionar que o autor, aquando da sua inspeção ao instrumento verificou a existência da seguinte inscrição:

Este órgão foi reformado e afinado por técnicos da minha casa nos meses de abril e maio deste ano.

Porto 25 de maio de 1916

 

Memória que havia sido colocada pelo fabricante de pianos e órgãos A. Gomes de Faria, estabelecido na Rua de Regeneração, n.º 25[1]. Quanto ao construtor, refere-o I. de Vilhena, Barbosa a pp. 11 do Arquivo Pitoresco de 1866: «Este soberbo órgão (...) foi fabricado em Londres por J. W. Walker, que o apresentou na exposição universal que se realizou na mesma cidade no ano de 1862, onde obteve prémio. Custou uns quatro contos à sociedade do Palácio de Cristal portuense.»

 

Mas se atrás vimos como se compunha este instrumento, que por perto de 80 anos teve lugar cativo lá ao fundinho da nave central do extinto Palácio de Cristal, vamos agora avançar para a parte mais difícil desta jornada: o seu triste desaparecimento.

 

No ano de 1935 quis a Câmara Municipal proceder à reparação do órgão. Para isso aceitou, em julho, várias propostas de afinadores e construtores nacionais e estrangeiros. A própria casa que construíra o instrumento quase cem anos antes, se disponibilizara para trazer um técnico ao Porto por forma a vistoria-lo e apresentar então a sua proposta. Não obstante todas elas terem sido avaliadas, certo é que o restauro nunca teve lugar e assim permaneceu o instrumento mudo por mais uns bons anos.

 

paltrasint.jpg

a nave central do Palácio num postal do início do século passado : ao fundo, imponente, podemos ver o órgão

 

Em 1947 a Câmara do Porto fez vir à cidade um técnico de uma firma lisboeta João Sampaio, Lda, com o intuito de examinar e avaliar o órgão e de seguida apresentar a sua proposta. Esta firma foi consultada por indicação do diretor do Conservatório Nacional, Dr. Ivo Cruz. As notas que se vão ler abaixo, também coligidas por L. A. Esteves Pereria, são do sócio gerente da firma supra mencionada,o eng. José Ramos Sampaio, e são a constatação e uma evocação da miséria a que aquele instrumento havia chegado:

 

«(...) Fomos ao Palácio. Não nos queriam deixar entrar, sendo necessário para isso mostrar a carta em que a Câmara me participava a aceitação das condições para eu fazer a dita vistoria. Logo atrás de mim veio um outro guarda que disse depois que tinha ouvido a conversa e vinha para auxiliar em qualquer coisa. Depois de por uma escada de madeira, restos de um escadote improvisado e termos improvisado e termos subido para o estrado do órgão, despimos os casacos e vestimos os fatos de macaco (eu e o Mário). Entramos lá dentro levando eu a pasta com os apontamentos.

 

paltrasext.jpg

o exterior do edifício num postal do início do século passado : quem sabe terá sido por este lado que o órgão foi sendo, peça a peça, subtraído (?)

 

Fiquei espantado quando vi que tinham desaparecido todos os tubos. O Mário só encontrou um minúsculo, fino como metade de um lápis e que estava caído e quase não se via, por isso escapou. Não havia mais. Nos secretos todos, (exceto nos dos Pedais) não havia um tubo de madeira no lugar. Tinham sido todos tirados do lugar para facilitar o roubo e estavam amontoados sobre os secretos. Nos secretos laterais da pedaleira tinham ficado no lugar os tubos grandes de madeira e os funis (só os funis) dos tubos de palheta (os pés de chumbo com as palhetas desapareceram). No secreto surdina (todo dentro de uma caixa expressiva) tinham tirado várias réguas expressivas para entrarem lá dentro e fazer a mesma devastação. Era horrível o aspeto daquilo. Restavam os tubos da fachada, receavam talvez que se visse a falta.

 

Não escondi a minha revolta mesmo diante do guarda que estava lá com a gente, tendo eu até chamado a sua atenção para os sítios que pisava e onde podia estragar alguma coisa. O homem disse-me que aquilo estaria assim há muitos anos! Respondi que não pois eu mesmo lá estivera havia 12 anos e não faltavam senão poucos tubos. Contou-me que alguns empregados que estiveram já se tinham ido embora. um até tinha ido para a Venezuela! Os teclados e registos têm à frente umas portas envidraçadas. Estavam fechadas à chave.

 

No outro dia visitei o diretor dos Serviços Culturais, na Câmara... Voltámos [para Lisboa] no rápido da tarde. Assim se perdeu uma bela obra e nós um possível trabalho.»

 

Ou seja, o órgão estava já irremediavelmente perdido! Assim, graças à egoísta ratonice de uns quantos que viram ali presa fácil para o ganho de alguns escudos[2]; se perdeu um instrumento que ainda hoje poderia estar a fazer as delícias dos ouvidos portuenses, ainda que não no local onde fora originalmente instalado por também este ter sido vítima de um crime de lesa património perpetrado por quem dele deveria cuidar!

 

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1 - Esta rua é a continuação da do Almada, pela lateral da praça da República e o quartel, até ao largo da Lapa.

2 - Ou em desespero de causa, pela miséria em que viviam...

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