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Fund. 30 - IX - 2009


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Depois do ligeiro desvio provocado pela "Santa Água", prossigamos então com o texto de Ramalho Ortigão, iniciada na publicação anterior.

 

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«A antiga geração literária do Guichard, da porta do Moré e da Águia de Ouro extinguiu-se ou expatriou-se, sem deixar sucessores na publicidade portuense. Evaristo Basto, António Coelho Lousada, Augusto Soromenho, Camilo Castelo Branco, Ricardo Guimarães não têm no atual jornalismo portuense quem dê ideia alguma do papel que eles representaram no jornalismo de há vinte anos.


A geração nova tem uma disciplina, um método, uma linha de conduta social, um propósito político, um destino filosófico. Eu sou de uma idade transitória, vim obscuramente num período de transformação, com uma ala de sapadores, e pertenço à pequena companhia antipática dos bola-abaixo. Mas aqueles a cujo lado trabalhei em novo, e que fizeram falar de si, eram personalidades literárias inteiramente diferentes dos jovens escritores de hoje.


Os antigos cronistas portuenses, cujos nomes recordo com saudosa e magoada estima, não tinham filosofia social, não tinham espírito algum de seita ou de partido. Hoje é-se necessariamente revolucionário ou conservador, ou se é pela república ou pela monarquia; há uma grande arte regeneradora e uma arte progressista, um ideal demagógico feito carne em Magalhães Lima e um ideal constituinte personificado em José Dias Ferreira, divergente do atual regime monárquico e bem assim dos sistemas propostos pela democracia radical.


Noutro tempo os homens de espírito não eram mais monárquicos liberais do que eram republicanos ou do que eram legitimistas. No jornalismo contemporâneo toda a pena é uma arma de combate. No jornalismo de outrora a pena para um verdadeiro escritor era apenas um puro instrumento de poesia. Os combates travavam-se unicamente a cassetete com os homens e a olho com as mulheres.


O único inimigo comum para os últimos dos românticos no jornalismo portuense era a estupidez humana, representada pelo honesto burguês da Rua das Flores e da Rua dos Ingleses, e era o espírito imobilizante de rotina, simbolizado no carroção veículo de família puxado a bois e inventado pelo segeiro Manuel José de Oliveira.


Para resistir a estas duas influências e para as combater opunha-se-lhes, arvorado em sistema, o amor da aventura e da violência dos contrastes, a toilette espetaculosa, o movimento, o barulho, a troça, a pancadaria, o escândalo.


Para o fim de irritar o burguês e de o fazer estourar nos seus redutos, de apoplexia ou de raiva, traziam-se casacas de alamares, laços de gravata de palmo e meio de superfície, coletes vermelhos, cabelos até aos ombros. Andava-se de dia pelas ruas e ia-se nos domingos ao Jardim de S. Lázaro levando enrolado no busto um plaid de quadrados amarelos, encarnados e verdes. Nunca se largavam as esporas, traziam-se as calças à hussard, o cassetete de cana-da-índia com uma asa de couro numa extremidade, um galho de veado na outra, e uma baioneta dentro. Cultivavam-se de frente seis namoros a um tempo, mantinham-se paixões funestas por meio de cartas em estilo incendiário. Era-se preso ou admoestado pela polícia uma vez por semana. Rebentavam-se cavalos e rebentavam-se batotas. As pateadas memoráveis no Teatro de S. João, à Dabedeille e à Bolonni, à Giordano e à Ponti, deixavam em estilhas as bancadas da sala. De uma vez, António Girão, em pé sobre um banco, com um barrote do soalho em punho, ameaçou a autoridade de que deitaria abaixo o lustre se a guarda municipal penetrasse na plateia. De outra vez, numa empresa de José Lombardi, os coristas e os comparsas, armados de paus apareceram no palco com o pano em cima e desafiaram os espectadores pateantes; o público subiu à cena, e, depois de uma terrível luta de homem a homem, foi varrida a companhia toda para a rua, à bordoada. Metade das senhoras que assistiram a esse espetáculo nunca visto saíram dos camarotes para os seus carroções levadas em braços, desmaiadas ou em convulsões de nervos.


O ar fatal era de rigor nas salas. Os poetas usavam no pulso um misterioso bracelete de mulher, uma pequena caveira de ferro na gravata ou no anel; e todo o mundo literário, à noite, nos bailes, era magro, pálido, impenetrável como um cofre de trágicos arcanos. O sujeito dado à metrificação via deslizar a valsa encostado a uma ombreira de porta, terrível, de monóculo no olho e patchouli no lenço.


De que partido político era o Soromenho, o Lousada, o Soares de Passos, o Arnaldo Gama, o Camilo, o Ricardo? Nunca ninguém o soube, nem lhes perguntou por isso. E todos eles escreveram sucessivamente em jornais de todos os matizes do tempo, patuleias, cabralistas, cartistas, legitimistas, etc. A arte constituía para os que a cultivavam um terreno neutral e autónomo, onde cada um armava a sua tenda, arvorava o seu nome como um pavilhão de guerra e combatia independentemente pela sua própria conta e risco.


De uma vez, há de haver vinte anos, no Jornal do Porto, tendo faltado a carta do correspondente de Lisboa, eu mesmo improvisei à última da hora uma correspondência da capital, em duas grandes colunas de verrina. Esta correspondência infeliz esteve para fazer perder as eleições municipais aos amigos políticos do jornal. Cruz Coutinho, o mais honrado e o mais benévolo dos homens, que tinha feito do Jornal do Porto a sua família, e que tratava os seus redatores como seus filhos, veio correndo espavorido ao escritório da redação, vibrando da mais justa cólera, com o jornal ainda fresco de tinta e de injúrias aberto na mão.

 

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— Como diabo tinha o estúpido do correspondente de Lisboa escrito um artigo daqueles, e como, achando-me eu no escritório à chegada do correio, o deixara passar e aparecer impresso na folha da manhã?
E, tomando conhecimento do ocorrido, num a recrudescência de ira:
— Oh! maldito homem! — me bradou ele — pois você não conhece a atitude política do jornal na grave conjuntura presente? Você não tem visto os artigos de fundo que andamos a publicar há mais de um mês?!
A triste verdade é que eu, efetivamente, nunca vira semelhantes artigos, e a minha única desculpa foi que estava contratado a tanto por mês para escrever no jornal, mas não para o ler. E devo acrescentar agora que, tendo feito parte durante uns poucos de anos da redação efetiva daquele periódico, e enchendo nele regularmente duas ou três colunas por dia, eu nunca então soube, nem ainda hoje sei, que política era a dele no tempo em que eu lá estive!


Presentemente, pelo que tenho lido durante os últimos oito dias, os escritores são incomparavelmente mais políticos do que outrora. O senhor Fontes e o senhor Manuel de Arriaga, o senhor Braamcamp e o senhor José Dias tornaram-se elementos de prosa, as imaginações renderam-se-lhes, a intriga constitucional substituiu nos espíritos a velha intriga poética, e os jornalistas são talvez um pouco mais homens de Estado do que homens de letras.


Para honra destes amáveis escritores cumpre todavia dizer que, se lhes falta como poetas uma ponta de desdém indispensável para não deixar materializar a arte pela familiaridade do vulgo, não lhes falta decerto como estilistas a técnica da profissão.


Não se pode empregar mais zelo na escolha dos vocábulos. Não se pode pôr mais esmero em enobrecer a dicção.
É principalmente nos textos dos correspondentes da província que mais energicamente se manifesta esse escrúpulo na pureza da palavra. nalgumas dessas correspondências a preocupação da retórica atinge quase o estado patológico de uma monomania de sublimidade.


Coisa notável, demonstrada pela observação: o amor grandioso é tanto mais profundo e tanto mais voraz quanto mais pequeno é o lugar de que se escreve! Nada que se compare em majestade aos rasgos de pena com que de Ovar, de Espinho ou de Estarreja se nos conta que ali chegou o polícia 34 para fiscalizar a decência da praia, que choveu na véspera, ou que por deliberação camarária se está pintando o candeeiro da Rua Nova, em frente da caixa do correio! Decididamente — e é triste ponderá-lo! — a literatura é tanto mais pomposa quanto mais provincial.


De uma praia de banhos escrevem ainda hoje para uma das folhas da manhã: Esta ténue fímbria de areia osculada pelo Atlântico está sobrepujando e fazendo rosto em competimentos de garridice às praias de maior tomo. Grande é o número de damas e cavalheiros que ora veraneiam nesta estância balnear.


E um outro escreve acerca da morte de uma jovem senhora da sua localidade: Dramas crudelíssimos da vida real! Reclama a lousa do sepulcro as heras e os goivos que têm de cobrir aquela que a morte arrebata no vicejar dos anos e em quem florescem as singelas virtudes que no lar remansoso dulcificam o travor acerbíssimo da existência!


No jornalismo da capital dizem-se as coisas terra-a-terra, muito mais simplesmente. Assim, no dia em que eu parti de Lisboa, um necrologista resumia todo o elogio do seu morto na seguinte frase verdadeiramente memorável: Nele concorriam todas as virtudes cívicas e domésticas e vice-versa!»

 

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(continua) 

 

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