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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O Porto em 1883 (n.º 4)

por Nuno Cruz, em 24.11.17

E eis que chegamos à conclusão da divulgação do texto de Ramalho Ortigão sobre o Porto, tal como o encontrou vinte anos depois de o ter deixado. Tenho para mim que esta é a melhor parte de um texto já de si bom.

 

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«É certo que na ordem intelectual, e na ordem industrial igualmente, o progresso da cidade está em muitos pontos de vista longe de condizer com o seu desenvolvimento material, no decurso dos últimos anos.


O comércio dos vinhos finos, por exemplo, esse grande veio da riqueza local, decai lamentavelmente de ano para ano, de dia para dia. A probidade impecável, a honradez proverbial que presidia a esta indústria, passou a ser matéria hipotética, ponto de contestação. Observa-se este fenómeno contrastante: por um lado a filoxera diminuiu consideravelmente a produção, por outro lado aumentou o consumo; entre estas duas influências combinadas para diminuir a oferta e para aumentar o valor deu-se precisamente o facto contrário: o preço desceu e a produção subiu! Que quer isto dizer? Que há duas espécies de filoxera, uma nos vinhedos do agricultor e outra nos armazéns do negociante; a primeira diminui e encarece a uva, a segunda embaratece e aumenta a droga. O bicho destinado a destruir dentro de poucos anos o famoso comércio dos vinhos do Porto não é o que ataca a videira, é o que ataca o vinho. A ruína não vem da cepa, vem da pipa. O flagelo mortal não está nas terras do Douro, está na Rua dos Ingleses. Compreende-se o mal enorme desta situação, perfeitamente declarada e manifesta, com relação ao comércio de um produto de condições especialíssimas, como o vinho, tanto mais difícil de acreditar quanto é mais fácil de corromper. O vinho adulterado, como o homem doente de nascença, tem a vida curta. A maior parte da beberagem que hoje se negoceia sob o nome de vinho do Porto não é suscetível de envelhecer. Como os relógios baratos, tem apenas equilíbrio para dois ou três anos. É preciso bebê-lo enquanto ele regula, isto é, imediatamente depois de pronto, como a sopa. Se o fazem esperar, por pouco que seja, ele embaça e transtorna-se. Mais alguns anos de experiência — o tempo preciso para os colecionadores de garrafeiras começarem a provar como velhos os vinhos presentemente novos —, e hão de ver que ninguém mais quererá vinho da véspera, e que os negociantes terão de o mandar pelas portas fresco do próprio dia, precisamente como o pão!


Antigamente os negociantes de vinho, no Porto e em Vila Nova de Gaia, constituíam verdadeiras dinastias burguesas, em que a honra do negócio e o respeito da firma passavam em brasão de pais a filhos e de filhos a netos. Esta aristocracia mercante acabou com o advento da nova aristocracia política. Antigamente contentavam-se em ser nobres pela probidade e criavam os filhos para mercadores como eles. Agora quase todos querem ser viscondes pela intriga e apelintram os filhos pedagogicamente para deputados. Enquanto ao vinho, dizem-me que as novas camadas sociais ainda sabem, no geral, bebê-lo; mas já não sabem negociá-lo.

 

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Outra indústria em decadência, como a do vinho, é a tão simpática indústria caseira da ourivesaria de Valbom. Os antigos feitores habilidosos que faziam ao alicate, em casa, às noites, depois do trabalho dos campos, as bolsas para dinheiro, os cordões de ouro e de prata, ou passaram a trabalhar na joalharia fina, à francesa, ou abandonaram o ofício, ou emigraram. As bolsas e os cordões ficaram apenas para os aprendizes, e são cada vez mais mal feitos, até que deixem de se fazer de todo, por não haver mais quem os queira.


Haverá talvez ainda, se procurarmos bem, um ou outro sinal de decadência nos costumes burgueses, no comércio marítimo, nas indústrias navais, na solidez da riqueza, no culto da arte.


A Sociedade de Instrução é, porém, um fenómeno significativo e consolador. Não sei até que ponto a simpatia do espírito público acompanha os esforços desta operosa associação, nem quais as forças de que ela hoje dispõe, mas creio que lucraria muito o engrandecimento da cidade e o futuro do seu comércio se uma liga de negociantes honrados e instruídos empreendesse na esfera prática uma renovação de movimento semelhante àquele que tão brilhantemente iniciou na órbita das ideias e nos domínios do ensino a associação a que me refiro.


Cumpre-me enfim consignar que o Porto perdeu esse bom e saudável cheiro provincial que tão especialmente embebe como de um aroma antigo a prosa dos seus grandes escritores — O Arco de Sant’Ana, de Garrett, e alguns dos romances burgueses de Camilo Castelo Branco e de Júlio Dinis.

 

Os antigos costumes locais desapareceram com as liteiras do Lopes e do Carneiro, com as cadeirinhas da Rua do Almada, com as tortas do pasteleiro da Rua de Santo António, com os carroções do Manuel José de Oliveira, com os Sanjoões da Lapa, do Bonfim e de Cedofeita, com as merendas pelo rio acima, com a política jacobina de José Passos, na sua casa da Viela da Neta, e com o velho botequim das Hortas, em que à noite se jogava o loto a vintém o cartão, e que, ao abrir-se uma das suas portas envidraçadas guarnecidas da cortininha de cassa branca, enchia de um picante perfume de calda de capilé e de café torrado a rua toda, sobre cujos lajedos dormiam estiraçados ao sol, entre os fardos de estopa e as molhadas de verguinha de ferro, os podengos cor de raposa e os galgos dos lojistas.


Aos domingos de Verão, o picheleiro do Souto, o guarda-soleiro da Bainharia, o ourives ou o mercador de panos da Rua das Flores, ia com o romper do dia à missa das almas a S. Francisco ou aos Congregados; comprava depois o melão, a melancia e as laranjas na Feira do Anjo, e, às seis horas da manhã, na frescura aquática do Cais da Ribeira, embarcava com a família em barco de toldo para a Oliveira, para Avintes ou para Quebrantões.

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O patrão, de quinzena de ganga e chapéu de esteira; as filhas à frente em toilette de musselina; a mulher ao lado, de saia de nobreza, luvas de retrós e a mantilha de lapim no braço, a jovem com as roupinhas novas de camponesa maiata; e o marçano atrás com niza de briche, camisa de linho caseiro, chinelas amarelas de grosso bezerro de Penafiel, e à cabeça o açafate dos víveres, discretamente cobertos com a alva toalha de olho-de-perdiz, e com o chapéu braguês, duro e afunilado, posto em cima, de remate ao festivo monumento campestre de gastronomia dominical: — o alguidar novo com a infalível sapateimda, as postas de pescada frita, as alfaces, as frutas e a inolvidável borracha de canada com o vinho maduro da Companhia, que há de ir refrescar ao fundo do poço, de borda ornada de craveiros e manjericos, debaixo dos álamos, enquanto a família em folga ripar a salada, sentada na erva.

 

Tamanho era o dia como a romaria. De sorte que só a noite fechada se voltava para casa. E os que tinham ficado na cidade, depois de terem ido ao Senhor Exposto a Santo António das Taipas ou a S. João Novo, viam do paredão das Fontainhas deslizar em baixo, no espelho negro do rio angustiado e túmido, as lentas barcas iluminadas de lanternas. O golpe das remadas, batendo compassadamente nos toletes e arrepiando a corrente, parecia remexer um turbilhão de estrelas no fundo tenebroso da água; e, de vez em quando, o eco da serra do Pilar repetia como num soluço, da banda de além, uma plangente arcada de violino ou um saudoso harpejo de banzas, com que o morno vento leste varria docemente a superfície do rio, até se ir perder expirante para os lados do Candal, nas alamedas sombrias de Vale de Amores.


As soirées chamavam-se súcias, e as melhores eram as da Feitoria e as da Filarmónica. Nas casas particulares convidava-se para beber uma xícara de água morna. Jogava-se o quino marcado a feijões, obrigado a anexins e a jocosidades apropriadas ao número de cada bola que se tirava do saco. Um conviva idóneo incumbia-se da missão de espevitar as velas. Menores de dez anos, inocentes mas circunspectos, serviam o açúcar e o leite. E ao centro da grande bandeja da doçaria e das fatias de pão com manteiga um cão de água em prata sobressaia ouriçado de palitos. As onze horas um fâmulo dizia: — Chegou o criado das senhoras Viterbas com o saco dos xailes e os guarda-chuvas. E a companhia dispersava pelas ruas cavas e silenciosas, em magotes de pessoas atabafadas de agasalhos, precedidas de um vulto empunhando o clássico e monumental lampião, com duas velas, de acompanhar famílias.


Fidalgos havia seis, unicamente: o da Bandeirinha, o da Rua da Fábrica, o de Trás da Sé, o Cirne do Poço das Patas, o Pamplona de Santo Ovídio e o Terena da Torre da Marca. Quase todos eles tinham velhas seges bamboleantes em altos suspensórios de couro e criados de farda, parecidos com os do bispo, e tendo as cores das respetivas casas nas golas, nos canhões e nos vivos da libré arcaica, cheirando a mofo e a azebre.


A cidade opunha ao prestígio bolorento dos seus velhos nobres a glória constitucional dos seus bravos do Mindelo, dos seus voluntários da Rainha, dos seus soldados do batalhão da Carta, simples negociantes enriquecidos que tinham andado com o imperador de patrona nos rins e escopeta ao ombro, enfarruscando a cara com o fumo das escorvas, de reduto em reduto, do Pasteleiro para as Antas, das Antas para o Bonfim, do Bonfim para a serra do Pilar, em todo o circuito das trincheiras, no tempo do sítio.


Quando o príncipe reinante e a sua augusta família iam às províncias do Norte, o Porto recebia-os de azul e branco, num grande rasgo de júbilo sublinhadamente plebeu, que entocava a nobreza de pura humilhação perante as magnificências da burguesia dinheirosa e bizarra. Os moradores das ruas por onde tinha de passar o cortejo rivalizavam de ardor nas manifestações do público regozijo: colchas e bandeiras nas janelas, girândolas de foguetes, palanques de música, luminárias, loas e arcos de triunfo em lona pintada, do alto dos quais choviam pétalas de rosas sobre os reais hóspedes.


Ao fundo da Rua de S. João, em frente da Ribeira, armava-se um pavilhão ornado de bambolins das cores constitucionais, e nesse estrado, a que subia a família real e os vereadores da municipalidade portuense, de espadim e capa, bacalhau na camisa e tricorne guarnecido de arminhos, se procedia à cerimónia da vassalagem prestada ao rei pelos representantes da Cidade Invicta. O presidente da Câmara apresentava ao soberano sobre uma almofada de veludo duas enormes chaves de cartão dourado, a que pelo mais arrojado dos tropos Sua Excelência chamava no seu discurso as chaves deste inexpugnável baluarte da liberdade! O monarca retorquia que as chaves do dito baluarte se não podiam achar em mais fiéis e leais mãos que a do orador preopinante. E a Câmara, com as suas chaves de papelão sobre o coxim de veludo, retomava as competentes seges e seguia, atrás da real família e do seu respetivo séquito, até à igreja da Lapa, a orar em frente do sarcófago em que se acha depositado o coração de Pedro.

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Alguns dos arcos triunfais, representando castelos roqueiros coroados de figuras alegóricas, tinham inscrições epigráficas em verso. Num desses arcos, na Rua das Flores, lembro-me que se lia, de uma vez, esta conceituosa quadra:


Pela Carta e por ti, rainha cara,
O Porto pelejou luta de morte;
Pela Carta e por ti, com lança em punho,
O Porto velará potente e forte.


Esse era o tipo consagrado de todas as manifestações do júbilo portuense: um cumprimento à pessoa real, envolto sempre num elogio indireto ao próprio Porto, e destinado a fazer sentir que a comissão dos festejos, a qual pagou pro rata as ripas, a lona, a cola e as luminárias dos arcos, é a mesma que noutra ocasião aparafusou a coroa na testa augusta do Príncipe. E, se algum parafuso cair à testa referida, o mesmo Porto lá continua a estar, potente e forte, de lança em punho, para o atarraxar outra vez! E não se ensaia para isso ... É zumba, bumba, catabumba! Para rainha e Carta, para liberal constituição e trono, aqui mora o Faz-Tudo! Solda, gruda, parafusa, martela, arrebita, bota abaixo, reconstitui, engonça, retesa, dá corda, regula, acerta e garante — sempre de lança em punho, feito de pedra, velando potente na fachada dos Paços do Concelho à Praça Nova, por cima da arrecadação das luminárias e das chaves do baluarte feitas de pasta pelo Alba dourador da Rua de Santo António.


No fundo das suas convicções políticas e sociais o portuense era verdadeiramente patuleia. Detestava instintivamente a corte, a nobreza, a capital do reino. Gloriava-se de ser tripeiro e articulava esta palavra rijamente, fazendo-se vibrar com explosão, à boca cheia, como se a pronunciasse com três pp. O alfacinha figurava-se-lhe um ser abjeto, esfaimado e pedinchão, ocioso e tísico, e a alfacinha uma delambida, de cuia à banda, cuspinhenta e desolhada, namorando os amanuenses das secretarias e os alferes do exército, e recitando poesias ao piano, com a barriga a dar horas e as meias rotas nos revesilhos dos calcanhares e das biqueiras. Ah! boa roca à cinta e bom côvado pelas costas! O Governo uma corja! E os pelintras dos deputados, tão bons uns como os outros! — Tal era a opinião sintética, geral na Rua das Flores e na Calçada dos Clérigos há vinte e cinco anos.


Hoje, transformação completa! Os burgueses mais opiniáticos, mais indómitos e mais cabeçudos docilizaram-se com uma facilidade memorável depois de ligados a Lisboa pelo caminho-de-ferro e pela intimidade correlativa da intriga política e da chicana partidária. Os patrões, juntamente com partido político, botaram bigode, e os marçanos botaram gravata. Desapareceram os venerandos capotes bandados de veludo, de ir à desobriga e ao Senhor, e desapareceram as belas mantilhas de coca, feitas de lapim ou de sarja de Trás-os-Montes. Vulgarizou-se o jogo da Bolsa e a lotaria. O número dos fidalgos, com mais ou menos exercício no Paço, elevou-se rapidamente de seis a seis mil. Com a deslocação do antigo eixo do negócio tradicional, ramerraneiro, cauto, economizador, estreitamente e lentamente espremido, atrás do balcão à luz da vela de sebo ou do candeeiro de três bicos, ou de feira em feira atrás da récua dos machos, de Viseu para Vila Real, de Vila Real para Penafiel, quadruplicaram ou quintuplicaram as falências. A cidade encheu-se portentosamente de viscondes e de casas de empréstimos sobre penhores.

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Quando o rei vem, já se não procede à cerimónia da entrega das chaves do baluarte. O antigo Palácio das Carrancas, à Torre da Marca, pertence agora à Coroa, como o Palácio da Ajuda. O Porto enfim cessou de ser província. É segunda capital (segunda por ordem cronológica, bem entendido!) e a sua alta burguesia constitui para a corte uma espécie de casa filial, com as mesmas fazendas, somente com melhor sortido e mais barato. Em vez de levantarem arcos de triunfo com alegorias e versos patrióticos, os próceres do comércio vão dançar a palácio. Com o monarca dentro dos seus muros, o bom e antigo burgo, tão cioso outrora dos foros plebeus dos seus mercadores e dos seus mesteirais, converte-se num jardim zoológico de cortesãos, num seminário de áulicos, num Versalhes de improviso.


Os ferrões dos guarda-sóis das suas mercês, raspando pelas lajes acima da Rua dos Carmelitas, adquirem o tilintar aristocrático de finas espadas de corte. Nas lustrosas e espalmadas sapatetas dos mesários da Lapa e dos irmãos terceiros de S. Francisco parece quererem espigar os tacões encarnados dos galantes marqueses contemporâneos da Dubarry ou de Marie Antoinette. E em todas as línguas que se deitam de fora para lamber dedos polegares, ajudando a calçar as luvas brancas pelo Largo dos Lóios, como que se vê palpitar o madrigal subtil dos roués perfumado pela pastilha almiscarada dos mignons. É o Trianon que temos diante dos nossos olhos ou é o edifício da Bolsa?... É o Lago de Neptuno aquilo ou é o chafariz de Vilaparda? . .. Estamos no Parc-aux-Cerfs ou estamos na Ramada Alta? .. Ninguém o saberia distinguir. Pelo que dou os meus parabéns à Invicta Cidade. Unicamente receio que, quanto mais ela intervenha na corte e na política pela amenidade palaciana e pela domesticação partidária na sua qualidade de segunda capital, menos venha a preponderar como província nessa moralizadora influência em que o simples trabalho obscuro, persistente e honrado se contrapõe para a riqueza e para a prosperidade dos Estados Unidos à inquietação loquaz e estéril dos burocratas e dos bacharéis.»

 

 

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Bem sei caro leitor que estamos no final de um texto longo, nem sempre centrado na cidade, mas que nunca dela foge verdadeiramente pois tudo o resto é mero comparativo à realidade portuense. Finalizo sem mais enfastiar a sua paciência, até porque nada do que diga poderia substituir-se ao grande escritor que nos legou as linhas acima.