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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O Porto segundo João de Barros

12.03.17

Acredito quem uma boa parte dos meus leitores desconheça a obra Geografia de Entre Douro e Minho... de João de Barros, onde permanece o principal legado deste autor: uma descrição da cidade do Porto bem anterior a Manuel Pereira de Novais (séc. XVII) ou Agostinho Rebelo da Costa (séc. XVIII). A obra sobrevive em 4 cópias manuscritas, uma delas a original que se encontra em depósito na biblioteca portuense. Bem mais sucinto que os dois outros autores referidos, ainda assim é uma pequena janela para o Porto do início do século XVI; uma época em que a cidade se esforçava por urbanizar o restante da sua área dentro de muros com a abertura de novas ruas, a fundação de novos mosteiros ou a construção de novos edifícios públicos. Importa referir que este João de Barros foi o escrivão da câmara do rei D. João III e do seu Desembargo e não deve ser confundido com um outro João de Barros celebrado pela sua Gramática da Língua Portuguesa e as Décadas da Ásia.

 

NOTA: Nesta transcrição optei por atualizar a ortografia do texto na sua quase totalidade, tendo deixado apenas como no original as divergências face à moderna que possam indicar pronúncia diferenciada da nossa (com a consciência que no português falado daquela época existiam bastantes diferenças que não transparecem na ortografia). As imagens que acompanham o texto são extraídas da gravura de Pier Maria Baldi de 1669, que embora de uma época posterior são ainda assim as que no tempo mais se aproximam daquela em que viveu João de Barros.

 

 

§§

«E começo na cidade do Porto, que é cabeça da comarca, e digo que é uma cidade mui notável e das principais deste reino, pelas cousas insignes que tem, a qual está junto ao rio Douro, hua légua do mar, onde chegam todas as naus e navios que vem de toda a parte a ela. Esta cercada de muro de cantaria mui forte, que se fez em tempo de el-rei D. Fernando, deste reino, no qual há trinta torres fortes e altas e doze portas e postigo por onde se serve. Tem também, onde está a See, outro muro velho que a cerca, onde primeiro soía ser a cidade. A See foi começada pela rainha D. Tareja, mulher do conde D. Anrique, e ali fez uma doação ou instituição em latim, onde se chama filha do glorioso Afonso, emperador das Espanhas, o qual, posto que assi se chamasse, não se fez dele eleição nem coroação. Depois, a rainha Dona Mafaldra, sua nora, mulher de el-rei Dom Afonso Anriques, acabou aquela See e lhe dotou muitas rendas, onde ela tinha singular devação, porque achara, ali, em hu silvado, hua fermosa imagem de Nossa Senhora, a que ora chamam, por esta causa, Nossa Senhora da Silva, e no tesouro da See estão muitos atavios, que esta rainha aí deixou, de sua pessoa, assim como toucados, lenços, camisas, que não são assi sumptuosos como os de agora[1].

 

Tem esta cidade preeminência e excelência que pode fazer os homens fidalgos e nobres; porque os reis passados lhe concederão previlégio que os que fossem cidadãos dela tivessem os previlégios que naquele tempo tinham os infanções e ricos homens, os quais, segundo a mais certa interpretação, eram senhores de terras, de conselho do rei, sem título de duques nem de condes, porque ainda naquele tempo se não costumavam tanto na Espanha.

 

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O belo monte e o morro da Vitória: 1- a porta do Olival, 2- a porta Nova ou Nobre, 3- os conventos de S. Francisco (esq.) e S. Domingos (dir.).

 

Em Trás-Os-Montes há hu conselho que chamam Aguiar, e tem hua aldea junto ao rio Tâmega, em hu bosque, e, como quer que os reis dessem tão grandes previlégios aos que povoaram terras hermas, diz o foral daquela aldea que, quando o rico homem for ao rio fazer troviscada, que eles lhe dem hua merenda de porretas com vinagre; sem mais outro foro; assi, que rico homem he senhor das terras cujo previlégio os cidadãos do Porto tem. Outro previlégio tem esta cidade muito grande, o qual é que nenhu grande senhor possa nela viver nem menos pousar, senão três dias, do qual previlégio pesou muito aos senhores que naquelas cidades tem suas terras, porque desejaram muito viver aí em tanto que alguns clérigos fidalgos procuravam haver benefício na See para com isso poderem aí viver, os quais cidadãos, consentem enquanto bem vivem e não alvoroçam a terra. E foi esta boa consideração dos antigos conforme ao que diz Aristóteles nas Políticas, o que também el rei D. Fernando mandou em seu tempo que se guardasse em Lisboa, como se contem em sua corónica. É cidade enobrecida de muitos e mui nobres templos, assi como a See, que é de abóboda mui forte, com torres altas que a cidade tem por divisa, com Nossa Senhora no meio, porque as scripturas antigas lhe chamam de Santa Maria, tem nobres claustras e é melhor aposento para o bispo que pode haver em outra parte. Está na See o corpo do mártir São Pantaleão, que, maravilhosamente, de Grécia por mar ali aportou. Está em uma caxa de prata dourada, de muito preço, e a cabeça anda apartada para visitar os enfermos. Está também ali hu braço de São Vicente, que se trouxe de Lisboa, e assi outras muitas relíquias.

 

O mosteiro de S. Domingos edificou a rainha Dona Mafaldra, não a mulher del rei Dom Afonso, que edificou a See, mas hua sua filha, que se chamou também assi; e naquele tempo chamavam rainhas às filhas dos reis e não ifantes, como agora se chamam. E esta mesma fundou o mosteiro de Arouca, onde ela jaz. É este mosteiro de São Domingos de nobre templo e grandes capelas, alpendres e jardins, com tanta água que pode bastar a hua vila. Têm os frades muitas relíquias e hua parte do lenho da cruz; não tem muita rendas, mas tem muitos religiosos[2].

 

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O núcleo original da cidade (morro da Penaventosa e Ribeira): 1- A Sé Catedral, 2- A porta da Ribeira.

 

 

Outro mosteiro há de Santo Eloi, que há quarenta anos que ali se fundou e tem trezentos mil reis de renda. Tem bons jardins e fonte que dentro nasse.

 

O mosteiro de São Francisco é hu edifício muito singular, grande, claro, aprazível, com grandes hortas e pomares, com muita água que de fora lhe vem.

 

Há mais, dos muros da cidade para dentro, o mosteiro de Santa Clara, de freiras, que é casa de muita relegião e grande convento de Donas de nobre gestação, ao qual vem muita água, e terá seiscentos mi reis de renda. Este mosteiro foi primeiro fundado onde chamam Entre-Ambos-Os-Rios, (onde o Tâmega se mete no Douro), nos anos de mil e duzentos, seis légua do Porto, e depois as freiras, por parte de terem e conservarem melhor a relegião, se mudaram ao Porto (…).

 

E tornando à cidade do Porto, donde afastei o propósito, digo que tem outro mosteiro no arrabalde de Vila Nova, ou banda de além, que é de freiras da ordem de São Domingos, que não há muito que foi edificado por hua duquesa de Bargança que aí jaz. É mosteiro de muitos jardins e águas, e lugar muito fresco, salvo que lhe chega às vezes o Douro, quando vai grande.

 

Outro mosteiro de freiras da Ordem de São Bento se fez aí, pouco há, por mandado del rei Nosso Senhor, com autoridade do papa para se trasladarem nele quatro mosteiros da mesma Ordem que estavam pelos montes e não pareciam honestos para mulheres, scilicet Vila Cova, Tarouquela, Tuias e Rio Tinto; e este que se fez está dentro na cidade e é casa nobre e de muita água dentro e que tem muitas religiosas e muita renda.

 

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Vila Nova, a serra do Pilar com os Guindais/Codeçal em fundo: 1- o monte onde se estabeleceu o convento da Serra, 2- Vila Nova, 3- Convento de Santa Clara no local dos Carvalhos do Monte.

 

No cabo do arrabalde de Miragaia fundou outro mosteiro de observância da Ordem de Santa Clara Dona Brites de Vilhena, no aposentamento que fez com seu marido, Pero da Cunha, e certo que é hu edifício e assento que cuido que há poucos anos daquela sorte, assi na igreja e retábulo, como nas casas, jardins, pomares e muitas fontes, e tem duas claustras mui singulares e em cada hua sua fonte no meio levantada, afora outras que dentro estão. E certo que esta senhora ornou tanto este mosteiro que com isso deixou de sua grande vertude.

 

Outro mosteiro mandou tresladar aí, pouco há, el-rei Nosso Senhor, que é o de Grijó, que estava daí duas léguas e é isento imediato ao papa, que tem muitas igrejas de sua representação, e, por estar mais conjunto à cidade se pôs da banda de além, para o meio dia, em hu lugar alto, de muita vista, por indústria do muito reverendo padre Dom Brás, que hora é bispo de Leiria, que fundou, redondo de arte mui nova, e em lugar donde se vê o mar e a cidade, e o reformou e fez da observância e parece muito melhor e mais próprio a serviço de Deus estar hu tão insigne mosteiro antes ali que em hua aldea, que assi deviam fazer a outros que há na comarca. Valerá a renda deste mosteiro hum conto com a dos cónigos, que são regrantes da Ordem de Santo Agostinho.

 

Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, que já disse, cuja parróquia é Santa Marinha, e junto dela está o castelo de Gaia em hu lugar alto e mui aprazível, porque todo aquele monte ao redor é cheio de arvoredos frescos onde há muitas laranjeiras, loureiros e outras árvores que fazem aquele monte muito fermoso, com muitas águas e fontes ao redor. Este castelo é já derribado, que a cidade derribou estando nele hu alcaide que fazia agravos na terra. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César e daí tomou o nome, e ali estavam alguas pedras com o nome de Caio César[3].

 

Há outro arrabalde a que chamam Miragaia, porque está defronte de Gaia, de que é parróquia São Pedro, onde está hu hospital do Spirito Santo, com parreiras, jardins e grande fonte.

 

Outro arrabalde está mais afastado, a que chamam Massarelos, cuja parróquia é o mosteiro de Cedofeita, que é de cónegos seculares da Ordem de Santo Agostinho, que é mosteiro assás deleitoso, de muitas frutas, jardins e fontes, que tem conezias, chantre, mestre-escola e prior, e terá por tudo quinhentos mil reis de renda com a dos cónigos. Haverá trezentos anos que este mosteiro é fundado.

 

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Gaia e Miragaia: 1-uma nesga de Gaia, onde no topo do seu monte existiu o seu castelo, 2- A torre da Marca onde agora temos os jardins do Palácio de Cristal, 3- o arrabalde de Miragaia, 4-  o arrabalde de Massarelos.

 

Em todos estes arrabaldes e ao redor deles há muitos vales com jardins de laranjeiras, limoeiros e árvores desta nação, em grande número, e outros arrabaldes há menores – da Porta do Olival e de Santo Ildefonso, onde está outra parróquia.

 

Tem esta cidade muitos hospitais e ermidas de muita devação e terá por todo quatro mil vezinhos. Haverá nela e em os arrabaldes mais de cinquenta chafarizes e fontes e muitas delas tamanhas que hua abastara a hu grande povo.

 

Duas ruas tem principais – a primeira é a rua Nova, spaciosa e comprida, mais larga que a de Lisboa, e no cabo tem o mosteiro de São Francisco., e aí, logo junto, a praça. Dezia por ela el rei Dom Afonso o quinto que a rua era a sala e as casas eram as câmaras, o mosteiro era a capela e a praça o jardim. A outra rua mui nobre é a rua nova de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o mosteiro de São Domingos com hu fermoso chafariz de muita água, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Eloi, com outra fonte muito grande, e afora estas há pela rua e junto dela outras cinco ou seis fontes. As casas destas ruas tem todas quintais e jardins mui frescos e hortas que quasi todas tem água com que se regam, e a mor parte destas casas são boas e nobres.

 

Não achei qual fosse o fundador desta cidade, mas parece que é mui antiga e do tempo dos romanos, assi como disse de Gaia, que também eu vi alguas pedras nesta cidade que tem estas letras: IVLIVS[4]. Mas que fosse havida por cidade o não acho, salvo do tempo del rei Dom Afonso Anriques para cá.

 

Tem o termo de nove léguas em comprido, desde Grijó tee cima de Arrifana de Sousa, onde há muitos julgados e coutos de diversas pessoas, e principalmente dos mosteiros. Assi como o couto de Grijó, Pedroso, Avintes, São João da Foz, Rio Tinto, Vairão, Leça, Santo Tirso, Roriz, Bostelo, Paçoo, Vilela, Ferreira, Moreira, que todos são coutos de mosteiros e tem honras de senhores, que são Lourosa, Louredo, Baltar, e tem no termo os julgados da Maia, Aguiar, Penafiel, Gondomar, Bouças e Refojos.»

§§

 

 

1- Estas afirmações carecem de confirmação documental e creio deverão ser consideradas apenas tradições, não obstante a existência de umas escadas em frente da Sé com o nome de Escadas da rainha...

2 - Aqui João de Barros cometeu um erro grande, como já vários historiadores notaram. Na verdade a D. Mafalda que se encontra relacionada com o convento dominicano era filha de D. Sancho I, por isso neta de D. Afonso Henriques. Esta filha do nosso segundo rei foi rainha de Castelo pelo período de cerca de um ano, tendo contudo passado a maior parte da sua vida no mosteiro cisterciense de Arouca. Foi ela que em 1239 ajudou a viabilizar o convento dominicano, quando, sendo necessário ressarcir a Mitra e o o Cabido portuenses das rendas que haviam perdido com a implementação do convento de S. Domingos, doou a igreja de Santa Cruz de Riba Leça - hoje Santa Cruz do Bispo - e todos os seus rendimentos à Sé do Porto.

3 - É muito possível que as estruturas do famoso castelo de Gaia tivesse as suas fundações assentes no período romano. Dele infelizmente quase nada resta.

4 - Curioso registo arqueológico por parte de João de Barros.