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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O Recolhimento do Anjo

22.02.19

Aquele triângulo de terreno colocado entre a Reitoria da Universidade do Porto, a Igreja dos Clérigos e a rua das Carmelitas, em triste abandono andou recentemente e só há poucos anos renasceu das cinzas para se adaptar ao século XXI. Se o seu futuro é promissor nos moldes atuais, só esse mesmo futuro o dirá. Pela minha parte confesso gostar bastante do pequeno olival que o coroa, pelo efeito cénico bastante engraçado que aquelas árvores criam; sem dúvida pensado na ligação ao passado do lugar, o antigo olival do bispo. É bastante provável que esse antigo olival tenha paulatinamente recuado na sua extensão em favor da urbanização, desde que a câmara tomou conta do local em julho de 1369 (por cedência da Mitra e Cabido).

 

E numa época do passado mais particular, mais precisamente desde finais do século XVII até bem andados os inícios do XIX, na parcela de terreno que referi atrás ergue-se o Recolhimento do Anjo; estabelecimento a que muitas mulheres chamaram casa pelo menos durante uma boa parte da sua vida. O edifício foi demolido em Outubro de 1837 para dar lugar a um mercado que dele colheu o nome - projetado em Fevereiro de 1834 - que foi o primeiro mercado projetado como tal na cidade.

 

Não existem fotografias desse edifício, apenas pelo que vislumbramos em algumas gravuras e litografias focando a Torre dos Clérigos, se pode ajuizar um pouco de como seria o seu aspeto exterior. Mas para percebermos melhor como era como funcionava, sigamos as palavras de Carlos de Passos (truncadas) na sua obra publicada em 1919, Lembraças da Terra:

 

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i1 Neste pormenor de uma gravura do ano de 1837 é possível ver parte do edificado do Recolhimento do Anjo, pouco tempo antes da sua demolição (seta branca), com a Torre dos Clérigos à sua direita.

 

«Mui além da área do Mercado ia a do Recolhimento com sua capela e cerca, pois ocupava a rua São Filipe Nery, então estreita viela de passagem, e parte das ruas das Carmelitas e da Academia (local do Colégio dos Orfãos), também apertadas ruelas. O edifício era de um andar único, paredes lisas, modesta arquitectura. A meio da fachada três arcos ajeitavam o átrio de entrada assentando sobre eles o coro com três janelas correspondentes aos arcos. Adentro da portaria corriam as coisas à moda dos conventos - rodas, locutórios gradeados - porque, como essas casas, fora construído o Recolhimento e como elas gozava dos mesmos privilégios, embora não houvesse profissão para as recolhidas. A fachada dos dormitórios era bem monástica com suas janelinhas gradeadas, quase postigos. No interior quebrava em quadrado o claustro com chafariz ao meio, na qual a água repuxava em uma taça de pedra; a cerca descia até à viela de S. Filipe.

 

Ora, para sabermos como corria a vida interna do Recolhimento, vamos ver as mais frisantes passagens do novo[1] Estatuto.

 

O Rei nomeia o administrador[2] que será pessoa eclesiástica de autoridade cabendo-lhe visitar o recolhimento, averiguar a conduta das recolhidas, sindicar das queixas, regular os castigos pelas culpas e nomear o pessoal administrativo.

 

As recolhidas não passarão de vinte e uma[3] para se não destruir a observância crescendo o número, devem ser naturais do Porto ou do bispado e nobres por ascendência, donzelas, pobres e mansas de condição. As órfãs de pai e mãe preferem quaisquer outras. O mínimo de admissão é de doze anos e só até aos quarenta anos devem receber asilo. Às porcionistas exigir-se-ão iguais requisitos. Poderão admitir-se mulheres casadas com maridos ausentes e viúvas honestas até aos quarenta anos, pagando 20$000 reis anuais adiantadamente para seu sustento.

 

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i2 Pormenor do desenho de Joaquim C. Vitória Vilanova sobre a Torre dos Clérigos, onde igualmente se vê parte do Recolhimento do Anjo (ano 1833).

 

Guardar-se-há igual clausura à dos mosteiros e por isso fora de pais, mães, avós e irmãos não deve a regente permitir conversas no locutório; mas se a parentes do 2º grau der licença assistirá então de parte que os ouça e veja. Ao ouvirem missa deverão as recolhidas correr a cortina da grade do coro, de forma a que não possam ser vistas de fora. Quando para exercitarem os seus ofícios, tiverem de entrar, o confessor, o capelão, o sangrador, o cirurgião e o hortelão os acompanhará a regente e outra recolhida a tocar à frente uma campainha para se saber que entra um dos ditos e possam, por isso, as recolhidas tomar suas celas ou comporem-se.

 

(...) vestir-se-ão as recolhidas de cor parda e tocar-se-ão decentemente sem nenhum género de jóias, adereços, fitas ou outros enfeitos de vaidade, usaram sapatas e chinelas negras. Como ornatos nas celas somente poderão usar um painel ou um crucifixo. As porcionistas vestirão de igual modo e excedendo-se alguma seja censurada pela regente e persistindo seja expulsa pelo administrador.

 

Toda a gente da casa se levantará às 5 horas desde o dia da Páscoa ao da exaltação da cruz (14 de Setembro) e desde este dia ao outro, às 6 horas. Cada semana sua recolhida tangerá a tais horas a campainha e ao depois irá pelos dormitórios despertando a todas batendo-lhes na porta e dizendo-lhes - Bendito e louvado seja o S. Sacramento e a Puríssima Conceição da Virgem Maria Nossa Senhora concebida sem mácula do pecado original - ao que lhe será respondido - Para sempre, Amen - treplicando a outra - Levante-se irmã, vamos louvar a Deus nosso senhor. A seguir acenderá a luz no coro, no qual entrarão as recolhidas em forma de comunidade ajoelhando em seus lugares por ordem de antiguidade. Ai ouvirão uma meditação dum livro espiritual, entoarão a antifona Veni Sancte Spiritus, farão oração mental por meia hora entoado depois a Salve Rainha e a gratiam tuam, a reza dos Terceiros e por fim ouvirão missa. Após estas obrigações espirituais podem recolher às celas ou ficar no coro se o desejarem até às 8 horas no inverno e 7 no verão, porque a essas horas devem passar à casa dos lavores até às 10 de verão e 11 de inverno. Então, entrarão no refeitório havendo lição espiritual ou hagiológica durante as refeições. Acabada a mesa cabe ir ao coro dar graças a Deus. À uma hora voltam aos lavores até ás 5 volvendo ao coro a ouvir nova lição espiritual com meia hora de oração mental. Às 6 no inverno e às 8 no verão se tangerá para segunda mesa devendo-se graças a Deus, ao depois, no coro. E por fim a ele voltarão para um quarto de hora de exame de consciência às 8 de inverno e 9 de verão. E acabando-o se recolhem às celas devendo-se guardar inviolável silêncio desde esse momento até a missa do dia seguinte.

 

Não se dirá, pois, que fosse uma vida agradável ou deleitosa.


Quebrar o silêncio, faltar à hora do coro e culpas semelhantes, implicam suave e particular admoestação da regente à primeira vez, diante da comunidade; jejum de pão e água e a penitência do Rosário da Senhora à segunda vez. As duplas reincidências castiga-las-há o administrador consoante o seu entender. As culpas graves, desobediência, palavras injuriosas e descompostas, intrigas e discórdias, casamento tratado sem ordem do administrador, escrever e receber cartas de amor, falar de dia ou de noite das janelas ou de outros lugares com qualquer homem, violar a clausura subindo a muros ou paredes, implicavam a pena de expulsão.

 

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i3 Parte da planta de 1824 onde assinalo: 1 - o espaço onde se localizou a Porta do Olival, 2 - Passeio da Graça, 3 - o local onde hoje temos o célebre Piolho e 4 - os Leões. Passando às letras: A - Igreja dos Clérigos, B - convento das Carmelitas, C - Convento dos Carmelitas e igreja dos seus Terceiros, D - Igreja da Graça com o Colégio dos Órfãos (onde agora existe a Reitoria da Universidade do Porto). Finalmente, com a seta indico a igreja do Recolhimento do Anjo; desenvolvendo-se o seu edificado para norte, até à Rua das Carmelitas.

 

A fim da regente tomar conhecimento das diversas culpas elegerá ela particularmente duas recolhidas de mais virtude, prudência e capacidade para zelarem os excessos que virem e souberem, comunicando-lhos ao depois.

 

O dinheiro das rendas da casa se lançará em uma arca de três chaves diferentes, guardando-as, cada uma sua, a regente, a provisora e a sacristã, devendo assistir as três a qualquer abertura. (...)»

 

Aquando do cerco do Porto, em 1832-33, viram-se as ocupantes forçadas a procurar asilo no Convento de Avé-Maria e por isso o recolhimento ficou abandonado. Posteriormente, com a poeira da Guerra Civil já assente, D. Pedro cede o terreno do Recolhimento do Anjo à Câmara que nele viria a instalar o Mercado do Anjo após dois anos de adaptação do terreno e construção das novas estruturas. Assim, em 6 de novembro de 1837 a Câmara faz publicar a arrematação dos "materiais do extinto Recolhimento do Anjo desde a esquina que faz frente para a Rua das Carmelitas fronteiro ao Colégio dos Órfãos, até ao edifício da igreja exclusivamente, demolindo à sua custa".[4]

Para sempre desapareceu aquela instituição, nascida e criada em um outro tempo, tempo esse que no Porto de meados de oitocentos se queria esquecer pois que os ventos sopravam de progresso!

Por mim, ficarei contente se algum dos meus caros leitores se sentar numa das esplanadas que por ali agora se encontram e imaginar, ainda que por breves instantes, o que foi e como foi aquele lugar durante um período de cerca de 150 anos.

( Para saber mais: Poder, caridade e honra : o Recolhimento do Anjo do Porto : 1672-1800 )

 

1- De 1688.

2 - Pese embora existisse um regente que nos seus primeiros tempos foi a fundadora, Dª Helena Pereira.

3 - Contudo nos últimos tempos chegou-se a contar setenta e duas recolhidas com criadas e porcionistas.

4- Durante os anos de interregno, este e outros locais pertencentes a corporações extintas acabaram servindo de armazéns. Veja-se o anúncio dos jornais de agosto de 1836 que refere: "na extinta igreja do Anjo se estabeleceu um grande armazém de vinhos".

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Publicado originalmente no blogspot 06/08/2013, agora revisto e aumentado.

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