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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

O S. Pedro em Miragaia, segundo Camilo Castelo Branco

21.12.18

O que dá uma ida ao hospital e a leitura na sala de espera de um livro de Camilo Castelo Branco? Bom, no meu caso duas coisas, sendo a segunda a que aqui apresento.

 

No romance Onde está a felicidade? publicado em 1856, Camilo coloca parte da ação nas ruas de Miragaia, onde reparte traços verdadeiros daquele tempo que seguramente conheceu com os fictícios personagens da sua história. Pelo pitoresco e curioso, encontrei interesse em chamar a este blogue uma parte do 4º capítulo daquele romance. Se a fase final deste excerto é criada pelo passeio de um personagem fictício num espaço real, a primeira é toda ela pura tradição dos meados do século XIX. Delicie-se então, caro leitor, com as palavras do Mestre!

 

 

*

«Era uma noite, vinte e oito de junho de 1845, véspera do milagroso apóstolo S. Pedro.

 

Sabeis como, nesta religiosíssima cidade do Porto, se festejam todos os santos da corte celestial, e particularmente Santo António, S. João e S. Pedro. Este, mais prestante que todos, pela importante missão de claviculário da bem-aventurança, gloria-se de ser festejado anualmente na cidade da Virgem com uma porção fabulosa de estoiros, um inferno indescritível de fogueiras, e o consumo sobrenatural de pipas de vinho, fritadas de linguiça, postas de pescada, e bebedeiras sem cifra conhecida no Bezout.


S. Pedro de Miragaia é, incontestavelmente, de todos os Pedros santos o mais querido. Aquele espaçoso areal não basta para os jorros de povo, que afluem das ruas sobranceiras. Surgem, como por magia, as fileiras de lâmpadas variegadas; os mastros de palha e alcatrão, que fedem e abrasam; as orquestras militares, que consomem metade do tempo vozeando nas trompas estridulosas, e outra metade nas libações homéricas, fornecidas pela liberalidade dos mordomos; as tendas gratas à gastronomia suja da farrapagem, que as atulha, dando vivas ao santo, e praguejando obscenidades e insolências contra a taverneira tardia no ministrar da meia canada por cabeça; finalmente, o areal de Miragaia é um misto de todas as regalias que entusiasmam o populacho, azando-lhe ocasião para que naquelas caras sobressaiam todas as linhas grotescas de uma alegria estúpida.

 

No longo quarteirão de casas, que se estende ao longo do areal, verieis nessa noite caras suportáveis, que o reflexo meio fantástico da iluminação vos afigura belas. Vereis outras, realmente belas, colocando-se de modo que a projeção tíbia da luz as favoreça, na exposição noturna, aclarando-as aos olhos do paciente amador, que passeia em baixo sorvendo pelos pés a humidade da areia.

 

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Um pouco do areal de Miragaia, junto à Porta Nova ou Nobre, numa imagem anterior ao início da construção da nova alfândega.

 

 

Entre estes, na mencionada noite, podíeis ter visto Guilherme do Amaral, só, com os olhos mergulhados além nas trevas do rio Douro, absorto, recolhido nesses esconderijo de tristeza, que o homem de algum senso íntimo leva consigo a toda a parte.

 

Como ele, ajuizado desprezador desses júbilos boçais, viera ter a Miragaia, não o saberia dizer. Achava-se aí, sem saber ao que viera, e sentia não ter asas de querubim ou de hipogrifo para transportar-se ao deserto da Líbia, ou pelo menos ao seu quarto da Águia de Oiro. Neste pensamento, cuja impossibilidade o incomodava, caminhou pela primeira travessa escura e despovoada que se lhe ofereceu. Atravessou um beco de aspeto pavoroso e nojento trilho: desembocou numa rua, que o conduziu a outra, na direção oposta da Águia de Oiro, para onde queria caminhar. Achou-se bem, apesar do fétido nauseento que ressumava das fisgas das portas. Não via ninguém, ninguém o via, nem o mais ligeiro sussurro: era caminhar na escavação de uma rua de Pompeia, pela vista, e no aqueduto de despejos de uma cidade, pelo cheiro. O romanesco tem seus caprichos sórdidos. Amaral não trocava aquela atmosfera enjoativa pelos perfumes de nardo e rosas do toucador de alguma das suas numerosas admiradoras».

*

 

 

E aqui está! Eis o tal excerto onde Camilo melhor do que ninguém nos transporta por breves minutos para os meados do século XIX. Que aqueles vielas eram imundas e sujas na época e mesmo até aos meados do século XX, não sofre dúvida (eu muitas vezes as cruzei já numa fase algo mais higiénica, mas...). Quanto à minha memória do S. Pedro de Miragaia, bom, esta reduz-se a observar do alto da rua nova da Alfândega o bailarico no largo de S. Pedro, admirando ao nível da antiga praia a boa disposição, a música de baile e as luzes da iluminação festiva.