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Fund. 30 - IX - 2009


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A maioria da informação divulgada nesta blogue é subsidiária dos muitos livros e artigos já existentes que nos dão elementos preciosos para a reconstrução de fases pretéritas da nossa cidade. Mas de quando em vez surgem nos documentos que consulto quer no AMP, quer no ADP, quer mesmo (mais raramente) na TT; elementos para a história da nossa cidade que reputo inéditos mas bem interessantes. O que se segue é um desses pedaços de história que não estão perdidos como a esmagadora maioria dela está, mas sim apenas guardado, escondido em manuscritos amarelecidos à espera que alguém por eles se interesse.

 

Há uns tempos atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam Boca do Inferno. Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:

 

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«A BOCA DO INFERNO

Era este lugar da Boca do Inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.»

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Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço; e não será de estranhar se parte dele ainda lá estiver, bem fundo, entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual!

 

capt2.png

i1 1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço (fonte: googlemaps).

 

Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, em que os frades cedem a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

 

Contrariamente por exemplo aos seus congéneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa Boca do Inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para além de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicos; conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à sua Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

 

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser «lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus».

 

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na célebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Forum da Cale romana. Humildemente confesso que não partilho da mesma opinião e creio que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa bem como esta cisterna e umas sepulturas medievais descobertas em 1871 em frente à porta principal do Palácio da Bolsa, contribuem - como que pistas forenses - para o estudo deste mistério.

 

capt.png

i2 1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - início das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completamente rasgada havia um ano).

 

 

capt3.png

i3 A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo indica a área onde terá estado a Boca do inferno.

 

A i2 representa uma realidade uns anos posterior à i3, que é um extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.

 

 

ADITAMENTO

Após ter escrito a publicação que acabou de ler, encontrei numa pasta de documentos avulsos do cartório do convento de S. Domingos um manuscrito que refere uma "outra" Boca do Inferno. Trata-se de um documento de 1845, já portanto de uma época posterior à extinção dos conventos, referente à água que pertenceria a uma casa da rua do Infante D. Henrique, onde vinham cair as vertentes da água do antigo convento dominicano. Curiosamente, os depoimentos das diversas testemunhas (que me parecem concertados...) referem a Boca do Inferno como sendo a arca que albergava a nascente da água que vinha ao convento franciscano, e não na outra ponta do encanamento. Ou seja, no tal campo do Meloal, lá em cima no Laranjal. Quase todas as testemunhas são unânimes em dizer que a água saía «de uma cisterna chamada Boca do Inferno, situada em uma casa da rua do Laranjal ... passava encanada por baixo de propriedades diversas da mesma rua com direção aos extintos conventos de St. Elói, S. Domingos e cerca de S. Francisco até entrar na dita propriedade»; uma das testemunhas, pedreiro de profissão, conhecera mesmo o colega que fizera a demolição da «Pia de Registo  que existia dentro da cerca de São Domingos, donde saía a água para S. Francisco».

 

Temos portanto a mesma nomenclatura, o mesmo tipo de estrutura, mas referindo-se aos extremos opostos do encanamento! Qual a correta versão? Pessoalmente tendo-me a inclinar para a versão do convento, uma vez que esta parece representar uma cisterna de elevada altura ao passo que a outra aponta para uma simples arca que resguardava a nascenta de uma fonte. Poderá dar-se igualmente o caso de em 1845 já se ter perdido a noção do lugar original da tal Boca do Inferno, mas saber-se que estava associada ao cano da água dos franciscanos... ou quem sabe, poderão ambas representar uma designação válida, cada uma no seu local. São meras hipóteses que só outra documentação que venha um dia a ser revelada, poderá responder.

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Publicação originalmente colocada no blogspot em 31.12.2016; agora revista e aumentada.

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