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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Onde ficava o Sério ?

por Nuno V. Cruz, em 06.12.18

Confesso que embora esta questão pairasse na minha mente apenas recentemente lhe procurei solução, não tendo sido difícil desencobrir a resposta. Todas as referências que consultei sobre o local apontavam para a rua Antero de Quental, todavia sempre me pareceu muito vaga e inexata esta designação: um lugar não é uma rua, sobretudo uma rua grande como a referida. As ruas são posteriores aos lugares e serviam, quando o automóvel não era omnipotente neste planeta, para pôr em contato sítios, lugares, povoas, casais, enfim aldeolas ou 'micro urbanidades' que nos arredores do Porto não faltavam! Mas é verdade que o local ficava algures ao longo daquela rua, ou seja, na estrada para Braga.

 

Esta designação de lugar do Sério ou sítio do Sério surge bem referenciada a partir dos inícios do século XIX, deixando dela se ouvir falar aí pelos finais da mesma centúria. Pela minha parte, em jornais de 1837 deparei-me com pelo menos três referências ao Sério em anúncios: o primeiro, de maio, refere umas casas para venda 'logo abaixo do portão do Sério', uma com frente para a estrada de Braga [rua do Vale Formoso] a outra com frente para a estrada de Paranhos [rua Antero de Quental/rua do Campo Lindo]. Em outubro encontrava-se à venda 'uma grande propriedade, na rua da Rainha [Antero de Quental], ao pé das portas do Sério'. Finalmente em novembro: 'No armazém novo, no lugar das Regueiras freguesia de Paranhos, na estrada de Braga, próximo (mas fora) da Porta da Barreira do Sério, recolhem-se por aluguer pipas de aguardente e vinho...'; esta última alusão reporta à Barreira que ali existia para cobrança dos impostos municipais dos géneros que entravam na cidade.

 

Uma planta disponível no sítio da Biblioteca Nacional Digital - excelente para conhecer os arredores do Porto naquela época - ajuda-nos a melhor localizar aquele sítio, apresentando-o tal como ele era por alturas do Cerco do Porto. Ei-la:

 

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i1 O Lugar do Sério numa planta elaborada a partir da de Balck de 1813 (à qual foram acrescentado os arredores do Porto nos anos 30 do mesmo século). Vêm-se os fortes e baterias do tempo do Cerco; a norte do traço escuro ficavam os migueis (absolutistas), para sul os malhados (liberais).

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i2 A mesma área na atualidade. Eis a legenda: 1- Monte Pedral que numa pequena parte ainda subsiste no local do quartel dos bombeiros e das piscinas da Constituição (a); 2- Rua do Capitão Pombeiro; 3- Rua do Vale Formoso; 4- Rua de Antero de Quental (ex-Rua da Rainha); 5-Quinta do Lindo Vale, agora Parque do Covelo onde se encontram as ruínas do edifício da quinta e sua capela anexa).

 

Hoje o local está reduzido a mero cruzamento urbano, regulado pelos muito reguladores semáforos, muitas vezes um caos nas horas de ponta. Enfim, nada de novo aqui... (Mas qual é o lugar, que nunca mais o mostras, pergunta o leitor já um pouco ansioso! Calma... Como referi é um banal cruzamento).

 

Ecce Loco:

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i3 e i4 - O lugar do Sério ou dito de outra forma, o cruzamento da rua Antero de Quental, Capitão Pombeiro e António Cândido!

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Foi durante o cerco do Porto que o Sério teve os seus quinze minutos de fama na história de Portugal. Aqui existiam duas baterias liberais: a de D. Maria II a poente da estrada e a de D. Pedro a nascente. Ali terão existido também dois aquartelamentos de tropa, mas tudo estruturas de caráter provisório. Comparando a planta acima com as fotos do local na atualidade, podemos verificar que era sobretudo no lado nascente, onde estão os edifícios da residencial e do toldo vermelho, que se encontrava o descampado de uma dessas baterias.

 

No dia 9 de Abril de 1833 as tropas miguelistas tentaram ocupar o monte do Covelo, que por aqueles dias era terra de ninguém. Mas foram obrigados a abandonar aquele sítio por uma ação comandada pelo Coronel Pacheco, auxiliado pelo Major Pimentel, que fez dividir em duas colunas cerca de 400 a 500 homens: uma aproximando-se pela estrada da Aguardente (estrada para Guimarães, agora rua Costa Cabral e rua do Lindo Vale) e outra pela estrada do Sério. Postos os 'migueis' em fuga, os barris e ferramentas ali encontrados que estavam a ser usados para montar o reduto foram de pronto usados pelos liberais para o mesmo efeito.

 

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i5 Muro que aparenta ser a secção mais antiga da rua Capitão Pombeiro (coevo da guerra civil?). Todas as edificações novas desse lado da rua estão recuadas por forma a alargar os passeios mas ainda um punhado delas permanecem neste alinhamento.

 

Igualmente me recordo de algures num jornal dos anos 70 do século XIX ter lido uma notícia que referia o Sério como sendo um 'caso sério' de negligência por parte da Câmara face ao terrível estado em que aquela estrada se encontrava. Com efeito aquela artéria era uma das mais importantes de saída da cidade e constatantemente percorrida por inúmero trânsito, incluso a diligência para Braga. Tal deveria ser o desmezelo em que se encontrava o macadam, que as cabeças dos passageiros daquele transporte batiam constantemente no teto das carruagens!

 

Finalizando: a pergunta mas difícil ainda não a respondi e nao logro faze-lo embora esteja sempre recetivo à amável partilha de informação por parte dos meus caríssimos leitores: como surgiu esta designação? Outras duas perguntas poderei igualmente fazer: quando terá verdadeiramente morrido este micro-topónimo e quantos como ele terão já perecido com a equalização promovida pela expansão urbana, que varreu literalmente do mapa os nomes de muitos lugares bem como as suas identidades?

 

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Originalmente colocado no blogspot em 24.02.2017, agora revisto e ligeiramente acrescentado (última modificação em 23.12.2018).

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