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A Porta Nobre

Contributos para a história do Porto

Os capitéis manuelinos da igreja de S. Bento de Avé-Maria

15
Mai13

Aquando da extinção do Museu Municipal do Porto, em 1940, o espólio pétreo deste transitou por algum tempo para o claustro da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Hoje estas pedras são guardadas no acervo lapidar do Museu Nacional Soares dos Reis, ainda que a secção não seja de fácil visita. Entre outras preciosidades encontravam-se alguns capitéis da igreja manuelina do convento de S. Bento de Avé-Maria! (neste sítio poderá o leitor encontrar imagens mais atuais de três deles).[1]


Devemos ter presente que a igreja em causa não era a que se encontra amplamente fotografada, de origem barroca, demolida no início do século passado para dar lugar à estação de S. Bento. Na verdade, estes capitéis viriam já do primitivo templo, cuja construção ocorreu no início do século XVI; sendo  a igreja barroca construída para o substituir.

 

 

capiteis.png

Fonte das imagens: http://gisaweb.cm-porto.pt/

capiteis2.png


Resta saber se estes capitéis estavam integrados na construção mais moderna ou se estariam dispersos pelo terreno, como foi o caso dos elementos encontrados na Sé aquando da sua desbarroquisação, por parte da DGMEN.

 

Aproveito para enriquecer esta publicação com alguns apontamentos que descrevem um pouco o que seria a igreja manuelina, ao menos nos seus traços gerais, com a ajuda do trabalho de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves.[2]

 

O templo original deste mosteiro, destruído por um incêndio em 1783, começou a ser erguido em 1518. A capela-mor era da largura do corpo da igreja, com uma fresta, e possuía um tabuleiro[3] acessado pela nave da mesma, que seria em metade do comprimento preenchido com um altar e a outra metade destinada ao sacerdote. O corpo da igreja estava dividido, sensivelmente a meio, em duas partes; uma delas destinada aos coros alto e baixo. A parede divisória teria duas janelas quadradas com grades e o seu coro alto e o coro baixo eram, cada uma, iluminada por três frestas. Os altares colaterais teriam igualmente tabuleiros para colocação de altares, e seriam fabricados dois confessionários para o coro baixo, iguais aos de Santa Clara de Vila do Conde.

 

A face da igreja virada à rua correria certamente pelo mesmo local que a sua sucessora barroca, i. é, virada à rua do Loureiro. Nessa parede rasgavam-se duas frestas e no centro encontrava-se o portal, cuja descrição no contrato de construção deixa ver o estilo em que o templo foi erguido:

« ...con alguns aramados, que bem pareçam, e debruados os pees direitos com suas vasas, e capitrés, e com seu chambrante de fora, que arremate em cima, com seu froram, e sobre o dito froram as armas reaes com sua coroa, e com a devisa da esfera, huma de cada parte, e os escudos no meo, o qual será de tres palmos de alto, e de largo o que demandar... ».

Seria assim uma fachada tipicamente manuelina, época do qual quase nada resta na nossa cidade. À ela foram acrescentadas, um século depois, as imagens de São Bento e Santa Escolástica. Já no final de Setecentos, a capela-mor foi substituída por uma outra, mais ampla.

 

A construção de um campanário, peça fulcral para a regulação da vida conventual ainda que secundária do ponto de vista estilístico, estava igualmente prevista.

 

Ossário das freiras de São Bento de Avé-Maria.j

E porque tratamos do convento das freiras bentas e de suas pedras manuelinas, refira-se que também deste estilo é o arco que ainda hoje se encontra a emparedar o sepulcro das monjas, no cemitério do Prado do Repouso, trasladado diretamente do convento, tal como as ossadas das suas antigas ocupantes (fotografia do autor)

 

Em 1520 é efetuado o contrato de carpintaria e caimento do mosteiro, com a importante obra da armação dos telhados a decorrer desde aí. Quanto à carpintaria, da responsabilidade do mestre Bartolomeu Dias, englobou também, por contrato posterior, a construção de um cadeiral de 98 cadeiras altas e duas baixas.

 

Não quero acabar esta publicação sem referir o que Manuel Pereira de Novais nos diz sobre esta igreja (recordemos que estas memórias são tudo o que dela nos resta):[4]

« La iglesia, assi en el frontispicio de la capilla mayor, como en el techo de cubierto, es una ascua de Oro, con muchos florones de los mesmo en los ambitos de los pinjantes y artessones, de labores y follajes de primeros debuxos; La iglesia iglesia toda jaspeada de azulejos de invencion rara y vistosa, el pulpito da jaspe; con mucho adorno de los altares de ornamentos esquesitos, y custosos, y con mucha plata para servicio dellos (...) el choro assi el baxo como el alto con muchas sillas y muy espacioso, principalmente el alto... »

_________

1 - «Os efeitos da publicação de legislação específica não se fizeram esperar, pois as colecções pertencentes ao Museu Nacional de Soares dos Reis, como igualmente as do Museu Municipal do Porto, foram no sentido da sua reorganização para posterior fusão, com o objectivo de serem instaladas no novo edifício especialmente organizado para esse fim, ou seja, beneficiar da visibilidade como Museu Nacional, usando as colecções do Museu Municipal do Porto como meio para atingir esse fim, levando ao desaparecimento da denominação do museu mais valioso da cidade do Porto, tal como o Dr. Pedro Vitorino se tinha referido ao museu municipal. » [António Manuel P. Almeida in Museu Municipal do Porto - das Origens à sua Extinção (1836-1940)]. Já foi há muito tempo - 80 anos - e por isso já se apagou da memória dos vivos. Mas como a História é um novelo sem fim, vemos que se deve em boa parte às ações daqueles anos, a inexistência de um verdadeiro Museu Municipal do Porto. Existem, é verdade, vários e valiosos núcleos espalhados pelo concelho, ao que, algo artificial mas compreensivamente, se designa por Museu da Cidade (independentemente do grande valor das pessoas ligadas ao projeto, bem entendido). Caberia ao decisor político arranjar o traquejo de criar um verdadeiro Museu Municipal do Porto. Houvesse vontade política e tudo se faria, como acontece em vários outros quadrantes da atuação municipal.

2 - As duas Igrejas do Mosteiro de São Bento da Avé Maria no Porto. O trabalho do autor é mais completo, e merece leitura atenta por quem se interessar pela história do mosteiro.

3 - Isto é, patamar.

4 - E se esta desapareceu por causas naturais, a sua sucessora barroca teve morte progamada, pois não conseguiu escapar ao camartelo!