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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Para a história da carta topográfica do Porto de 1892

por Nuno Cruz, em 05.03.18

É conhecida de todos os portuenses com interesse pela história da sua cidade esta famosa carta topográfica. Nela tem o investigador uma fonte indispensável e incontornável de consulta para se orientar nos meandros da urbe do final do século XIX. Uma boa notícia para quem a quer consultar e não pretende ou não se pode deslocar ao Arquivo Municipal do Porto, foi a colocação on line desta planta, folha a folha, quadrícula a quadrícula (aqui).

 

Não obstante ela se encontre associada à data de 1892, o moroso e paciente trabalho para o seu levantamento teve início em 1877, ainda que a decisão camarária da sua execução remonte ao ano de 1869!

 

A empreitada foi inicialmente contratada com o engenheiro Bartolomeu Dejante pelo preço de 2$800 réis o hectare, «dificuldades porém se levantaram depois e entre elas a do falecimento do engenheiro Dejante, que fizeram interromper este serviço». Só em 7 de junho de 1877 o engenheiro municipal Agnelo José Moreira foi encarregado de levar avante o projeto, tendo este chamado para seu ajudante o capitão Augusto Gerardo Teles Ferreira que se apresentou ao serviço em 7 de agosto de 1877. Nesse mesmo mês se procedeu «ao reconhecimento do terreno a levantar, e à colocação dos pontos trigonométricos e divisão das folhas, em que devia ser dividido o atlas da carta».

 

A triangulação fora bem feita mas não se adequava, uma vez que havia sido feita para a escala 1,10000 (usada na planta de Lisboa), quando mais tarde se determinou que a escala deveria ser 1,500 - para se obter a necessária minúcia no detalhe - mas aquela triangulação desadequada «apresentava folhas consecutivas sem um só ponto trigonométrico, o que dificultava o bom andamento do trabalho, e teve de se proceder à determinação de pontos subsidiários ... reservando-se para o seu seguimento a determinação de outros que fossem sendo urgentes.»

 

Apesar da mudança de escala ter representado mais despesa para a câmara e mais tempo para a sua elaboração, «não deixa este de ser bem compensado com as vantagens da quadruplicação da superfície da mesma planta, prestando-se esta assim melhor, à divisão da propriedade, onde só falta por os nomes dos indivíduos a quem pertence, e o seu rendimento para ser uma verdadeira carta cadastral.»

 

No início de 1878 estavam já levantados 52 hectares «na sua parte mais difícil, que é a das freguesias da Sé e Vitória, e estava-se durante o inverno tratando da cópia da carta hidográfica do Douro, na parte em que está gravada, a fim de auxiliar o levantamento da planta». Em maio encontravam-se já 275 hectares desenhados (30 folhas) e 5 delas quase completas. Este trabalho já em fase adiantada englobava: «pelo Sul, o rio Douro desde a fábrica de louça na Corticeira até à igreja de Massarelos; por Oeste, desde a igreja de Massarelos, seguindo pelo fim da rua da Restauração, rua de Entre-Quintas, até o Palácio de Cristal, por o Norte, rua do Principe, Cedofeita, Oliveiras, Lavadouros, D. Pedro, Sá da Bandeira, rua Formosa e S. Jerónimo; por Este, rua de S. Jerónimo, Campo 24 de Agosto, rua da Murta, rua e passeio das Fontainhas a fechar na fábrica de louça na Corticeira».

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Para ilustrar esta publicação optei por não trazer as folhas mais conhecidas referentes à zona central da cidade. Neste caso vemos uma folha de canto, que apresenta o mar, a praia dos Ingleses e algumas habitações da rua da Senhora da Luz. A fonte dela, é claro, é o imprescindivel Arquivo Municipal do Porto.

 

Segundo o documento de onde venho extraindo estas notas, «a planta da cidade até às novas barreiras compreende 2.000 hectares aproximadamente, o que dá para 200 folhas na razão de 10 hectares por folha». De maio de 1878 até ao final de 1879 haviam sido levantados mais 223 hectares, faltando para a sua conclusão 1.725, «por onde se vê que continuando os trabalhos com o mesmo desenvolvimento que até aqui, serão necessários cerca de treze anos anos para completar este serviço.» Esta estimativa errou por excesso, contudo já o próprio documento deixava a subtil esperança que a planta estivesse concluída em dez anos (1890) «atendendo a que o resto da cidade se presta mais facilmente a este género de trabalho, devendo então a planta caminhar com mais rapidez».

 

Até ao final de 1879 o desenho da planta havia sido exclusivamente feito pelo desenhador da câmara, que para isso auferia uma gratificação mensal de 15$000 réis e executava a tarefa nas horas que lhe sobravam dos trabalhos que tinha por obrigação fazer no desempenho do seu cargo. O trabalho contudo estava muito atrasado pelas seguintes razões: «à falta de pessoal necessário para acompanhar o serviço de campo; à necessidade que o desenhador tem de satisfazer ao serviço (...); e à interrupção deste trabalho por algum tempo por falta de papel para o desenho, em consequência de se ter deteriorado com humidade todo o que havia, e por não ter servido uma remessa que ultimamente veio, mas que se não aceitou por não ter as dimensões necessárias».

 

O ideal, refere o documento, seria o capitão Augusto Gerardo Teles Ferreira ser auxiliado por outro técnico, pois que ele estava já na altura com todo o trabalho na sua mão, ou eventualmente abandonar-se a execução por conta da câmara e contratualizar externamente o restante levantamento.

 

Era também urgente e necessário que o plano de levantamento da planta fosse acompanhado pelo trabalho de planimetria [1] nas folhas já levantadas e que esse trabalho prosseguisse acompanhando o da planta, tal como a câmara de 1869 decidira; sem esquecer que a escala da carta haveria posteriormente de ser reduzida de 1,500 para, eventualmente, 1,5000. Isto pela necessidade de se proceder à sua gravação e publicação, procurando o executivo camarário tirar daí algum rendimento que pudesse atenuar o gasto com todo o processo.

 

Julgo, com estes apontamentos, ter dado uma ideia do estado em que se encontrava o levantamento da planta em janeiro de 1880. Dou assim por concluída esta breve recolha de curiosos pormenores sobre aquele documento que todos os apaixonados pela história da cidade sentem como uma referência. Pela minha parte fico na expectativa de mais descobertas que me possa trazer a documentação que amiúde consulto, e sobretudo que os meus leitores encontrem relevância e interesse na informação que por aqui vou partilhando convosco.

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1 - Representação em mapa ou planta topográfica sem ter em conta o relevo (fonte: dicionário Priberam).

 

Todas as citações do Relatório da gerência da Câmara Municipal do Porto durante o biénio 1878-79, da responsabilidade do presidente António Pinto de Magalhães Aguiar e lido na sessão camarária de 2 de janeiro de 1880 (impresso na Tipografia d' O Jornal do Porto, no n.º 28-30 da rua dos Caldeireiros).

Para saber mais: A CARTA TOPOGRÁFICA DA CIDADE DO PORTO DE 1892— UMA BASE CARTOGRÁFICA PARA A GESTÃO URBANÍSTICA MUNICIPAL