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A Porta Ŋobre

Contributos para a história da cidade do Porto

Quarenta dias sem esperança

por Nuno Cruz, em 23.04.18

Uma pequena descrição dos meses mais complicados do Cerco do Porto.

 

« Havia três dias que o marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns soldados belgas, e com ele entrou também para dentro do cerco um terrível inimigo - o cólera morbus. Aos tifos, que já devastavam a cidade, veio juntar-se mais essa desolação para tornar mais completo o triunvirato da morte.

 

De cem pessoas atacadas, diariamente sucumbia o terço.

 

A fome ia chegando ao desespero, porque além das forças inimigas, desde janeiro que os vendavais bloqueavam a barra. À falta de carne os doentes eram sustentados a sopa de bacalhau, os caldos temperavam-se com açucar e aguardente: as camas eram desfeitas para sustentarem a cavalaria; e além dos preços dos géneros mais urgentes os merceeiros vendiam falsificações doentias, tais como de azeite e óleo de linhaça, ou de manteiga e cebo. Era preciso lutar com a fome, e em fevereiro começou a distribuir-se uma sopa económica, de um quartilho de caldo de feijão com arroz e farinha de trigo; no primeiro dia acudiram trezentas pessoas, no segundo subiram já a setecentas as rações. Enfim, desde a perda do reduto do Monte do Crato, que Solignac apenas conservou oito horas, as condições de resistência da cidade tornaram-se desesperadas; derrotado também na sua tentativa de assalto ao Castelo do Queijo, em 24 de janeiro, a consequência desastrosa fez-se logo sentir; o inimigo compreendeu que fechando a barra do Porto venceria o cerco pela fome.

 

Para isso fortificou quase toda a costa e levantou a terrível bateria de Serralves, que cortava toda a comunicação com a Foz.

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i1 - A bateria de Serralves (ao centro) e a povoação de Serralves (em baixo, à direita).

 

Pelo seu lado, os liberais reforçaram o reduto da Senhora da Luz e ocuparam imediatamente as alturas do Pasteleiro e do Pinhal. Mas a resistência ia-se tornando cada vez mais inútil, porque além da chuva de granadas que caía dia e noite sobre a cidade, além da recrudescência do cólera, para o qual já não bastava o hospital da quinta dos Congregados, o mar conservava-se tão tempestuoso que não era possível aparecer vela alguma no horizonte! Foram quarenta dias sem esperança, quarenta dias em que esteve tudo perdido menos a força moral.

 

A história oficial, subordinada à exação dos boletins de campanha, não alude a este período dos quarenta dias do princípio do ano de 1833, e contudo nesse período de desolação extrema é que se praticaram os maiores rasgos de validez moral: todos foram heróis, as mulheres e os velhos. É pena, que homens do talento de Garret e Herculano, e mesmo generais que sabiam trocar a espada pela pena e que foram heróis nesses grandes dias de sacrifício, nunca se lembrassem de coligir as sublimes tradições épicas que ainda casualmente se repetem do cerco do Porto. Essas tradições vão-se perdendo com toda a poesia de um povo que se esquece do seu passado. (...) »

 

Excerto de um texto de Teófilo Braga, publicado no primeiríssimo número da revista O Tripeiro, em julho de 1908.