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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Reflexão sobre educação da mulher portuense

07.02.19

«DA EDUCAÇÃO DAS SENHORAS PORTUENSES

As damas do Porto teem em geral uma educação mui appoucada e mesquinha - Injustamente consideradas escravas dos homens, forão sempre olhadas como uma parte secundaria da Socidade, e havidas pos instrumentos passivos dos seus deleites e paixões - Assim impossivel era que estes cuidassem de as fazer devidamente educar; ao contrario pensavão, que era eminentemente decoroso ás familias e congruente com a utilidade publica o total desprezo da educação de suas espozas e filhas. É este um dos preconceitos populares, que em verdade se torna já escandaloso no actual estado da nossa civilização. Hoje que nós principiamos a concorrer em companhias e sociedades, hoje que folgamos de conviver uns com os outros em reuniões amigaveis, será por ventura hoje airoso aos pais, aos esposos e aos irmãos ouvir dizer de suas consortes, manas e filhas.... = São bellas senhoras, teem excellentes qualidades, tornão-se estimaveis por suas virtudes; mas são senhoras sem nenhuma educação intellectual, não sabem ler nem escrever, não pódem sustentar uma conversação sobre objecto nenhum que não sejão modas, enfeites, arranjos domesticos, intrigas de visinhas, &c. &c.=?

 

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Se os Portuenses gostam de ouvir isto, que realmente é verdade, então cumpre-lhes continuar a desprezar a educação das Senhoras; mas se pelo contrario, estas verdades os fazem córar de pejo, cuidem de imitar os povos cultos da nossa Europa; olhem para os cuidados que os Francezes e Inglezes desenvolvem na de suas filhas: estas são alli desde a infancia tratadas com um disvelo em nada inferior ao que se tem com os meninos, além dos primeiros elementos que em toda a parte são indispensáveis a uma Senhora, que um dia hade governar a sua familia, aprendem as meninas a leitura, a escripta, a contabilidade simples, a musica e alguns de seus exercicios instrumentaes, as linguas Franceza e Ingleza, a dança, a moral religiosa e civil &c; de maneira que tendo chegado aos 18 annos de idade está naquelles dois Paizes uma Senhora tão bem educada e desenvolvida no fisico e no moral que, mesmo não sendo mui rica, se enlaça facilmente com um homem, que é depois bom esposo e excellente cidadão - De proposito fallamos aqui ás Senhoras Portuenses, porque, em verdade, muito sentimos que as nossas virtuosas e bellas compatricias estejão ainda tão atrazadas na sua educação fisica e intellectual, e que sejão n'isto tão inferiores ás Lisbonenses - Em Lisboa causa já muito prazer ao viajante estrangeiro conversar com as Senhoras da classe meia, são geralmente sufficientemente instruidas e bem prendadas; reina alli no seio das sociedades uma jovialidade, ingenuidade e doçura, que realmente agradão; a par de muitas virtudes tem as Senhoras de Lisboa, todas as boas qualidades, que tornam aprasiveis companhias = Porque razão não hãode as mãis de familias educar no Porto as suas filhas com o justo disvelo que merecem? Quererão os Portuenses continuar a receber dos habitantes de Lisboa o amargoso mas justo sobrenome de Provincianos? O Porto é uma cidade eminentemente activa e industriosa; os seus habitantes são naturalmente bem morigerados e dados ao trabalho; existe entre elles um amor decidido pela liberdade e prosperidade nacional; estão hoje na estrada dos melhoramentos e do progresso: cumpre que se deem com toda a attenção e cuidade á educação dos seus filhos, e que d'ora em diante cuidem de lhes prestar todos os meios d'uma decente civilização.»

Artigo editorial do jornal de curta vida O Liberal Portuense, junho de 1837 (ortografia original).

 

Não nos escandalizemos com as palavras lidas atrás, pois que os tempos eram muito diferentes dos atuais. Para complementar aquelas palavras deixo umas outras, muito breves, da pena de um grande Estadista. Aliás um dos poucos que sempre soube estar acima de tricas partidárias ou interesses pessoais durante o conturbado período pós-1834, de seu nome José Xavier Mouzinho da Silveira:

 

«O grande é que o mundo moral acompanhe o desenvolvimento material, e para isto tudo depende de dar educação às mulheres, as quais têm muito maior importância do que se lhes tem dado - elas são o depósito do género humano, o princípio de toda a civilização e a base de todos os sentimentos benévolos e generosos, e antes dos filhos serem apreciados ou instruídos estão já por elas perdidos ou ganhos.»

(extraído do testamento de Mouzinho da Silveira, falecido a 4 de abril de 1849)

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