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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Romance às obras setecentistas na Sé

07.07.19

Como é geralmente sabido a Sé Catedral do Porto chegou aos início do século XX com o aspeto que lhe foi dado após a Sede Vacante ocorrida dois séculos antes[1]. Com efeito, as obras que o Cabido operou na fábrica da nossa secular igreja vestiram-na de elementos barrocos, tendo para isso sido sacrificados muitos dos seus elementos românicos originais e outros desaparecido por detrás de novas paredes, talha e estuque... No século passado estando a DGEMN e seguir uma política de reintegração dos monumentos no seu desenho românico original, se por uma lado eliminou muitos desses anacronismos setecentistas colocando à vista estruturas originais do monumento que se pensavam para sempre perdidas, por outro lado fez desaparecer muitas obras de arte barrocas, no conjunto de todo o monumento. Assim, é um facto que hoje nela podemos apreciar bastante trabalho de pedreiro de excelente execução, contudo longe de ser medieval ele próprio ainda não completou cem anos de idade! Talvez agora, no século XXI, com uma outra forma de encarar e acarinhar os monumentos que herdamos de geração em geração, a nossa Catderal possa descansar de semelhantes esbulhos; e que as gerações atuais e vindouras não tenham ideia de a modernizar ou de a desmodernizar com uma suposta reintegração (o que quer que isso queira dizer!).

 

Mas voltemos ao século XVIII. Existe na Biblioteca Pública de Braga um Romance não datado e não assinado, que é particularmente interessante de ler: trata-se nada mais nada menos do que uma crítica ao Cabido e ao cónego encarregado das obras da Sé por aquela mesma instituição. Se não se trata de um documento profundo e importante em termos históricos, não deixa ele de ser bastante curioso e jocoso. Aqui o deixo transcrito do volume II da obra O Porto na Época dos Almadas de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves (1990), atualizando apenas a ortografia. Espero que vos agrade!

 

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interior da Sé Catedral antes das transformações operadas pela DGEMN nos anos vinte e trinta do século passado. Este era o aspeto que havia resultado das campanhas de obras barrocas, criticadas no texto.

 

*

 

«Falecendo o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Frei António de Sousa, bispo do Porto em 4 de junho de 1766, o Ilustríssimo, e Reverendíssimo Cabido, logo depois do seu falecimento intentou, e com efeito pôs em execução o mandar concertar a igreja da Sé; tanto por fora, como por dentro: para este fim nomeou diretor das obras ao reverendo doutor José Pedro Vergolino, Acipreste da sua catedral. A esta eleição se fez o seguinte

 

Romance

 

Senhores da Sé Vacante

Um zeloso, e grande amigo

Da vossa honra, pertende,

Que um pouco lhes deis ouvidos.

 

Assim só de vos dizer

Do muito que se está rindo

Quasi toda esta cidade

Desse vosso patetismo

 

Pois sendo vós tão discretos

E prezados de entendidos;

Fostes eleger mestre de obras

ao preclaro Vergolino!

 

Um homem, que às suas rendas

Nunca lhe soube dar tino;

Pois sempre as trouxe emprazadas

Em mãos de outro senhorio!

 

Um homem, que só de barro

Sabe formar assovios,

Pintar de pardo as paredes,

Formar no ar labirintos!

 

Um homem que tem ideias

Para gastar de improviso

Cem moedas em uma noute,

Fazendo gala do vício!

 

Um homem, que os curadores

Não lhe poderão dar isso;

Porque em todos os empregos

Sempre mostrou desvario!

 

Um homem, que governar-se

Nunca soube, e por isso

Mete em casa o Pirralho

Diretor do indivíduo!

 

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mais notáveis elementos barrocos eliminados da fachada da Sé Catedral, aquando da reintegração do século XX

 

Enfim, um homem de pedras,

Sem dar nunca um indício;

Que ainda nos séculos vindouros

Virá a ter algum juízo!

 

A este pois só achasteis

Mais capaz nesse Cabido,

Para diretor das obras;

De que todos se estão rindo!

 

Eu bem sei, que a Sé por fora

Fica um quadro de embutidos,

Um tabuleiro de damas,

Um composto de bonitos.

 

Um mapa todo de figuras,

Mui bem lançadas nos riscos;

Que as do jardim de Versalhes

Não podem ter mais feitio.

 

Eu bem sei, que agrada aos olhos

Da dama o rosto bornido;

Porém a pagar-lhe os gastos

Soa muito mal aos ouvidos.

 

Senão dizei-me senhores;

Que tem as rendas do bispo,

Para pagar as pinturas

Do chafariz do registo?

 

Tanto ferro esperdiçado

Tanto ouro embutido,

Tantas jornais, tantos óleos,

É zelo, ou desperdício?

 

Um chafariz, que se agora

Lança água do Registo;

Em vindo novo prelado

Ninguém nele molha a bico.

 

Para borrar-lhe o letreiro,

E por-lhe por subscrito;

Que se murió para el mundo

La que foi nata em Cabido.

 

Dizei-me: as pedras que estavão

Há tantos anos

Duraram agora mais

Com a reforma dos picos?

 

As tintas pelas paredes

Pelas juntas tantos riscos

Farão que tenhão mais dura

Com os fortes desse edifício?

 

Não era melhor, meus senhores,

Conservar o pardo limpo,

E cuidares lá por dentro

No que é culto divino!

 

Encher de ouro os ornamentos;

Fazer cortinas de tino;

Alcatifar a Sé toda,

Os altares todos ricos!

 

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A Sé do Porto no século XX de Maria Leonor Botelho, é um livro imprescindivel para quem queira conhecer quem e como se "fez" a Sé catedral que chegou aos nossos dias

 

Mas que há-de ser se elegestes

Um mestre de obras noviço

Que tudo quanto professa

Entesoura nos abismos!

 

E o pior, meus senhores, é

pagar-lhe o feitio;

Se estiverdes pelas contas,

Que vos der o Vergolino.

 

E haveis de ser tão bons homens.

E homens de tanto brio,

Que digais: Estamos por tudo

Sem mais forma de juízo

 

Ora tomai meus concelhos,

Assentai no que vos digo,

Recebi o rol dos gastos

Estando vós em Cabido.

 

Depois de vistas as contas,

E depois de tudo lido,

Sem que seja relator,

Porque é parte o Vergolino.

 

Por acordão resolvemos

Pague-se o que for preciso;

E tudo o que for supérfulo

Pague a parte, está dito

 

Fim»

 

*

 

Agora que terminou a leitura do documento, pergunto ao leitor: não se trata de um curioso e interessante testemunho crítico daquele espaço, daquele tempo?... 

 

_______________________________________________

1 - Não obstante desde pelo menos o século XVI existirem registos de obras na sua fábrica. A mais marcante é a substituição da capela-mor românica (em deambulatório) pela que agora existe, do início do século XVII e que resulta da vontade do bispo D. Frei Gonçalo de Morais - ver mais aqui).

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