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A Porta Nobre

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DA CIDADE DO PORTO

Sem sair da 'Praça Nova'

03.07.20

Caríssimos leitores, nesta publicação trago-vos mais duas imagens que ainda que bastante danificadas, não pude deixar de encarar com alguma curiosidade. Curiosidade pelo mistério que para mim encerravam e que se traduz num pensamento: se no Porto, que locais eram estes? A princípio não tendo a certeza de estar realmente na presença de temas portuenses, creio hoje que isso não sofre dúvida. Resta-me dizer que o leitor pode encontrar estas e muitas outras interessantes imagens, em linha, no Centro Português de Fotografia.

Atente-se na primeira:

PT-CPF-APR-001-001-007537_m0001_derivada.jpg

i1 . ver aqui

 

A imagem tem a legenda [EDIFÍCIO NÃO IDENTIFICADO] e a referência que o CPF apresenta na secção Âmbito e Conteúdo informa: «Estas fotografias foram tiradas numa ida à região do Douro, por altura das vindimas»; o que poderá confundir o mais incauto. Mas se essa informação for por ventura válida para as restantes fotografias da série, a i1 é, na verdade, um aspeto da praça da Liberdade, ao tempo em que a mesma ainda pertencia ao rei. Trata-se mais precisamente do seu ângulo noroeste, onde tem início a rua do Dr. Artur Magalhães Basto, presente na foto, à época com o designativo de travessa de D. Pedro. Se o leitor conhece o local onde agora se encontra a estátua do 'Porto', saiba que ele se vê nesta fotografia, à esquerda, onde temos alguns vultos de pessoas.

 

Em primeiro plano temos um palacete. É o edifício adquirido pelo município em 1864 por 19:200$000 réis, a Maria da Natividade Guedes de Portugal e Menezes, moradora em Coimbra e que o possuía desde 1840. Foi adquirido para nele se instalarem alguns departamentos camarários, que já se começavam a sentir apertados no seu vizinho e mais conhecido palacete encimado pelo 'Porto', ocupado pela câmara desde 1819. 

Screenshot_2.png

i2 - aspeto da praça de D. Pedro no início do século XX . o retângulo assinala o palacete da i1

 

Como última e curiosa nota respeitante a esta imagem, poderei mencionar a casa imediatamente adjacente ao dito palacete, onde em 1826 nasceu o malogrado poeta Soares de Passos.

 

Vamos então passar à segunda e mais enigmática, imagem do CPF:

PT-CPF-APR-001-001-007552_m0001_derivada.jpg

i2 . ver aqui

 

Pois é caríssimos leitores, e esta? A que local se refere esta imagem? Será no Porto? Será noutra cidade, ainda que seguramente nortenha a julgar pelo aspeto dos edifícios? Confesso que ela me fez coçar um pouco mais a cabeça... ainda assim creio ter descoberto o 'gato'. Mas antes de expor a minha tese devo referir que não estou cem por cento certo da sua correspondência, contrariamente à anterior. Ainda assim me atrevo a aventar esta hipótese por acreditar piamente que não me desvio da verdade.

 

A fotografia, como vemos, está bastante danificada. Ela apresenta-nos um local recôndito de uma qualquer rua, como tantos que existiam antes do advento da artéria rasgada a regra e esquadro entrar em força nos centros históricos das nossas cidades (felizmente nem mesmo essa moda conseguiu apagar tudo!). A imagem está identificado no CPF como [CASAL/VENDEDORES SENTADO NA ENTRADA DE PRÉDIO NÃO IDENTIFICADO], o que é justo e honesto. O que ela parece representar, quanto a mim, é um casal/vendedores sentado na entrada de prédio junto à viela do Polé!

 

A maioria dos meus leitores talvez nunca tenha ouvido falar deste arruamento; e não será de admirar. Tratava-se de uma viela esconsa e sem grande interesse histórico, que ligava a rua do Almada à praça da Liberdade e que desapareceu há quase um século. Seria, em meu pensar, um resquício das ruelas que aquela zona da praça teve no século XVII e XVIII, quando ainda por ali existia a bela fonte da arca ou da Natividade e os tendeiros que a populavam, tudo desaparecido durante a guerra civil de 1832-34.

 

Para que o leitor possa subscrever ou repudiar esta opinião, convido-o a verificar a i4, onde com um retângulo laranja assinalo a entrada da viela do Polé (confuso quanto à localização dos edifícios patentes na fotografia? Atente ao n.º 1, que assinala o antigo Palácio das Cardosas, agora Hotel Intercontinental).

 

Screenshot_1.png

i4 a entrada para a viela do Polé, nos derradeiros anos da sua existência (aqui)

 

Há um aspeto que não é idêntico nas duas imagens: na i3 a subida para a viela ainda se faz em rampa, composta por um lajeado de pedra grosseira; quer na rampa quer no próprio piso da praça naquele recanto. A i4 já nos mostra a mesma subida regularizada por um lanço de escada, assim como o piso da praça no local se encontra também ele regularizado 'à moderna'. Mas isso não será motivo para descartar a hipótese que coloco e afirmar que se tratam de dois locais distintos; pois não é a primeira vez que uma área da cidade que vai em breve desaparecer, recebe melhoramentos poucos anos antes da sua destruição. E acredito que na época em que os ditos melhoramentos foram introduzidos não fosse certo que a viela estivesse condenada ao desaparecimento; não obstante a câmara ter bloqueado a sua passagem com dois portões de ferro, tendo em atenção a higiene pública, algures antes de 1916.[1]

Finalmente, a 3 de julho de 1918, foi assinada a escritura de venda da viela e dos prédios que com a mesma confinavam pelo lado do sul, para que o Banco de Portugal pudesse aí erguer condignamente o belíssimo edifício da sua caixa filial; inaugurado em 1934, quando a viela do Polé era já apenas uma memória.

 

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1) Ano em que Alberto Pimentel o refere a pp. 56 do seu livro A Praça Nova.

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