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Fund. 30 - IX - 2009


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A publicação que vos trago hoje não é nova, agrega as duas que sobre o tema coloquei na antiga casa deste blogue com 5 anos de intervalo! É a continuação da prometida trasladação das publicações que no meu entender não merecem desaparecer; pelo que a pouco e pouco as farei aqui renascer, mesmo sabendo que várias ganharam já o direito de figurar em outros blogues.

 

 

I

Sobre este botequim diz-nos Pinho Leal no vol. VI - p. 62 - do seu Portugal Antigo e Moderno:

 

« Houve na rua de Cima do Muro, nesta freguesia de S. Nicolau, um pouco ao poente do Postigo dos Banhos, um botequim, que se tornou célebre e conhecido como nenhum outro no Porto e fora do Porto, até mesmo na Inglaterra, na Rússia, na Alemanha, na França, etc.

Era público e notório, que naquele botequim ou casa de café e bebidas, foram roubados e mortos muitos marinheiros ingleses e de outras nações, e é certo que aquela casa esteve muitos anos debaixo da vigilância das autoridades locais, persistindo, a despeito de toda a vigilância policial, os boatos mais aterradores: até que a casa foi expropriada e demolida pela câmara, como todas as circunvizinhas, para a abertura da rua da Nova Alfândega - sem se apurar o fundamento de tão sinistros boatos.

É certo que aquele botequim, todas as noites se enchia de mulheres perdidas, marujada, principalmente estrangeira, e homens de má nota; que ali havia música e danças (cancan) desonestas, e um arruido infernal até deshoras; - que ali houve por vezes rijo bofetão e grossa pancadaria, - e que muitos dos fregueses, nomeadamente marítimos russos, ingleses e alemães, lá pernoitavam, estirados no chão, com o peso do vinho, até ao dia seguinte, - dizendo as más línguas que eram embriagados artificialmente, e de propósito, pelo dono da casa, para os roubar, quando levavam consigo dinheiro, e que depois os lançava ao rio. E acrescentavam - que muitos cadáveres apareceram no Douro, que se disse serem maritimos estrangeiros que se afogaram casualmente, quando a verdade era - que haviam sido roubados e assassinados no maldito botequim...


Nunca pôde averiguar-se bem a cousa, mas parece vir a propósito o aforismo - vox populi, vox diaboli!...

O proprietário deste... botequim, enriqueceu com o seu ignóbil negócio, e era tão astuto que adivinhava sempre o dia e hora em que a polícia vinha dar-lhe busca...

Chamava-se António Pereira Porto, por alcunha o Pepino, e por isso o seu botequim ganhou o título de Botequim do Pepino.


O tal Pereira Porto, faleceu aproximadamente em 1850, mas a viúva conservou o célebre botequim (mas já muito decadente) até 1870 a 1871, data da demolição daquela rua e das ruas adjacentes. »

 

pep.jpg

O retângulo vermelho indica o local onde terá existido o botequim de António Pereira Porto, um pouco a poente do postigo dos Banhos (letra A), tal como indicado por Pinho Leal



II

Ainda sobre este célebre - por fracas razões - botequim, dei de cara n' O Tripeiro com umas preciosas notas no volume correspondente ao seu primeiro ano (1908), na secção perguntas e respostas. Tencionava verter para aqui a informação que lá surge com a descrição que Arnaldo Gama lhe faz; contudo opto por não o fazer dado que iria repetir a informação já difundida no blogue Porto, de Agostinho R. da Costa aos nossos dias.

Apenas apenso a essa informação a seguinte, com caráter já secundário, mas que está também na tal secção de perguntas e respostas, escrito por um tripeiro de gema batizado em S. Nicolau:

« O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e imediações. As desordens ali eram frequentes. O prédio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Ingleses para a Alfândega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era acusado pela imprensa adversária por ter sido freguês do mesmo café, quando era guarda da Alfândega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro.

 

 

III

Em relação ao dono deste estabelecimento, conheço biograficamente uma data, a do seu casamento! Isto porque no Periódico dos Pobres no Porto de 18 de Outubro de 1845, me deparei casualmente com esta notícia:

« Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado. »

Hum.. Não querendo ser má língua, fico contudo a matutar se António Pereira Porto era apenas dono de um botequim, ou haveria mais negócio nos andares superiores do seu estabelecimento?...

 

Como nota final devo acrescentar que é muito estranho que Pinho Leal diriga o ano da morte de António Pereira Porto para os anos 50 do século XIX, quando no Arquivo Municipal do Porto está o seu registo de falecimento que nos dá a sua morte como ocorrida em 6 de fevereiro de 1888. E ainda mais estranho que este registo o dê como morador na rua de Cima do Muro quando esta rua praticamente deixou de existir em 1871. Será que António Pereira Porto ficou a residir numa das casas que ainda hoje existem desta rua, hoje mais conhecida por Muro dos Bacalhoeiros?

No seu testamento, feito em 1874, António Pereira Porto declara que não tendo filhos deixava como herdeira natural a sua esposa mas também legava «vinte e cinco esmolas de mil reis a pessoas mais necessitadas desta freguesia de S. Nicolau», bem como 20$000 a distribuir pelos seus sobrinhos.

 

_________________

Publicadas originalmente no blogspot em 06.12.2009 e 13.01.2014, agora revistas. Acrescentado de um parágrafo no final, em 12.04.2018.

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