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A Porta Ŋobre

Contributos para a história da cidade do Porto

Sobre o obelisco do Mindelo

por Nuno Cruz, em 08.05.18

Após a vitória de D. Pedro IV em 1834, aquela que será por ventura a primeira proposta para erguer um monumento na praia onde teve lugar o desembarque inicial das forças liberais é originária de 1835 e da autoria de J. J. Lopes de Lima, escrita a 31 de janeiro do ano referido. No final, e após apresentação em cortes, o projeto «ficou para segunda leitura». O Diário do Porto publicou este texto em 18 de fevereiro, dias após a sua apresentação em cortes por Manuel Passos (ou Passos Manuel, como é mais conhecido desde há muito tempo para cá).

 

 

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PROJETO DE LEI

 

Art. 1.º - Na praia do Mindelo, no lugar aonde se efetuou no dia 8 de julho de 1832 o desembarque do Exército Libertador, comandado por sua Magestade Imperial o senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosissima memória, se elevará uma pirâmide triangular, de construção sólida e doradoura; mas de uma estrutura simples, e económica.

 

§ 1.º Na frente do lado do mar se lerá em grossas letras de bronze dourado - 8 de Julho de 1832 - e por baixo, em letras menores do mesmo metal, esta legenda:

Eis o dia maior da heroicidade!

Dom Pedro e os seus aqui tomaram terra:

Moveu-se ao Despotismo assídua guerra

E o Reinado nasceu da Liberdade

 

§ 2.º Na frente que olha para a cidade do Porto, se esculpirá uma lista dos Corpos que desembarcaram, formando a Expedição, sua força, e os nomes dos Senhores D. Pedro, dos seus ministros, dos seus generais, comandantes de Corpos etc.e por cima, em letras de bronze, esta legenda:

Sete mil e quinhentos combatentes

Triunfaram da fome, e dos pelouros;

O Porto o viu... e vos pasmai, Vindouros,

E imitai os seus feitos excelentes.

 

§ 3.º Na frente do lado do norte se esculpirá uma lista das forças do usurpador (cujo nome se omitirá por desprezo); e por cima, em letras de bronze, a seguinte legenda:

Em luta desigual vencer tirano

Impossível não foi, bem que pasmoso!...

Daqui aprenda o déspota orgulhoso

Quanto podem os brios Lusitanos.

 

Art. 2.º Para a fundição de todas as letras, e chapas de bronze da pirâmide, será aplicada a grande peça de J. P. Cordeiro, e mesmo, a ser necessário, mais algumas tomadas aos rebeldes, das que fizeram fogo sobre o Porto.

 

Art. 3.º A direção dos trabalhos para a construção deste monumento, será confiada por o Governo à Câmara Municipal da muito Nobre e sempre Leal Cidade do Porto; incumbindo-lhe igualmente para o futuro o vigiar sobre a sua conservação. À vista da sua proposta o Governo lhe adjudicará desde logo os fundos necessários para se levar a efeito.

 

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Curioso notar que este projeto previa uma pirâmide de três faces e com letras de bronze. Mais curioso é o simbolismo do grande canhão que D. Miguel trouxe para o Porto ver a sua matéria-prima reutilizada na fundição das letras para este monumento. Relembremos que esta célebre peça fora arrastada de Lisboa para Vila Nova de Gaia por várias juntas de bois durante semanas. Alcunhado de mata malhados, foi tão inútil que cedo os portuenses o elegeram como alvo de chacota.

 

Quanto ao monumento, a sua primeira pedra seria colocada no ano de 1840 por iniciativa de António José de Ávila; sendo custeado por doações efetuadas através de uma subscrição pública. Lentamente erguido na Praia da Memória, junto à divisão das freguesias de Lavra e Perafita, a sua conclusão dá-se apenas 24 anos depois em 1864. Contudo o memorial concretizado é muito diferente do projeto acima apresentado, para melhor em minha opinião.

 

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Imagem do obelisco efetivamente construido (foto SIPA)

 

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NOTA: Publicação originalmente colocada no blogspot em 16.05.2017